Desde priscas eras, a humanidade se deu conta da existência de pessoas diferentes, melhor dotadas do que a maioria dos seus semelhantes, em seu mero convívio social ou no desempenho de algumas funções. As primeiras percepções teriam se referido a atributos físicos: porte, destreza, e beleza. Já se disse, aliás, que o destino dos homens repousa sob o olhar de belas mulheres (Beaudelaire)…Poesia. No tempo das cavernas, enfim, a capacidade física dos homens, que os distinguia na caça e na guerra, os credenciava ao exercício da liderança de seus povos. Ainda assim, numa clássica obra de Pierre Clastres (1934-1977) – “A Sociedade Contra o Estado”, antropólogo, que pesquisou a formação das chefias em sociedades primitivas, fatores não físicos preponderavam nos seus chefes, dentre elas a elevada capacidade de expressão, a generosidade e o desapego. Isto é, habilidades especiais. Talvez tenha havido um hiato civilizatório, inclusive, entre a horda e a tribo.
A Psicologia do Século XX reduziu esta “superioridade” nas habilidades de certas pessoas, ao conhecido QI, desenvolvendo vários testes de aferição deste indicador para evidenciar pessoas de inteligência excepcional. Também neste caso, a suposta superioridade ficava reduzida à mecânica intelectual, ao que outros psicólogos se apressaram em introduzir, no fim do século, o conceito de “Inteligência Emocional”. Hoje, este assunto ganhou maior complexidade. Em primeiro lugar, não se trata propriamente de superioridade, mas desvios da “normalidade”. Há pessoas que simplesmente se situam em pontos acima e abaixo de uma curva que identifica potencialidades e comportamentos num certo universo. A Sociologia, no seu nascedouro com Emile Durkheim, já havia percebido este processo e, equivocadamente, se proposto a transformar a nova Ciência em conservadora proposta de reenquadramento social. Agora, porém, o tema passou para os Psicólogos, que procuram situar a “excepcionalidade” no campo das “formas atípicas de viver – fisiológica, mental e emocionalmente”, como frisam Sophie Prignon e Thais Mesquita em seu livro “Deu Zebra – Descobrindo a Superdotação” , Ed. Artêra, Curitiva, P:. (Aí) “são descontruídas várias ideias equivocadas sobre o tema trazendo o leitor para mais perto do superdotado real, sensível, intenso e empático, que se distancia bastante do estereótipo propagado no senso comum. Facilidades e fragilidades são descritas com minúcia a partir do entrelaçamento de pesquisas e depoimentos, convidando o leitor a refletir sobre esse universo singular, multidimensional e complexo.”
Demonstram as autoras que o Relatório Marland, lançado em 1972, mas ainda referência sobre os superdotados, já apontava de 3 a 5% dos alunos norte-americanos portadores desta excepcionalidade. Outro autor, Joseph Rensulli, ampliou esta margem para até 20%, o que significa que, em dez pessoas, duas estariam compreendidas neste fenômeno. Afirmam as autores que tais pessoas detêm esta aptidão inata, como uma espécie de “dote”, não estando ao seu alcance adquiri-la por desejo ou esforço próprio, sendo seu desenvolvimento, porém, estimulado pela família ou pela escola. Distintas terminologias e classificações procuram situar melhor este fenômeno nos últimos anos, mas quase todas as incluem sob a denominação geral “superdotação”, embora os europeus privilegiem o termo “altas habilidades”.
Há aqui uma observação importante: Em inglês skills são habilidades adquiridas enquanto abilities são faculdades naturais. Traduzidas ambas por “habilidades” podem gerar confusão. Habilidade, em português, é algo aprendido, comportamento não. “Comportamento é uma força interior que lhe permite agir” (apud.pg 14). Atentos a isso, autoridades já providenciaram adequação terminológica tanto no Plano Nacional de Educação (2001) , como no Conselho Brasileiro para a Superdotação, criado em 2003. Para efeitos práticos, as autores, desde o título da obra, tratam o assunto como “Zebra”, ou seja, uma espécie singular no mundo animal, avessa à domesticação e que, inclusive, inexiste no popular “Jogo do Bicho”.
Importa registrar aqui, segunda as autoras, que o superdotado não é um ser quantitativamente superior, apenas diferente, com elevada afetividade, marcado por extrema sensibilidade e percepção da alteridade:
“Ser superdotado é ter uma personalidade marcada sempre por esse duplo traço: uma poderosa inteligência que funciona de forma qualitativamente distinta e uma intensa sensibilidade que impregna todos os momentos da vida”, segundo Jeanne Siaud-Fcchin (cit).
Eis, pois, algumas características dos superdotados, segundo Prignon e Mesquita no citado livro (pg42):
“RAIO X
Sua forma de pensar (processamento acelerado, inter-relacionando questões de áreas diferentes)
Sua originalidade para resolver problemas
Sua extraordinária rapidez para aprender
Seu sobressalente poder de concentração
Sua extraordinária capacidade de memória
Sua extrema facilidade de aprendizado, mas não necessariamente em tudo.
Sua sensibilidade superlativa
Sua empatia exacerbada
Sua sede incontrolável por novidades e saberes em profundidade
Sua receptividade emocional intensa a respeito do seu entorno e dos outros
Sua necessidade incessante de questionar tudo sempre até chegar ao cerne da questão
Sua lucidez aguçada que poucas vezes os deixa em paz
Seu senso moral aguçado, marcado pelo idealismo e pela intolerância à injustiça
Sua incomparável capacidade de automatizar tarefas mais simples, liberando energia do cérebro para trabalhar questões mais complexas
Sua busca incessante em enxergar sentido no que realizam
Sua marcada consciência da finitude da vida”

