OPINIÃO – CONTEXTO DA SAÚDE NO HOSPITAL DE TORRES

A VOZ DOS BAIRROS - Por Dani dos Santos Pereira

9 de setembro de 2026
Dani dos Santos Pereira

Segunda feira (31), da tribuna da Câmara de Vereadores, o Vereador Rafael Silveira fez   cobranças que concentram se na transparência e fluxo dos recursos públicos, mas o dilema entre a falta de gestão apontada pelo vereador e a superlotação estrutural apontada pela direção hospitalar, reflete o maior desafio do sus.

A manifestação do parlamentar surge em um momento delicado, coincidente com o anúncio feito pela própria direção do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes de que a instituição está operando acima de sua capacidade máxima. Devido a essa superlotação, a administração hospitalar decretou uma situação de restrição temporária no atendimento. O hospital informou que estava a priorizar exclusivamente os casos de maior gravidade (urgência/emergência) e os pacientes que chegam regulados via SAMU. Na quarta-feira (02), a situação já estava mais normalizada – mas o cenário tem gerado adiamentos e longas esperas para os procedimentos eletivos da região.

Quando um hospital de caráter regional opera constantemente acima de sua capacidade máxima, a superlotação é um problema puramente estrutural e matemático, e não apenas uma falha administrativa localizada. A nível técnico e assistencial, a dinâmica que explica este cenário divide-se em dois pontos de vista opostos:

 

O Lado Técnico: A Realidade da Falta de Leitos

 

Pressão Regional: O Hospital Nossa Senhora dos Navegantes (HNSN) não atende apenas Torres, mas é a referência para toda a microrregião do Litoral Norte. A procura cresce a um ritmo muito superior à estrutura física instalada.

Efeito Funil: Se o número de macas na emergência e de leitos de internação é fixo, qualquer aumento sazonal ou aumento da população fixa gera um bloqueio. Sem vagas para internar, os pacientes acumulam-se no pronto-socorro, forçando os adiamentos de cirurgias eletivas.

Barreira na Regulação: A criação de novos leitos (principalmente de UTI ou de alta complexidade) depende de verbas e da habilitação do Ministério da Saúde e do Estado, algo que muitas vezes demora anos para ser aprovado.

 

O Lado Político: A Crítica do Vereador

 

Foco no Orçamento e Contratos: O papel constitucional de um vereador é fiscalizar a aplicação do dinheiro público municipal. A crítica política foca-se na premissa de que, se existem verbas milionárias destinadas à instituição, a gestão deveria conseguir otimizar o fluxo ou contratar mais equipes para acelerar as altas e os exames.

Desconexão com a Prática: Como aponta, muitas vezes o debate político foca-se na cobrança por “atendimento rápido” sem considerar os limites físicos da engenharia hospitalar. Dinheiro ou contratação de pessoal não conseguem “criar” espaço físico imediato onde os leitos simplesmente não existem.

Em suma, enquanto a fiscalização política exige respostas imediatas sobre os recursos, os profissionais de saúde e os gestores enfrentam uma barreira física: sem novos leitos financiados pelo Estado e pela União, o hospital continuará a trabalhar em situação de restrição sempre que a procura regional disparar.

Para compreender a fundo o problema da saúde na região, é essencial analisar as duas frentes que determinam o destino dos pacientes em Torres: a barreira física da falta de leitos locais e a fila eletrônica do Estado.

 

Projetos de ampliação no hospital de Torres (a infraestrutura)

 

Duplicação de Leitos de UTI: O hospital conseguiu oficializar a duplicação dos seus leitos de UTI Geral. Cinco leitos criados temporariamente para a pandemia foram habilitados em definitivo pelo Ministério da Saúde, estabilizando a unidade com 10 leitos de UTI. Embora tenha sido um avanço, o número continua no limite frente à procura regional de oito municípios em redor.

Pleito de Ampliação e Obras: A Prefeitura de Torres, em reuniões diretas com a Secretaria Estadual da Saúde (SES), tem cobrado apoio financeiro do Estado para projetos de reforma física e ampliação de serviços da instituição. No entanto, a construção de novas alas de internação hospitalar de grande porte ainda depende da liberação de grandes montantes de verbas e da burocracia dos governos estadual e federal.

 

Nota: Enquanto a ampliação do hospital avança a passos lentos, o município foca-se em aliviar a porta de entrada construindo novas estruturas básicas, como a nova UBS das Praias Sul.

 

O Funcionamento do GERINT (A Regulação de Leitos)

 

Quando um paciente em Torres precisa de um leito de internação ou de uma cirurgia complexa que o hospital local não consegue absorver por estar superlotado (operando frequentemente entre 175% e 250% de ocupação), a vaga é disputada por meio do GERINT (Sistema de Gerenciamento de Internações).

Mapa em Tempo Real: O GERINT é uma plataforma digital que monitoriza a ocupação de leitos do SUS em todo o Rio Grande do Sul. Centralizado em Porto Alegre, médicos reguladores estaduais analisam as solicitações inseridas pelos hospitais do interior.

Critério Clínico, Não Político: O sistema funciona como uma fila eletrônica baseada exclusivamente na gravidade do paciente (risco de vida) e na compatibilidade do tratamento necessário, e não por ordem de chegada ou influência local.

O Efeito de Bloqueio Regional: Quando um paciente em Torres necessita de transferência, o GERINT procura vagas em outros hospitais da Macrorregião Metropolitana ou do Litoral. O problema é que, se os grandes hospitais de referência do Estado também estiverem lotados, o paciente fica retido na emergência de Torres à espera de uma liberação. Isso confirma o seu argumento: as críticas políticas isoladas por “atendimento demorado” ignoram que os hospitais locais estão interligados a uma complexa engrenagem estadual. Se não houver leitos físicos e vaga disponível no sistema de regulação, a gestão local do hospital fica de mãos atadas.

 




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