OPINIÃO – PERDOEM OS ESQUERDIDSTAS, MAS VOU DE TERCEIRA VIA: Lula

Lula, terceira via? Como? A eleição não está “polarizada”, entre Lula e Flávio? Não está havendo uma disputa entre “esquerda” x “direita”? Sim, tudo isso é verdade. Ou melhor , meia-verdade.

18 de outubro de 2026

Lula, terceira via? Como? A eleição não está “polarizada”, entre Lula e Flávio? Não está havendo uma disputa entre “esquerda” x “direita”?

Sim, tudo isso é verdade. Ou melhor , meia-verdade. Há bipolaridade, há um confronto entre dita esquerda e direita na disputa Lula x Flavio, mas isso não significa que ambos o sejam expressões extremadas do que  (simbolicamente) representam. O fato de que o eleitorado está dividido ao meio entre um e outro significa, apenas, que um lado defende um Programa de Governança, outro defende outro. Aliás, os dois conhecidos, visto terem como referência experiências vividas recentemente: Lula, com seu PT, herdeiro da redemocratização, Flávio tem o DNA ideológico do pai, ex-Presidente entre 2019-22. São apenas dois candidatos frente a frente, mas não antagônicos em ideias.

Partamos do que defende Flavio Bolsonaro: o Mercado, e por trás dos interesses do mercado, os empresários. Por isso sua assessoria econômica fala em cortes de gastos, embora ele se apresse a dizer que não cortará gastos sociais, nem desvinculará aposentadorias, pensões e BPC do salário mínimo, o qual na gestão do pai, jamais incorporou qualquer ganho real. Por isso, também era contra o fim da jornada 6 x 1 e já fala, pela voz do Líder do seu Partido na Câmara dos Deputados, que breve apresentará PEC alternativa com vistas à remuneração por hora trabalhada. Um horror, na minha opinião.

Isso não é nenhuma novidade. O mundo contemporâneo conheceu, desde o início da industrialização este modelo, embora clássicos como Adam Smith sempre tenham chamado a atenção para o papel do Estado. Mais recentemente, porém, rigorosamente depois da eleição de Margareth Tatcher, no RU, em 1979 e R. Reagan, um ano depois, nos Estados Unidos, cujos países já estavam às voltas com uma séria tendência à crise de suas respectivas economias, eles proclamam a Era dos Mercados, logo denominada como neoliberal, porque de reforço ao papel dos mercados como nova estratégia de governança. Em 1989, esta estratégia transformou-se em regra de governança para todo mundo ocidental : O Consenso de Washington, com ênfase nas privatizações, precarização do trabalho com corte de direitos sociais, e estímulo ao sistema financeiro. Como a crise  agravou-se, as opções políticas foram transitando para a extrema direita, à la Trump. Flavio, diga o que disser, “é” isso aí, um projeto econômico e político de extrema direita.

Vejamos Lula.

Lula é fruto da geração da redemocratização, que teve na Constituição de 1988 um compromisso com a construção de uma sociedade de bem estar, mesmo com as limitações da “renda média”, nos marcos da defesa da democracia. Geração que entrou no ar na eleição de 18 senadores do MDB em 1974, sobre as cinzas dos Anos de Chumbo que sepultou a esquerda revolucionária, aquela, sim, fortemente influenciada pelo modelo de construção de uma nova ordem socialista, guiada pelo Estado. Seguiram=-se nesta corrente, Ulysses Guimarães, com seu Plano “Esperança e Mudança” que tentou implementar no Governo Sarney,  Brizola, docilizado pela adesão à social-democracia europeia,  FHC meio híbrido, dado seu encantamento  com a “Globalização” em seu tempo (1995-2002), e daí Lula, meio radical no começo da carreira, mas atento ás limitações do seu tempo. Aderiu às Políticas Sociais. Ele próprio declarou recentemente na Europa: “Nunca fui de esquerda”. E não é. Ele é a última versão da “cordialidade” assinalada por Sérgio Buarque de Holanda, e da continuidade das mudanças ao ritmo da “conciliação” assinalada por José Honório Rodrigues.   É um homem de centro, social-democrata articulado, sim, com setores da esquerda por atavismo reacionário de nossas elites. Mas , certamente um líder que, na sequência da redemocratização, aposta na construção gradual de um Brasil melhor sem traumas.  Tanto que vários setores da velha esquerda ortodoxa o criticam com veemência, pois ele é, na verdade a terceira via em curso no país desde Ulysses Guimarães.

A ele, aos 82 anos,  meu voto, que também já foi extremista de esquerda, mas que aprendeu o caminho para a reconciliação da família brasileira dilacerada pela ditadura, que tentam “revalidar”.

 

***A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não representa necessariamente a visão editorial do meio de comunicação***




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