OPINIÃO – SER DE ESQUERDA

"Para início de conversa, é sempre bom lembrar que a denominação “esquerda” nasceu no dicionário da Política há pouco tempo: No curso da Revolução Francesa, em 1789/1799. Ela não surgiu como uma ideologia, mas sim como uma simples divisão de lugares no parlamento"

27 de junho de 2026

Os ouvidos atentos dos jornalistas captaram uma frase, no mínimo controvertida, de Lula em sua recente viagem à Paris onde participou da reunião do G7: – “ Eu nunca fui de esquerda”. Até pensei que haveria maior repercussão da fala, mas, passado o momento parece que caiu na vala comum do esquecimento. De lá a retiro, nesta crônica, não para discutir se Lula é ou não é de esquerda. Importa mais o tema em si: o que significa “ser de esquerda”?

Para início de conversa, é sempre bom lembrar que a denominação “esquerda” nasceu no dicionário da Política há pouco tempo: No curso da Revolução Francesa, em 1789/1799. Ela não surgiu como uma ideologia, mas sim como uma simples divisão de lugares no parlamento. Do lado esquerdo: Sentavam-se os membros mais progressistas e radicais. Eles queriam limitar o poder do rei, fazer mudanças estruturais profundas na sociedade e defender os direitos das classes mais baixas e trabalhadoras. Com o tempo passaram a ser chamados de jacobinos e, aliás espalharam suas ideias, alimentadas pelo iluminismo, pelo mundo inteiro. Aqui no Brasil, já se faz sentir sua influência no começo do século XIX, eis que, além do voo das ideias, brasileiros lá estavam, na Europa, vivenciando aqueles dias tormentosos e as trouxeram na bagagem em seu retorno. José Bonifácio, o Patriarca da Independência, Hipólito da Costa, além de Cipriano Barata e Luís Paulino, estes representantes do Brasil nas Cortes de Lisboa. Cipriano Barata, aliás, baiano, teria sido um dos fundadores do Partido Farroupilha, que já no começo da década d 1820, estaria articulando o radicalismo liberal no Brasil, que fermentando na Assembleia Constituinte pós Independência, levaria vários brasileiros ao exílio, inclusive o Patriarca e culminando na renúncia de D.Pedro I , em 1831.

Mais tarde o jacobinismo avançou para doutrinas revolucionárias como o anarquismo e o marxismo, vindo a melhor identificar o esquerdismo, não mais como um movimento social, mas como Filosofias Políticas. A Revolução de 1917 na Rússia foi o resultado prático deste avanço e acabou circunscrevendo sob o marxismo a denominação esquerda. À sua sombra, sempre sob suspeita de ‘liquidacionismo’,  ainda germinaram a social-democracia, o socialismo democrático e o trabalhismo inglês. Não obstante, foram os principais artífices do longo período de pacificação social no pós-guerra europeu e americano, tanto do norte como do sul, que resultou num avanço significativo da ampliação do circuito dos Direitos Humanos e de conquistas materiais da classe trabalhadora. Lula coroa, no Brasil, este período.

Ser de esquerda, portanto, embora tenha sido sempre identificado com correntes doutrinárias laicas, às quais se somou na segunda metade do Século XX a Teologia da Libertação, é uma expressão vaga que mais apontaria para lideranças e correntes que, ao longo da História avançaram no caminho da construção dos projetos de soberania nacional e autonomia humana do que propriamente seguidores de correntes ideológicas. Neste sentido, poderíamos até dizer que Cesar, Napoleão, Lenin, Trotski, Roosevelt, Cardenas, Perón , Vargas e Lula, são mais de esquerda do que reacionários.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***




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