OPINIÃO – VERANISTA: EU VIVO ONDE VOCÊ VERANEIA

Não me leve a mal quem pensa diferente, mas há verdades que só quem mora nelas consegue enxergar. Você, veranista, veraneia — perdoe a redundância — onde eu moro... Esta não é apenas a sua “praia” - é a nossa cidade.

Vista aérea de Torres (foto por Neuza Luz)
13 de janeiro de 2026

Não me leve a mal quem pensa diferente, mas há verdades que só quem mora nelas consegue enxergar.

Você, veranista, veraneia — perdoe a redundância — onde eu moro.

Enquanto você conta os dias para descer a serra, eu acordo aqui numa terça-feira qualquer de julho. Acordo com o vento sul, com o barulho do caminhão do lixo, com a escola abrindo o portão, com o hospital funcionando em plantão cheio. Acordo com a cidade vivendo — mesmo quando o sol não brilha para cartão-postal.

Não, esta não é apenas a sua “praia”.

Esta é a nossa cidade.

Durante muito tempo fomos vistos como figurantes de um cenário de férias. Como se existíssemos apenas para servir mesas, varrer calçadas, cuidar de casas fechadas nove meses por ano. Como se nossa vida começasse em dezembro e terminasse depois do Carnaval. Como se fôssemos invisíveis no resto do calendário.

Não, não somos analfabetos.

Não, não somos serviçais.

Não, não temos vergonha de morar onde moramos.

E não, vocês não são melhores — nem piores — do que nós.

Somos apenas gente. Gente que mora.

Sim, somos bicuíras — e muitos de vocês também viraram, sem perceber, quando decidiram ficar.

Sim, trabalhamos como garçons, atendentes, zeladores, recepcionistas. Trabalhos básicos, sim, mas essenciais. Sem eles, a cidade simplesmente não funciona.

Mas também somos professores que dão aula em salas cheias no inverno. Somos historiadores que guardam a memória enquanto a cidade muda. Somos médicos que atendem quando não há turista algum para ver. Somos advogados, comerciantes, hoteleiros, restauranteiros, pedreiros, jornalistas, dentistas,servidores públicos. Somos o que sustenta a engrenagem quando o verão vai embora.

Sim, dependemos do dinheiro que vocês trazem. Isso nunca foi negado. Mas não são só vocês. O turista também existe — e em quantidade. Existe o visitante de passagem, o viajante curioso, aquele que chega sem achar que a cidade lhe pertence. E esses, curiosamente, costumam enxergar melhor.

Sim, tiramos férias no verão.

Sim, temos vida no chamado “inverno” — que para nós é apenas o resto do ano.

Aqui há emprego, há ensino, há saúde, há pressa, há rotina, há vida em todos os meses.

Então, caro veranista, venha para Torres sabendo que não encontrará mais o mesmo cenário que seus pais, avós e bisavós encontraram. Aquela vila silenciosa, aquela praia quase intocada, aquele lugar que existia só para o descanso de poucos — isso ficou no passado.

Você já vê isso há algum tempo, mas talvez ainda não enxergue. A cidade cresceu. Mudou. Melhorou. E que bom que mudou. A antiga “sua praia” virou cidade de verdade. Com problemas, claro. Com desafios. Mas viva. Funcionando. Respirando o ano inteiro.

A “tua praia”, agora, é a nossa cidade.

Você continua sendo bem-vindo. Sempre foi. Desde que entenda que ela é sua, sim — mas também é nossa. Que as ruas não são só caminho para o mar, que as calçadas não são extensão da temporada, que o comércio não abre apenas para servir, mas para sobreviver. Que as praias, as praças, os morros e todas as belezas daqui pertencem a todos: moradores, veranistas e turistas.

Se você nunca pensou que existia mais alguém na “sua praia”, talvez seja hora de abrir os olhos. Não precisa abaixar a cabeça em culpa nem levantá-la em soberba. Apenas olhe para frente.

E lá estarei eu.

O torrense.

Morando onde você passa férias.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***

 




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