OPINIÃO – VOLTAMOS AOS TEMPOS DO BIG STICK: “Speack softly, and carry a big stick!”

Trump agora interveio militarmente na Venezuela, capturando o casal Maduro, numa virtual decapitação do regime bolivariano. Eles serão submetidos a 4 acusações já enunciadas pela Procurador Geral e acabarão na cadeia: conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos

Theodore Roosevelt and his Big Stick in the Caribbean. (by William Allen Rogers, 1904)
3 de janeiro de 2026

“Aparentemente, a Venezuela tornou-se o primeiro país sujeito a esse imperialismo moderno, o que representa uma abordagem perigosa e ilegal para o papel dos Estados Unidos no mundo. Ao prosseguir sem qualquer aparência de legitimidade internacional, autoridade legal válida ou endosso interno, o Sr. Trump corre o risco de fornecer justificativa para regimes autoritários na China, na Rússia e em outros lugares que desejam dominar seus próprios vizinhos.” (Editorial NYTimes – 3 jan de 2026)

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A história se repete, cada vez mais farsesca, mas nem por isso menos trágica. Na década de 1930 Hitler sobe ao Poder, na frágil República de Weimar, na Alemanha, com o PARTIDO NAZISTA, sobre os ombros do Movimento Popular S.S. (Sturm Apteilung= turma do porrete). Na Noite das Facas Longas, em 30 de junho de 1934, já consolidado com plenos poderes no poder, com o apoio do Exército, liquida fisicamente este movimento e seus líderes. Daí em diante substitui o movimento de base pela retórica mobilizadora, com o apoio de Goebbels. Em 1939, depois de ter prometido um ano antes aos líderes europeus que se conformaria com a retomada dos Sudetos, de maioria alemã, ocupa o Corredor Polonês, ocupa Dantzig, e se vat-en-guerre.

Trump sobe pela segunda vez ao Poder com o MAGA, um movimento também populista, com o qual manipulou muito bem a baixa classe média e até trabalhadores antes adeptos aos Democratas, prometendo voltar-se para os interesses internos da Nação. Tudo conversa fiada.

Agora reedita o american way of rulling e é cada vez mais intervencionista sobre o exterior. Já bombardeou o Afeganistão, o Iêmen, a Nigéria etc. e agora interveio militarmente na Venezuela capturando o casal Maduro, numa virtual decapitação do regime bolivariano. Eles serão submetidos a 4 acusações já enunciadas pela Procurador Geral e acabarão na cadeia: conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos . O ato consagra o relevo de seu Secretário de Estado, Marc Rubio, um latino-americano de origem cubana, enraivecido com os regimes não alinhados da América Latina com os Estados Unidos.

Com isso, Trump aposenta o MAGA, reduzido cada vez mais aos bonés ilustrativos que tanto contribuíram para sua vitória em 2024. Seu pronunciamento, hoje – 3 jan/26 -, seguido de sua entrevista sobre o ataque à Venezuela, revela não apenas suas verdadeiras intenções, mas sua determinação, com o DONROE – Corolário da Doutrina Monroe 2025, em forjar a ferro e fogo um alinhamento dos países ditos ocidentais – e lá estamos nós! – aos interesses americanos. É impressionante que, em lugar de enumerar razões “razoáveis” para o ataque tenha e delineamento sobre como “administrar” a Venezuela, tanto ele, como seus Ministros, tenham se detido tanto na valorização da ação dos militares no evento, num discurso verdadeiramente infantil, como quem comenta os lances de sua equipe numa partida de futebol.

Diante do ocorrido, o mundo (ainda) civilizado denunciará o barbarismo, fará notas de protesto, alegará a CARTA DAS NAÇÕES UNIDAS que proclama em seu art. 4º o princípio da soberania das Nações já consagrada em 1648 no Tratado da Westphalia, ao cabo da Guerra dos 30 anos. Em vão. A brutal ação americana não criará nenhuma crise internacional. Apenas agravará um cenário de tensões já visíveis, não só nos enfrentamentos armados na Ucrânia e Gaza, como no rearmamento cada vez maior da Europa, até do Japão. O Brasil tergiversa e falou pela nota do Presidente Lula, para o qual “ Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional. Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.”

Muitos estão contestando o excesso de diplomacia de Lula, que evita citar Trump como responsável pelo ataque, respaldando-se em argumentos institucionalistas da tradição do Itamaraty. Esquecem, porém, estes críticos, que o próprio Lula não só é refém de uma conjuntura insólita, cercado por um Congresso, uma imprensa, um empresariado conservadores, como objeto do itinerário do cercamento da América Latina pelos Estados Unidos. Move-se sem medo, mas muita cautela, sabendo que poderá, como Cesar, ser apunhalado nas escadarias do Senado. Depois alguém dirá: – “Mas Brutus é um homem honrado…”

Realmente, foi muito grave a ação norteamericana, mas, reconheçamos, não é inédita. Reedita o velho slogan do Big Stick do Presidente Ted Roosevelt (1901 -1909), o “Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe”, durante todo o século passado em várias partes do mundo, inclusive na promoção das ditaduras militares no Cone Sul da América Latina, para não falar na longa e sangrenta Guerra Suja do Vietname, e presente na derrocada dos regimes da Líbia, do Iraque, do Afeganistão, e nos bombardeios recentes sobre o Irã. Como disse, certo dia o ex Presidentes Carter, insuspeito: – “Os Estados Unidos é a nação mais guerreira da história do mundo, pois quer impor aos Estados que respondam ao nosso governo e aos valores”. Ao falar ao mundo, em entrevista à imprensa ainda hoje, Trump, pelo menos teve a gentileza de não prestar homenagem ao vício com ironias. Proclamou alto e bom tom o objetivo da ação sobre a Venezuela: Pirataria. “Recuperar o petróleo que nos roubaram”… Isso, apenas.

O fato concreto, fruto da dinâmica histórica, é que o ciclo do pós II Guerra, em 1945, com suas instituições e sua geopolítica, encerrou-se. Vivemos as dores do parto de um novo desenho internacional das nações, com a possível confirmação de um mundo menos ortodoxo, sem polo dominante, e com políticas mais adequadas ao financiamento do desenvolvimento das nações mais pobres. Aquilo que parecia o FIM DA HISTÓRIA com a queda da URSS em 1991, com a euforia hegemônica dos Estados Unidos sobre o planeta, mediante imperativa fórmula de governança conhecida, desde 1989, como Consenso de Washington, alterou-se com a emergência da China, hoje com poder de com eles se confrontar econômica, tecnológica e militarmente. Sob o guarda chuva desta nova China, O Sul Global desperta e ameaça com a criação do BRICS um novo tempo. Estados Unidos, com Trump, até parece reconhecer a inevitabilidade deste novo recorte e prepara-se para reforçar sua hegemonia sobre o que lhe resta, segundo ele, depois de haver perdido várias outras áreas de influência no mundo.

Não se sabe bem o que ocorrerá, doravante, na Venezuela. A vice presidente Delcy Rodriguez tomou posse em cerimônia secreta no comando do país, sob o aplauso dos principais protagonistas do Estado Bolivariano, sem negar a liderança de Maduro e exigindo-lhe sua pronta libertação, enquanto o Presidente Trump anuncia que o “administrará”, como se fosse um campo extração de petróleo e não uma nação. Curiosamente, já descartou a famosa Corina e o candidato supostamente eleito nas últimas eleições, apesar do incondicional apoio que têm dado à intervenção. Lembra, neste sentido, o líder civil do golpe de 1964 no Brasil, Carlos Lacerda, um dos principais articuladores e defensores dos americanos no Brasil, logo cassado pelo regime militar a ponto de se dispor, em 1966 e procurar uma aliança com JK e João Goulart para a promoção da redemocratização.

Tudo, enfim, ainda confuso e inédito. Todo cuidado, com olhos e ouvidos bem abertos são recomendados.

Uma coisa, porém, me parece certa: Não são líderes populistas ou esquerdistas que colocam o mundo em risco. São os interesses, sempre, das grandes potências colonialistas e neocolonialistas.

 

** as opiniões dos colunistas de A FOLHA Torres são independentes e não necessariamente representam a posição do veículo de comunicação**




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