Relembrei desta casa a partir de uma restauração feita por uma IA (Inteligência Artificial), um assunto que já abordei aqui neste espaço. E, como já tinha escrito sobre ela, nada melhor que reviver essas memórias, e claro, subsidiar o virtual roteiro histórico e turístico da cidade proposto em colunas anteriores.
A Casa Azul da rua Alfiero Zanardi, número 461, em Torres, ainda está de pé. Mas por pouco. Em breve, talvez seja apenas pó, saudade… ou nem isso.
Ela parece saída de um filme antigo, desses que passam devagar, com tons envelhecidos e uma trilha sonora suave. Dizem que foi construída nos anos 1950 ou 60, e desde que me entendo por gente, ela esteve ali — firme, azul, serena.
Conheço essa casa há mais de 50 anos; ou seja, ela é bem mais antiga. Por muito tempo, acreditei que pertencia a uma figura inesquecível da minha infância: Dona Venúncia. A primeira vendedora da Avon que conheci — talvez a primeira da cidade. Era uma senhora vaidosa, elegante, sempre com um chapéu bem posto e uma maleta cheia de perfumes, batons e pequenas novidades que faziam as mulheres sorrirem.
Lembro bem dela. Batia à porta da minha mãe — e de tantas outras — e entrava com aquele jeitinho doce de quem conhece a alma da casa. Sentava, oferecia os produtos, mas vendia muito mais do que isso: vendia conversa, vendia tempo. Uma boa senhora, que se foi como viveu: discretamente. Não lembro quando partiu. Só soube de sua morte muito tempo depois, como se o silêncio tivesse sido sua última escolha.
Durante décadas, associei o nome dela àquela Casa Azul. Até que um dia, alguém postou uma foto da casa no Facebook. E, como num jogo de quebra-cabeça em que as peças não se encaixam mais, surgiram novas versões. Vários comentaram. Vários donos apareceram. A certeza virou dúvida.
Talvez Dona Venúncia apenas alugasse a casa. Talvez fosse caseira. Em Torres, isso era comum. A cada comentário, surgia uma nova história, com nomes e dados que tentavam validar as memórias. E a verdade — bem, a verdade começou a se esfarelar.
Um dos relatos dizia que a casa era de Dona Amélia — seria ela a própria Amélia Venúncia? — e que os netos agora tentam vendê-la. Dizem que a casa é toda feita de peroba, madeira nobre, daquelas que desafiam o tempo e resistem até ao fogo. Tentaram incendiá-la, disseram. Mas ela não se entregou.
Outro relato indicava a família do Dr. Mário Fernandes, de Caxias do Sul, como os verdadeiros proprietários. Lembraram dos irmãos Fran e Rosa. Aparentemente, aquela casa pertenceu a uma família distinta, e não àquela senhora de chapéu que guardo na memória.
Também surgiram histórias de fantasmas. Dizem que, à noite, com a mobília antiga ainda no lugar, o clima lá dentro ganha ares de filme de suspense. Pode ser. Mas quem, em sã consciência, entra numa casa velha à noite só para conferir?
A verdade — ou o que resta dela — é que eu, como tantos outros, me enganei por poucos metros. O delay da infância, essa confusão que o tempo impõe entre o que foi e o que achamos que foi, empurrou Dona Venúncia para a casa errada. A dela era a casa ao lado. Não a azul.
Mesmo assim, a Casa Azul permanece como um símbolo. Não só de uma arquitetura que resiste, mas de uma época em que as pessoas batiam à porta, sentavam, conversavam. Um tempo em que a pressa ainda não tinha tomado conta de tudo.
Hoje, essa casa figura ou figurava – ninguém mais sabe – em uma pré-lista do Inventário do Patrimônio Histórico Edificado de Torres, feito pelo antigo COMPHAC (o que realmente tinha razão de ser). Mas a gente sabe que essa lista, por si só, não segura retroescavadeira. Outras casas, igualmente registradas, já foram ao chão. E, com o apetite voraz da construção civil na cidade, não há certeza sobre quanto tempo mais ela resistirá.
Talvez, um dia, onde agora mora a Casa Azul, surja um prédio espelhado, cheio de janelas fechadas. Mas quem se lembrar dela — da casa ou da senhora — saberá que ali viveu uma história. Que ali moraram memórias.
A Casa Azul, com suas histórias emaranhadas e sua resistência quase mítica, nos lembra que as memórias são como as próprias casas antigas: podem ser belas, cheias de vida, mas também frágeis e suscetíveis ao tempo e às novas narrativas. O que fica, no fim das contas, não é apenas a estrutura física, mas a essência do que representou e as lembranças que ela despertou em cada um de nós. Que a história dessa casa, real ou inventada, sirva de convite para olharmos com mais carinho para os vestígios do passado que ainda teimam em resistir, antes que eles se tornem apenas pó e silêncio.
FONTE FOTO: Facebook – Fotos antigas de Torres.
