Seu Alberto, o magnífico sonhador: Em 23 de outubro de 1906, Santos Dumont faz, em Bagatelle, Paris, voo de cerca de 60 metros a aproximadamente 2 metros do chão, com o 14-bis. Ele era mineiro, estudou e viveu boa parte de sua vida em Paris, mas seu negócio era voar. E voou, levando todos nós com ele. Emocionado com seus passeios de balão em Paris, ele inventou o avião e deixou suas próprias memórias do primeiro vôo, em seu livro ‘Meus balões’, do qual nos lembramos pelo texto a seguir
“Guardo uma recordação indelével das deliciosas sensações de minha primeira tentativa aere.
Cheguei cedo ao parque de aerostação de Vaugirard, a fim de não perder nenhum dos preparativos. O balão, de uma capacidade de setecentos e cinqüenta metros cúbicos, jazia estendido sobre a grama. A uma ordem do Sr. Lachambre, os operários começaram a enchê-lo de gás. E em pouco da massa informa começou a se transformar numa vasta esfera.
Às 11 horas os preparativos estavam terminados. Uma brisa fresca acariciava a barquina, que se balançava suavemente sob o balão. A um dos cantos dela, com um saco de lastro na mão, eu aguardava com impaciência o momento da partida. Do outro, o Sr. Machuron gritou:
– Larguem tudo!
No mesmo instante, o vento deixou de soprar. Era como se o ar em volta de nós se tivesse imobilizado. É que havíamos partido, e a corrente de ar que atravessávamos nos comunicava sua própria velocidade. Eis o primeiro grande fato que se observa quando se sobe num balão esférico.
Esse movimento imperceptível de marcha possui um sabor infinitamente agradável. A ilusão é absoluta. Acreditar-se-ia, não que é o balão que se move, mas que é a terra que foge dele e se abaixa.
No fundo do abismo que se cavava sob nós, a mil e quinhentos metros, a terra, em lugar de parecer redonda como uma bola, apresentava a forma côncava de uma tigela, por efeito de uma fenômeno de refração que faz o círculo do horizonte elevar-se continuamente aos olhos do aeronauta.
Aldeias e bosques, prados e castelos desfilavam como quadros movediços, em cima dos quais os apitos das locomotivas desferiam notas agudas e longínquas. Com os latidos dos cães, eram os únicos sons que chegavam ao alto. A voz humana não vai a essas solidões sem limites. As pessoas apresentavam o aspecto de formigas caminhando sobre linhas brancas, as estradas; as filas de casas assemelhavam-se a brinquedos de crianças.
Meu olhar sentiu ainda a fascinação do espetáculo quando uma nuvem passou diante do sol. A sombra assim produzida provocou um esfriamento do gás do balão, que, murchando, começou a descer, a princípio lentamente, depois com velocidade cada vez maior. Para reagir, deitamos lastro fora. E eis a segunda grande observação a que se é levado com os balões esféricos: alguns quilos de areia bastam para restituir ao indivíduo o domínio da altitude!
Readquirimos o equilíbrio acima de uma camada de nuvens. Aí, planando a cerca de três mil metros, deslumbramos (leia-se vislumbramos) a vista com um panorama maravilhoso. Sobre esse pano de fundo de alvura imaculada, o sol projetava a sombra do balão; e nossos perfis, fantasticamente aumentados, desenhavam-se no centro de um triplo arco-íris. Pelo fato de não vermos mais a terra, toda noção de movimento deixaria de existir para nós. Poderíamos avançar com a velocidade de um furacão, sem nos apercebermos. Nenhum meio de conhecer o rumo tomado, senão descer e determinar nossa posição.
O som de um alegre carrilhão chegou aos nossos ouvidos. Os sinos tocavam o “Angelus” do meio-dia. Havíamos levado uma refeição substancial: ovos duros, vitela e frango frios, queijo, gelo, frutos, doces, champanha, café e licor. Nada mais delicioso do que semelhante repasto acima das nuvens. Que salão de refeições ofereceria mais maravilhosa decoração? O calor do sol, pondo as nuvens em ebulição, fazia-as lançar em derredor de nossa mesa jatos irisados de vapor gelado, comparáveis a grandes feixes de fogo de artifício. A neve, como que por obra de um milagre, espargia-se em todos os sentidos, em lindas e minúsculas palhetas brancas. Por instantes os flocos formavam-se, espontâneos, sob os nossos olhos, mesmo nos nossos copos!
Acabava eu de beber um cálice de licor quando uma cortina desceu subitamente sobre esse admirável cenário de sol, nuvens e céu azul. O barômetro elevou-se rapidamente cinco milímetros, indicando uma brusca ruptura do equilíbrio e uma descida precipitada. O balão devia ter-se sobrecarregado de muitos quilos de neve; caíam com uma nuvem.
A neblina nos envolveu em uma obscuridade quase completa. Distinguíamos ainda a barquinha, nossos instrumentos, as partes mais próximas do cordame. Mas a rede que nos prendia ao balão não era mais visível senão até certa altura; e o balão, ele próprio, desaparecera.
Experimentamos assim, e por um instante, a singular sensação de estarmos suspensos no vácuo, sem nenhuma sustentação, como se houvéssemos perdido nosso último grama de gravidade e nos achássemos prisioneiros do nada opaco.
Após alguns minutos de uma queda que amortecemos soltando lastro, vimo-nos abaixo das nuvens, a uma distância de cerca de trezentos metros do solo. Uma aldeia fugia debaixo de nós. Localizamos o ponto e comparamos nossa carta com a imensa carta natural que a vista lobrigava. Foi-nos fácil identificar as estradas, os caminhos de ferro, as aldeias, os bosques. Tudo isso avançava para o horizonte com a própria rapidez do vento.
A nuvem que provocara a nossa descida era prenúncio de uma mudança de tempo. Pequenas rajadas começavam a impelir o balão da direita para a esquerda e de cima para baixo. De espaço a espaço o cabo-pendente – uma grande corda de uns cem metros de comprido, que flutuava fora da barquinha – tocava no chão. A barquinha não tardou, por sua vez, a roçar as copas das árvores.
O que se denomina fazer o cabo-pendente apresentou-se-me assim em condições particularmente instrutivas. Tínhamos ao alcance da mão um saco de lastro: se um obstáculo qualquer se apresentava no caminho, soltávamos alguns punhados de areia; o balão subiria um pouco e aquele seria vencido.
Mas de cinqüenta metros do cabo arrastavam-se já pelo chão. Não era preciso tanto para nos mantermos em equilíbrio a uma altitude inferior a cem metros, pois havíamos decidido não exceder disso até o fim da viagem.
Esta primeira ascensão permitiu-me apreciar devidamente a utilidade do cabo-pendente, modesto acessório sem o qual a aterrissagem de um balão esférico apresentaria graves dificuldades na maior parte dos casos. Quando por uma razão ou outra – acúmulo de umidade sobre a superfície do balão, golpe de vento de cima para baixo, perda acidental do gás, ou mais comumente ainda, passagem de uma nuvem diante do sol – o balão baixa com velocidade inquietadora, o cabo em apreço, arrastando a parte pelo solo, deslastra todo o sistema de uma parte de seu peso e impede ou , pelo menos, modera a queda. Na hipótese contrária, se o balão manifesta uma demasiado rápida tendência ascensional, esta poderá ser contrabalançada pelo levantamento do cabo, o que ajunta um pouco mais do seu peso ao que pesava, antes da manobra, o sistema flutuante.
Como todos os inventos humanos, entretanto, o cabo-pendente, se tem vantagens, tem também seus inconvenientes. Pelo fato de arrastar sobre superfícies desiguais, sobre campos e sobre prados, sobre colinas e sobre vales, sobre estradas e sobre casas, sobre sebes e sobre fios telegráficos, imprime ao balão violentas sacudidelas. Acontece às vezes que, após ter-se enrolado , ele se desembaraça instantaneamente; ou se prende a qualquer aspereza do solo, ou engancha ao tronco ou aos galhos de uma árvore. Não faltava senão um incidente deste gênero para completar minha aprendizagem.
(…)
Quem quer que aspire navegar em aeronave deve, preliminarmente, exercitar-se em algumas aterrissagens em balão esférico, por menos que ele se importe em pousar sem tudo espatifar a um tempo: balão, quilha, motor, leme, propulsor, lastros de aguar, bidões de essência.
Quando tivemos que executar estar última manobra, o vento, que era muito forme, constrangeu-nos a procurar um local abrigado. Do extremos da planície avançava ao nosso encontro um recanto da floresta de Fontainebleau. Em alguns instantes, à custa do nosso último punhado de lastro, contornamos a extremidade do bosque. As árvores agora nos protegiam contra o vento. Atiramos a âncora, ao mesmo tempo que abríamos completamente a válvula para dar escapamento ao gás.
(…)
Tiramos alguns instantâneos fotográfico da cena; depois, dobramos o balão e o arrumamos na barquinha, juntamente com a rede.
O sítio que havíamos escolhido para aterrissagem pertencia ao parque do castelo de La Ferrière, propriedade do Sr. Alphonse de Rothschild. Alguns trabalhadores de um campo vizinho foram buscar uma carruagem na aldeia. Meia hora mais tarde chegava um breque. Colocamos nele a nossa bagagem e partimos para a estação da estrada de ferro, distante uns quatro quilômetros, onde tivemos um grande trabalho para descer nossa cesta com seu conteúdo, que pesava uns duzentos quilos.
As seis e meia estávamos novamente em Paris. Havíamos efetuado um percurso de cem quilômetros e passado quase duas horas nos ares.”
