Há pessoas que passam a vida inteira em uma cidade sem jamais conhecer a história que existe sob seus próprios passos. Sei que, em muitos casos, essa história permanece escondida, adormecida ou simplesmente foi poucas vezes contada. Em outras situações, falta curiosidade sobre a cidade onde se vive — e isso também contribui para o desconhecimento. Espero que você, que está lendo esta coluna, tenha essa curiosidade e siga comigo, porque a história é realmente interessante.
Torres, assim como tantas cidades litorâneas, teve seu surgimento ligado a pequenos núcleos de pescadores. Sua particularidade — situada na fronteira entre dois estados — é que, diferentemente de grande parte do litoral brasileiro, desenvolveu-se a partir da criação de um forte, de uma guarda militar e, mais tarde, da construção de uma igreja, elementos que impulsionaram a formação de uma pequena vila. Essa é a história registrada em diversos livros já publicados. Mas hoje quero ir um pouco além: voltar às origens do tipo de turismo que transformou uma pequena vila de pescadores em um polo turístico conhecido muito além das fronteiras do Rio Grande.
A cidade completou recentemente 148 anos de emancipação política, mas sua origem é muito mais antiga. Estima-se que já existisse, em 1740, um pedágio em Torres; em 1777, um fortim; e, em 1801, um presídio. Somente após a construção da igreja, em 1824, consolidou-se de fato um núcleo urbano — e, a partir daí, a história da cidade tomou outro rumo. Quando traçamos um paralelo entre essas datas e os acontecimentos mundo afora, percebemos como as transformações culturais e sociais da Europa ecoavam até aqui, neste canto meridional do Brasil.
Foi apenas em 1701 que o médico inglês John Floyer publicou o livro História do Banho Frio, defendendo os benefícios terapêuticos da água salgada para diversas doenças, incluindo a paralisia. Na segunda metade do século XVIII, a cidade inglesa de Brighton consolidou-se como o primeiro grande balneário marítimo do mundo — herdeira direta das estâncias termais de Bath, onde a medicina já prescrevia as águas como tratamento. Brighton tornou-se o embrião da vilegiatura marítima como prática médica.
Mais tarde, a França transformou essa prática em um verdadeiro estilo de vida. Em Biarritz, o imperador Napoleão III mandou construir uma residência palaciana para a imperatriz Eugénia de Montijo. Já em Deauville, o Duque de Morny criou, em apenas quatro anos, o destino de praia mais elegante da elite parisiense. Inglaterra e França acabaram exportando esse modelo para o mundo inteiro — inclusive para o Brasil, onde ele chegou com a corte portuguesa, em 1808, e também por influência da imigração europeia no Sul ao longo do século XIX.
A expressão curismo (do latim cura, cuidado/tratamento) designava a prática de viajar a balneários com fins terapêuticos, antecessora do turismo de lazer moderno. O termo foi amplamente usado no Brasil meridional no início do século XX para descrever as temporadas de banhos medicinais no litoral gaúcho.
O banho de mar foi, portanto, a etapa mais recente de uma tradição terapêutica com mais de cinco mil anos. A praia tornou-se o último “templo” de uma cultura de cura que começou nas fontes sagradas do Egito antigo, passou pelas termas romanas e chegou às ondas do Atlântico.
Quando Torres ainda era apenas um fortim perdido entre dunas e oceano, o curismo — como se chamava a prática de buscar cura nas águas do mar —começava a nascer na Europa. Quanto tempo levaria para que aquelas ideias atravessassem o Atlântico e chegassem até aqui? Nas próximas semanas, prometo contar essa história. Até lá.
Fontes: Vilegiatura marítima — história e origens (artigos acadêmicos UERJ, Universidade Nova de Lisboa, Alain Corbin); Balneários no RS e no Brasil — SciELO, Brasiliana Fotográfica, Academia.edu; História dos banhos terapêuticos na Antiguidade — Enciclopédia Médica, Wikipedia, Sapo Lifestyle; Futuro das praias — Nature Climate Change, INCA, JAMA Dermatology; Balneários franceses — National Geographic, LeBlog.
