A cobertura internacional (e as opiniões) sobre as manifestações no Brasil

22 de junho de 2013

 

New York Times (foto) e jornais do mundo vêm dando destaque para os acontecimentos no Brasil

 

 

Nos últimos dias, as imagens de torcedores sorridentes e sambistas foram definitivamente substituí­das no noticiário internacional sobre a Copa das Confederaçíµes. No lugar delas entraram as imagens da população indignada, que foi as ruas para protestar.

O jornal norte-americano The New York Times publica um texto com vários adjetivos informando que os manifestantes reclamaram do alto custo de vida e gastos extravagantes com a Copa do Mundo de 2014. Também faz crí­ticas í  ação policial, avaliando que houve o uso da mão pesada por parte dos policiais.

Em um artigo de opinião, intitulado "Apesar do boom das commodities, o Brasil está perto de entrar em ebulição", o jornal britânico Daily Telegraph diz que a frustração que desencadeou os protestos no paí­s se explica pelo fato de as pessoas "terem perdido fé no processo polí­tico", a exemplo do que ocorreu em outros paí­ses da região. O texto, assinado por Daniel Hannanfaz, faz uma retrospectiva dos acontecimentos polí­ticos nos paí­ses da América do Sul, que, nas últimas três décadas saí­ram de ditaduras militares, passaram por governos neoliberais que "desperdiçaram suas chances e, em desespero, optaram pela esquerda populista".

 

"Corruptos demais"

 

Na presença online do conceituado jornal Sí¼ddeutsche Zeitung, da Alemanha os tumultos brasileiros eram o principal destaque na manhã desta terça-feira, chegando ao alto de página. No subtí­tulo da reportagem, o diário sentencia que "mesmo para os brasileiros, fanáticos por futebol, os custos da Copa são elevados demais, e os polí­ticos e dirigentes esportivos são corruptos demais".

O enviado especial do periódico ao Brasil escreve que, enquanto estádios condenados a virar "elefantes brancos" são construí­dos a preços milionários, setores como educação e saúde "sangram", citando um dossiê revelado pela equipe do deputado federal Romário, segundo o qual "entre 2002 e 2010, quase a metade das escolas foram fechadas, principalmente no interior".

O correspondente do Handelsblatt, diário também alemão, especializado em economia, fala que "os protestos inflamados podem ser o começo do fim da presidência" de Dilma Rousseff, embora o jornalista reconheça que ela ainda seja favorita para a eleição do ano que vem. Em seu comentário sobre os tumultos no Brasil, ele lembra das ondas de manifestaçíµes estudantis anteriores que começaram "difusamente", mas acabaram provocando "terremotos polí­ticos", referindo-se indiretamente ao movimento que levou ao impeachment de Fernando Collor de Melo ou í s passeatas pelas Diretas Já.

 

"Tapa na cara"

 

O repórter do suí­ço Neue, Zí¼rcher Zeitung, também traça um paralelo com o fim da gestão Collor e explica, em sua reportagem, que os aumentos de preços de passagens foram apenas "a última gota", que fez transbordar as frustraçíµes populares, representadas por "um ensino público sucateado, uma medicina de duas classes distintas, uma polí­tica de transporte orientada para o transporte individual e a violência nos estádios". São problemas que, segundo ele, contrastam "com uma arrecadação cada vez maior do Estado", que "gasta bilhíµes nos megaeventos esportivos", situação considerada por muitos "um tapa na cara".

O espanhol El Paí­s reflete a perplexidade do governo brasileiro com a revolta das ruas na matéria Brasil: um sonhou ou um pesadelo? A reportagem destaca que uns consideram o momento um "sonho de democracia, um despertar, depois de anos de silêncio", para expressar insatisfação com a "qualidade de vida oferecida pelo governo, com a corrupção e com o desperdí­cio de dinheiro público", mas que pode acabar em pesadelo "pelos gestos de violência de alguns grupos extremistas". O periódico sublinha que a grande maioria dos brasileiros se manifesta pacificamente por uma "democracia mais autêntica, mais participativa".

 

"Fantasia acabou"

 

Um editorial publicado nesta quinta-feira no diário britânico Financial Times diz que os protestos mostram que os brasileiros se deram conta de que o "glorioso novo paí­s" propagado pelo governo seria uma "fantasia", citando que "espetaculares 10 anos de crescimento" tiraram "cerca de 30 milhíµes de pessoas da pobreza" com novas demandas que não foram atendidas. A chamada nova classe média, indica o jornal, "pode consumir como nunca", mas "as mudanças sociais em outros setores não acompanharam as demandas desta nova classe, ainda precária".

O editorial cita ainda que "não há problema" em cultivar a imagem global do Brasil com investimentos de US$ 12 bilhíµes em estádios de futebol, mas "não quando a vida é tão dura para a maioria". "Brasileiros pagam impostos iguais aos de primeiro mundo e recebem em troca serviços públicos de má qualidade de paí­ses em desenvolvimento".

 

"Bom momento para protestar"

 

Os atuais protestos em várias cidades brasileiras resultam do fato de que os brasileiros "caí­ram na realidade", na avaliação do sociólogo francês Alain Touraine, que escreve para o jornal francês Le Monde e é especialista em América Latina, autor de inúmeros livros sobre movimentos sociais. Para ele, os protestos aproximaram a imagem que se tinha do Brasil  internacionalmente, da realidade do paí­s.

"Construiu-se uma imagem do Brasil em que tudo vai bem e que o paí­s se dirige rapidamente em direção ao crescimento e ao bem-estar", disse ele. "Fico feliz ao ver que o que acontece atualmente no Brasil corresponde melhor í  realidade do paí­s do que as imagens que vinham sendo transmitidas", afirmou."í‰ ridí­culo ter a imagem de que há sucesso em todas as áreas, sobretudo em um paí­s como o Brasil, onde as instituiçíµes são fracas e a corrupção é profunda", disse Touraine, que foi professor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O sociólogo definiu os movimentos de protestos no Brasil como a "quebra da esperança", um sentimento de "decepção, que cria uma situação favorável ao descontentamento.Quando há crescimento econí´mico e ele diminui, como é o caso do Brasil, isso representa exatamente o bom momento para protestar", disse ele, que continua. "O balanço da situação brasileira é bom. Mas o paí­s sofre desigualdades e benefí­cios do desenvolvimento são muito mal distribuí­dos", afirmou."O Brasil ainda está muito longe de ter um ní­vel de distribuição de renda aceitável".

 


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