AO BALONISMO E ALí‰M! Uma maté ria sobre Pessoas, Estrutura e Aleatoriedade

6 de maio de 2013

Balíµes decolando para a prova de Caça a Raposa, na quinta-feira

 


*Por Guilherme Rocha

 

A matéria que você vai ler agora   falará sobre diversas impressíµes, descriçíµes   e pontos de vista percebidos no  multifacetado Festival de Balonismo, que tornou-se numa feira cheia de possibilidades e que vai muito além da tradicional competição entre balíµes.

 

 

 

Primeira impressão

 

Tarde de quarta-feira, primeiro de maio, feriado do Dia do Trabalhador. A maioria das lojas em Torres está fechada, e poucos transeuntes passam pela principal rua da cidade, a Barão do Rio Branco. Pego meu carro e me dirijo ao parque do Balonismo, local onde o mais tradicional festival de balíµes do Brasil está tendo seu primeiro dia de atividades. E lá chegando, entendo o porque da cidade estar quase vazia: o estacionamento do parque está lotado, os torrenses aparentemente debandaram em massa para curtir o feriado e o primeiro dia de Balonismo.

Estaciono ao lado de um carro que leva um bagaceiro adesivo na lateral: "Inimigos do Silêncio". Imagino a barulheira que o motorista deste "Inimigo do Silêncio" deve proporcionar aos coitados dos ouvidos alheios. Quando saio do meu Celta, uma criança meio maltrapilha vem me pedir uns trocados. "Não tenho nada", digo, apesar de ter uns pilas e umas moedas na carteira. Passo os olhos pelas placas dos carros, e numa análise prévia percebo que não apenas os torrenses estão presentes no Festival do Balonismo: há veí­culos de Sombrio, Passo de Torres, Três Cachoeiras, Dom Pedro de Alcântara, Xangri-lá, Porto Alegre, Taquara, Caxias do Sul, Florianópolis. Também vejo um adolescente um tanto desatento acertar, em cheio, com sua bicicleta, uma mulher que cruzou sua frente, e que acabou caindo no chão. Nada de grave, felizmente, mas a mulher meteu uma bela bronca no guri constrangido.

 

Praça de Alimentação

 

Me dirijo até a área central do festival, onde uma música ambiente recepciona os visitantes, saindo pelas várias caixas de som espalhadas no espaço ao ar livre. Na arquibancada quase cheia, as pessoas observam alguns balíµes inflarem, num ato que deve se repetir várias vezes até o domingo. São incrí­veis mesmo os balíµes, gigantescas gotas de nylon e uma tremenda ferramenta de publicidade. Felizes as empresas que tem sua logomarca estampadas em um balão.

Continuo caminhado e chego na praça de alimentação. Lá há várias tendas montadas, vendendo lanches, petiscos, doces, sorvetes e bebidas para as pessoas. "í‰ uma boa oportunidade para fazer um dinheiro fora de temporada de veraneio. Esperamos que o público continue bom nos próximos dias, apesar de não termos feriadão neste Balonismo", afirma Paulo, o proprietário da Match Lanches, empresa daqui de Torres que trabalha especificamente em eventos.

Enquanto isso, no mesmo espaço, o cantor Gardelito, acompanhado de seu violão, se apresenta para o público flutuante, tocando umas baladas clássicas da músicas latinas. Ele é apenas a primeira das mais de 40 atraçíµes musicais que passarão pelo Festival de Balonismo, sendo que a maioria é formada por artistas locais. Uma boa iniciativa pela valorização da cultura torrense, bandas e cantores de vários estilos irão se apresentar. Mas, na praça de alimentação, Gardelito e outros músicos locais vão ter de se empenhar para conquistar a atenção do disperso público, frequentemente  mais atraí­dos pelos seus comes e bebes, seu passeio e suas conversas, do que pela música em si.

 

Rio Mampituba

 

Me encontro também com meu antigo professor de Biologia, Benedito Ataguile, figura folclórica e marcante nos meus anos de ensino na Escola São Domingos. Ele está presente no estande da Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba, onde há também uma maquete do nosso sinuoso rio e seus arredores.

O Mampituba termina nas águas marí­timas de Torres, mas ao longo de toda sua extensão o rio, seus vários afluentes e as lagoas por ele nutridas passam por 7 municí­pios do Rio Grande do Sul e 10 de Santa Catarina, além de servir de divisa entre os dois estados. A Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba é gigante, uma área de 1.940 quilí´metros quadrados, área esta muito ocupada por lavouras (principalmente de arroz). Um banner no estande alerta que este processo de ocupação por lavouras vem degradando a natureza ao redor da bacia hidrográfica, e reduzido drasticamente os indiví­duos de espécies nativas da fauna e flora.

 

Empresas, entidades, associaçíµes

 

O estande da Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba é apenas uma das dezenas de tendas instaladas no Parque do Balonismo. São vários espaços com atraçíµes paralelas de objetivos diversos, que vão do informativo ao educativo, do cultural ao turí­stico, do teor capitalista ao teor social. Os grandes   balíµes inflados podem ser o chamariz do festival, mas a verdade é que o Parque do Balonismo tornou-se uma multifacetada feira. As possibilidades de compra de produtos é vibrante, criativa e, na medida do possí­vel, igualitária: há espaço para associaçíµes rurais venderem produtos coloniais, associaçíµes de mães mostrarem suas confecçíµes e seu artesanato. Belas orquí­deas também estão a venda, assim como confecçíµes, acessórios e até imóveis.

í‰ interessante perceber o quanto o Festival do Balonismo foi incorporado pelas empresas, associaçíµes e entidades públicas torrenses. São muitos os que conquistaram seu espaço no "parque de exposiçíµes", pessoas divulgando seus produtos, seu trabalho, buscando fazer bons negócios, achar soluçíµes. Uma tenda da Emater mostra ao curioso público alguns bonitinhos filhotes de Marrecos de Pequim, que de opção alternativa já se tornaram numa vitoriosa forma de controle de pragas em lavouras de arroz, além de opção para deliciosos pratos culinários. "Os patos são engraçados, não sabia que podia comer eles também", me diz um garoto de seus 10 anos, ainda surpreso com a nova descoberta. Também há um pequeno açude improvisado, onde peixes nadam e o público fica sabendo que a piscicultura vêm crescendo na região, propiciando uma diversificando a produção agropecuária.  Há poucos metros de distância, cachorrinhos para adoção balançam o rabo, esperançosos em encontrar novos donos entre os transeuntes.

Paro e observo um pessoal que tenta vender a assinatura de uma conhecida revista nacional. Acho até engraçada a abordagem apelativa, quase desesperada e meio constrangida, dos jovens para chamar a atenção dos muitos visitantes do Balonismo que passam em frente ao seu balcão. Mas mais interessante ainda foi perceber, nos poucos minutos que observei a cena, a reação das pessoas quando seus ouvidos eram assediados por estes vendedores: A maioria fazia de conta não ter ouvido, mas uma mulher respondeu rindo "Nessa eu não caio, obrigado!", e outra indagou, "Mas pra que eu vi me servir isso?".

 

Artes Plásticas, resgate histórico, teatro

 

Há ainda um espaço cultural no parque, onde quadros de artistas retratam belezas naturais de Torres e resgatam, de forma lúdica, os festivais de Balonismo anteriores. Há ainda presença dos quadros da nossa já reconhecida Renata Reis, além das obras do criador da Bioarte, Marlon Selva. "O festival cria esta oportunidade cultural também, incentivando a   preservação da memória e a divulgação de artistas de nossa cidade. Os alunos do Pastor Dohms, por exemplo, fizeram recriaçíµes de obras famosas de mestres da pintura como Van Gogh e Tarcí­lia do Amaral", me diz a artista plástica Celina Ten Caten, apontando para as coloridas obras dos alunos.

Na mesma tenda cultural, uma pequena multidão reuniu-se para acompanhar a adaptação teatral da obra "Negrinho do Pastoreio", de Simíµes Lopes Neto. Realizado pela Cooperativa de Artistas Teatrais Oigalê, o espetáculo conta a conhecida saga gaúcha de um escravo que, por ter perdido uma corrida de cavalos, é cruelmente torturado até a morte pelo seu senhor, e passa a ser conhecido como procurador das coisas perdidas. "Apesar de ser uma peça com teor originalmente dramático, buscamos a interação com o público e a introdução de um pouco de humor. Ficamos felizes de ter a presença de uma boa quantidade de pessoas, de todas as idades, acompanhando a peça e aplaudindo ao final", indica Giancarlo Cartomagno, um dos membros do grupo Oigalê.

 

Música

 

Nem o Rappa, nem Jota Quest…. no jornal A FOLHA, em destaque, a música gospel de Misael Monteiro

 

Voltando para a ampla área de alimentação, me encontro com o camarada Estevão Tertuliano Santos Pereira, comunicador da rádio Plenitude FM, de Três Cachoeiras. Ele está sentado, esperando pela apresentação de seu amigo, o cantor gospel Misael Monteiro, que se apresenta juntamente ao seu irmão. Estevão me conta que os irmãos tocam juntos há mais de 10 anos, e que, embora não tenham gravado nenhum CD ainda, já tem algumas cançíµes produzidas, que são inclusive tocadas na rádio Plenitude FM.

Continuamos a conversa sobre música, um dos meus assuntos preferidos. Cito a crescente popularidade da música gospel, e Estevão explica   "A música gospel mexe com   o lado sentimental do ouvinte, uma música confortante onde a letra tem importância, por isso vêm cativando um número cada vez maior de pessoas". O comunicador ainda faz uma crí­tica ao excesso de clichês na musica pop atual. "São muitas cançíµes falando apenas do amor, da desilusão amorosa, do clima de pegação e da traição. São assuntos muito batidos, letras muito simples, bagaceiras ou fracas. As batidas e arranjos das músicas também são frequentemente parecidos. Mas é claro que é o público quem define aquilo que é popular ou não, e se estas músicas estão nas paradas, é porque os ouvintes gostam delas", conclui Estevão, e o show gospel dos Irmãos Monteiro começa. Misael tem uma voz potente e afinada, mostra em sua música a vontade de um cantor que gosta do que faz. A música acaba, e a princí­pio o público disperso da praça de alimentação não aplaude. Então aplaudo primeiro, e dai muitos outros me seguem, para a satisfação da dupla gospel. "í‰ assim mesmo que funciona: um tem que começar para os outros seguirem", digo para Estevão, me despedindo.

Em oposição a realidade das bandas e músicos locais, em busca de maior espaço e reconhecimento, ocorrerão no Balonismo alguns shows de artistas já consagrados nacionalmente: a banda pop Jota Quest, com seus hits e seu vocalista de voz anasalada, o Rappa de Falcão,   com suas letras densas e crí­ticas que conquistaram um lugar de respeito no pop music, o "batidão" do MC Jean Paul e a popularí­ssima dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano. Para estes artistas, a promessa é de casa cheia e publico atento, conforme me indica a Secretária da Fazenda de Torres, Maria de Fátima Cechin. "Ainda é quarta-feira, e já estamos vendendo o terceiro lote de ingressos para o show do Zezé de Camargo e Luciano. Os outros shows nacionais também estão com boa procura, já estão no segundo lote".

O dia vai tornando-se noite, e o relógio marca 18h17 quando entro no meu carro e saio do festival do Balonismo. E não sou o único que decido sair neste horário: dezenas de veí­culos também debandam, buscam espaços numa especialmente engarrafada avenida Castelo Branco. Mas este é um trânsito até que compreensí­vel, prova do sucesso de público no primeiro dia de um evento que tem a cara de Torres.

 

Balonismo em si

 

í€s 16h35 do dia seguinte (quinta-feira), retorno ao parque do Balonismo. Em boa hora. Chego exatamente quando dezenas de coloridos balíµes ganham os céus, para deleite do público e de suas máquinas fotográficas. Também aproveito o belo espetáculo e tiro varias fotos. Depois, pergunto para um dos representantes da Air Show (empresa que cuida da parte técnica do Balonismo) que prova está acontecendo no momento. "í‰ a Caça í  Raposa, quando todos os balíµes saem em perseguição de um balão isca. Este balão isca irá parar em um lugar aleatório, e deixara um alvo no chão. Então, os competidores irão tentar chegar o mais próximo possí­vel deste alvo, e atirar uma marca (que é um saco de areia). Aquele cuja marca ficar mais perto do alvo, vence", explica ele.

O caça í  raposa é apenas uma das várias provas que serão disputadas entre os balonistas. O resultado de cada uma das provas valerá certa quantia de pontos, e o competidor que tiver mais pontos no somatório final é coroado vencedor do Festival de Balonismo.

 

Aleatoriedade

 

Continuo minha caminhada no Parque do Balonismo, decidido a entrevistar mais algumas pessoas, pegar mais alguns pontos de vista sobre diferentes tópicos. Enfim, complementar esta matéria de forma informativa, mas sem deixar de lado um princí­pio pouco explorado no jornalismo em geral: a aleatoriedade. Ao assumir um caráter efetivamente aleatório, o jornalista veste uma carapuça e esconde, pelo menos momentaneamente, a sua parcialidade, assume de forma mais honesta o quase utópico conceito de isenção.

Nesta quinta-feira, como esperado, o público já não é tão grande quanto o presente no feriado da véspera. Mas ainda assim, trata-se de um bom público. Converso com o casal torrense Alexandre e Fernanda, acompanhados de seus filhos Ariel e Gustavo. Paulo elogia a estrutura do festival, segundo ele melhor organizado do que em outros anos. "Também é grande a presença de empresas por aqui, bastante opçíµes paralelas para se entreter e até aprender. E também já compramos nosso ingresso para o show de Zezé de Camargo e Luciano, que vai estar imperdí­vel!", exalta.

Me despeço da famí­lia, dou mais uns passos e vejo o estante dos telecentros cheio, local onde as pessoas podem usar os computadores cedidos para se conectar í  internet. "Não sei usar muito bem a internet, mas meu filho e meu neto tem tentado me ensinado nos últimos tempos. O computador é a máquina do futuro, mas nós, que somos mais velhos e simples, acabamos ficando para trás", me revela Leomar Matos, 64 anos, morador do Passo de Torres que está acompanhado de seu neto, Gabriel, de 12.

Passo pelo Parque de Diversíµes do Rei Center Park, que, como nos últimos anos, está  instalado dentro da estrutura do Balonismo. Uma bela opção de entretenimento e adrenalina para os visitantes, principalmente para as crianças. Há brinquedos clássicos: carrossel, carro choque, barco viking, o temido Kamikase. Mas aquele que é uma das atração mais conhecida de um parque de diversíµes não está lá: a Roda Gigante. Gosto da estrutura do brinquedo, acho a roda gigante charmosa, uma boa forma de fazer um grau com a namorada, por exemplo. Uma pena que ela não esteja lá. Fiquei triste. Brincadeira, nem me importo.

 

Um final preguiçoso

 

Deveria escrever mais coisas sobre o que vi nestas duas tardes, em que passeei e observei com olhos desfocados (mas atentos) o Festival do Balonismo de Torres. Tenho mais umas tantas anotaçíµes que podem virar informação, mas, sinceramente, já estou de saco cheio de escrever. E, além do mais, o espaço pré-determinado para está matéria já se esgotou. O meu público, meus milhares de leitores espalhados por 76 paí­ses, que me perdoem. O Festival do Balonismo tornou-se,   inevitavelmente, um mundo de possibilidades grande demais para caber nesta reportagem.

Eu poderia falar sobre o estande da saúde, que afere a pressão dos visitantes interessados, distribui camisinhas, presta orientaçíµes sobre odontológicas. Poderia falar sobre a presença da ULBRA, do SESC, do Banrisul e da Prefeitura no evento.  Poderia falar sobre o xadrez gigante, sobre a pista de skate, sobre a especulação para venda de imóveis, sobre os meios de comunicação presentes. E na verdade, eu acabei de falar sobre isso tudo, você leu nas frases anteriores, não é? As palavras escritas são maravilhosas por isso mesmo, porque já nascem mortas e eternas.

Enfim, ainda quer saber mais sobre o Balonismo,  não é? Então, você pode ser um/uma vivente participativo/a e ir até lá, ver tudo com seus próprios olhos! Mas você não está em Torres, é? Que azar. De qualquer jeito, aqui termino esta matéria.

 

Festival do Balonismo também teve exposição de cães para adoção  

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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