EDITORIAL- Empregada doméstica e a informalidade” no Brasil

30 de março de 2013

 

 

 Sentir na pele o que se faz

Com os outros pode ser

um bom começo para uma ampla

reforma tributária no Brasil

 

 

Está em debate no Congresso Nacional a questão da Igualdade Laboral das chamadas empregadas domésticas. A questão é emblemática. Como a categoria não participa do setor produtivo da economia (trabalha para pessoa fí­sica), bem como o legislador, que na maioria das vezes, também não faz parte deste sistema que produz (a maioria dos polí­ticos não é empresário), a choradeira é grande. O legislador esbanjou no Brasil ao criar as leis trabalhistas mais complexas e pesadas do mundo, mas não incluiu nas mesmas pesadas leis os empregados que eles (legisladores) utilizam em seu dia-a-dia: as empregadas domésticas. Incrivelmente, o legislador pregou a moral vestindo somente cuecas, como chamamos no dito popular. Prega a justiça laboral ao trabalhador, mas não quer que a mesma justiça aconteça onde ele (burocrata) necessita de trabalhador… í‰ o Brasil…

O que mais fica evidente na questão é a hipocrisia polí­tica generalizada. O debate coloca estampado também, em letras garrafais, a hipócrita e burocrática lei trabalhista no Brasil. Sugere regulamentaçíµes muito difí­ceis de serem fiscalizadas por um lado: os opositores da questão indicam que haverá informalidade crescente no mercado, sempre na tentativa de continuar preconcebendo a categoria de empregada doméstica como uma categoria inferior (o que não o é). E esquecem que mais da metade dos trabalhadores considerados empregados no Brasil trabalham justamente nesta categoria, a da informalidade e são considerados trabalhadores, pelas estatí­sticas que mostram desemprego crescente na nação, já abaixo dos 10%, item comemorado e marqueteado pelos governos federal, estaduais e municipais.

 

Atualmente os camelí´s, por exemplo, se tornaram uma categoria informal formalizada. Muitos deles podem, inclusive, vender produtos contrabandeados que as autoridades fazem vista grossa, o que movimenta um grande mercado sujo no Brasil, o do contrabando e o do descaminho. Atualmente, alguns fiscais da receita federal podem estar comprando sua calculadora nova em bancas de camelí´s, pois o preço é metade do mesmo produto comprado na loja. Este é um dos vários exemplos da ˜formal informalidade™ no Brasil. Os chamados de catadores de lixo são o exemplo mais moderno. Possuem atualmente até polí­tica pública formal para regulamentar suas profissíµes, o que os tornaria empreendedores. O cúmulo da hipocrisia estatal, que no fundo escraviza pessoas que trabalham com a aquilo que é escória para a maioria da sociedade, em um dos ambientes mais insalubres. Na regulamentação dessa classe (dos catadores), a administração pública não aponta claramente o pagamento de insalubridade, periculosidade, dentre outras burocráticas normas da lei laboral no Brasil. A questão está tão enraizada na polí­tica pública oficial que, atualmente, por exemplo, as cidades que querem receber recursos federais para melhorar o sistema de recolhimento de lixo são obrigadas a incluir os catadores de lixo no processo. Uma polí­tica pública formal para infringir uma lei básica dos direitos humanos: o do pagamento proporcional e adicional pelo trabalho insalubre e perigoso, como é o caso dos catadores, a mais nova categoria dos empreendedores do Brasil, que devem se unir aos camelí´s, que não possuem nenhuma insalubridade em seu trabalho, apesar do risco de serem pegos e agredidos em alguma blitz da Polí­cia Federal.

O legislador é a verdadeira elite no Brasil. Seu modus vivendi se trata do perfil do grande consumidor da classe média alta. São pessoas que trabalham para o sistema governamental, muitos com contratos de trabalho Estável, outros oriundos do sistema polí­tico partidário da nação. í‰ natural que a sociedade, portanto, conviva com estas patéticas realidades legais. O exemplo da empregada doméstica estampa para nós, simples viventes, o descalabro que são as leis brasileiras, principalmente as que regulam a relação de trabalhador e empregador. No sistema produtivo, í quele onde as leis pesam na competitividade das empresas no mercado internacional (e que acabam evitando que mais empreendedores surjam no Brasil), a lei é calcada em impostos, taxas e regras laborais tão complexas que não seria exagero contratar contadores com PHD em Harvard para cuidar da imensidão de guias e datas de recolhimento de obrigaçíµes trabalhistas. Mas a elite do Brasil, í quela que ganha salário estável, que recebe salários de marajás, é justamente quem legisla. E o caso da empregada doméstica estampa a tendência dos legisladores de trabalharem em causa própria ao legislar. Taxam quem produz e paga seus salários através de impostos, mas não quer pagar leis básicas de direitos humanos para as empregadas domésticas, pois aí­ iria onerar os custos de suas casas. Talvez tivessem que cair de ní­vel de casa ao trocar de equipamento e pagar a prestação de um carro de R$ 50 mil ao invés de pagar a de um carro de R$ 100 mil, ao ser obrigado a onerar seus orçamentos pagando os direitos trabalhistas í  suas empregadas domésticas, uma questão justa e que deveria fazer parte do todo desde sempre.

Uma reforma drástica em TODO o sistema de relação entre Capital e Trabalho no Brasil deveria ser votada em Brasí­lia. Simplificar tudo e retirar impostos em cascata pagos por empregadores, impostos estes que deveriam ser subsí­dios governamentais, seria uma e boa primeira medida. E incluir as categorias informais no sistema de trabalho é outra medida que urge. Assim como urge que se considere o trabalho da empregada doméstica tão digno e merecedor de direitos como qualquer outro. Há de se dar opção para as empregadas de serem autí´nomas ou serem empregadas. Ao optarem, o brasileiro comum vai ter a liberdade de contratar um serviço autí´nomo (e sem direitos trabalhistas) ou contratar um serviço sistêmico, com deveres trabalhistas a serem pagos, de preferência em UMA taxa só.

Mas os legisladores devem entender que seus salários também são CAPITAL. O orçamento doméstico baseado em salários polpudos são tão ou mais sujeitos í s taxaçíµes quanto os salários de empregados em empresas. Sentir na pele o que se faz com os outros pode ser um bom começo para uma ampla reforma tributária no Brasil

 

 

 


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