Biodiversidade preservada na ILHA DOS LOBOS

14 de agosto de 2015

 

O jornal A FOLHA conversou sobre a preservação ambiental, os animais e o surf na Ilha dos Lobos com o chefe da unidade de conservação, Ney Cantarutti Junior. A foto acima foi  tirada neste inverno de 2015: Ilha dos Lobos habitada (CRí‰DITOS: Paulo Ott)

 

Por Guile Rocha

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A cerca de 1,8 km da costa de Torres, em frente a Praia Grande, encontra-se a Ilha dos Lobos, única ilha marí­tima do Rio Grande do Sul. O local tem esse nome em razão dos piní­pides (lobos e leíµes marinhos) que lá habitam, animais que chegam do litoral uruguaio e argentino a procura de nossas águas mais quentes,   ideais para o acasalamento. Ao aportarem no aglomerado de pedras que é a Ilha dos Lobos, cujo perí­metro é pouco maior que um campo de futebol,   os piní­pedes estão protegidos por lei ambiental.

A Ilha dos Lobos também serve de refugio para golfinhos, baleias, botos aves e tartarugas marinhas. Ela é classificada por decreto federal, desde o ano de 2005, como um refúgio de Vida Silvestre (Revis). Com essa reclassificação, a área de proteção passou a englobar um perí­metro de 142 hectares no entorno da Ilha dos Lobos. Antes disso, o local era classificado como uma reserva ecológica, e a área de proteção era menor (de 500 metros para qualquer direção em relação a ilha).

 

Os lobos (e leíµes) da Ilha

 

O jornal A FOLHA conversou com Ney Cantarutti Junior, gestor da unidade torrense do Instituto Chico Mendes (ICMBio), entidade que é responsável pela proteção ambiental do local. Segundo ele, entre 70 e 80 lobos e/ou leíµes marinhos estão habitando a Ilha dos Lobos neste inverno – e este número de indiví­duos vêm se mantendo constante nos últimos 10 anos durante o perí­odo de inverno (até porque a Ilha dos Lobos é um espaço muito pequeno, sem capacidade de alojar muitos animais além disso).

Já quando o verão vai se aproximando, a grande maioria dos Lobos e Leíµes Marinhos retorna para as águas mais frias ao sul, restando apenas uns poucos na Ilha dos Lobos, geralmente 2 ou 3 animais machos e em idade avançada, que não teriam condiçíµes de realizar a jornada migratória. E Ney ainda conta uma curiosidade: "Por cerca de 4 anos, observamos que apenas um grande e velho Leão Marinho macho habitou a Ilha dos Lobos durante os meses mais quentes, se tornando num verdadeiro sultão daquela área até que morreu de velhice, em cima da ilha", relata ele, que ainda explica: "Os   piní­pedes são territorialistas, e é comum que machos dominantes formem uma espécie de harém para si, conquistando seu território pela força e, assim, podendo acasalar com diversas fêmeas".

Um relatório da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural) de 1982, fala de verdadeiros massacres de lobos e leíµes-marinhos em volta da Ilha dos Lobos. Encontravam-se filhotes solitários na costa, órfãos cujos pais haviam sido assassinados. Além disso, a pesca de arrastão era frequente, bem como a retirada abusiva de mariscos que se alojavam na ilha. Por razíµes como esta, a Ilha dos Lobos virou reserva ecológica, através de um decreto assinado pelo presidente João Batista Figueiredo, em 23 de fevereiro de 1983. Atualmente, como relata o gestor do ICMBio em Torres, a pesca ao redor do local é proibida, controlada por satélite (via GPS, para embarcaçíµes maiores) e pela observação in loco. "Além do mais, fomos progressivamente conquistando o respeito dos pescadores", conclui Ney.

 

Sobre as rotas das Baleias-Francas

 

Cantarutti Junior lembra que Torres foi recentemente incluí­da num grande projeto (com o patrocí­nio da Fundação Grupo Boticário) para o monitoramento das Baleias Francas, visitantes usuais de nossas águas nos meses mais frios do ano. Ele também ressalta que, com o amparo de estudos realizados junto a Revis Ilha dos Lobos,   vêm sendo feito revelaçíµes importantes sobre as rotas migratórias das Baleias Francas. "Foram recolhidas amostras da camada de gordura (usa-se um tipo de arpão para isso, mas sem machucar o animal) de indiví­duos da espécie, e com a análise do material genético das baleias-francas podemos acompanhar suas rotas. Com base nestes estudos, percebe-se que as rotas das Baleias Francas do hemisfério norte são diferentes das que vivem no hemisfério sul, e vem sendo refutada a hipótese de que as baleias se locomoviam entre os dois polos do planeta. A área que serve de habitat para os indiví­duos desta espécie é menor do que se imaginava", indica o servidor do ICMBio.

Nos anos 70 e 80, a população de baleias francas encontrava-se em risco de extinção em decorrência da pesca predatória destes animais.  Mas a proteção ambiental a estes animais vem conseguindo reverter o quadro. E nos últimos 10 anos, segundo informou Ney, a população de Baleias-Francas vem crescendo gradualmente em nossos mares torrenses, aumentando cerca de 10% ao ano.

 

Pesquisas recentes

 

O Chefe da unidade de conservação Ilha dos Lobos lembra que diversas pesquisas são realizadas na área que engloba a Revis Ilha dos Lobos – e novas parceras também estão sendo efetivadas. Estão em ação projetos do Grupo de Estudo de Mamí­feros Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS) – vinculado ao CECLIMAR, da UFRGS – que recebe uma verba através do Fundo Brasileiro Para Biodiversidade (FunBIO). "Este projeto também privilegia o Revis Ilha dos Lobos, e angaria recursos para pesquisas, equipamentos (reforma ou aquisição) e para a criação do conselho para posterior elaboração do Plano de Manejo da Ilha dos Lobos".

  Entre os estudos que estão sendo elaborados na Revis Ilha dos Lobos – atualmente, em parcerias com as universidades UFRGS, UERJ, FURG e UNISINOS –   Ney ressaltadas alguns: o GEMARS vêm com o estudo "Redescobrindo a Ilha dos Lobos, e pesquisando as rotas migratórias dos Lobos e Leíµes Marinhos – através da marcação individual dos animais –   e trabalhando com a preservação dos Golfinhos Nariz-de-Garrafa,que habitam os mares de nossa região (e até a foz do Rio Mampituba). Outra pesquisa é a que o professor Walter Nisa vem realizando sobre espécies de tubaríµes que vivem em nossa região (em geral caçíµes, espécies pequenas de tubarão).

 

A questão do Surf na Ilha dos Lobos

 

Em 2010, ocorreu o MCD in Memoriam Zeca Scheffer, na Ilha dos Lobos

 

Além das espécies marinhas, outro peculiar segredo está escondido na Ilha dos Lobos: sua onda. No inverno de 2003, atiçados pelo domador local de ondas grandes, Zeca Scheffer (in memoriam), um grupo de renomados surfistas de tow-in – como Rodrigo Resende, Eraldo Gueiros, Carlos Burle – constataram o poder e a majestade da onda na ilha. O assombro com a poderosa"morra" da Ilha dos Lobos foi registrado em fotos e ví­deos, e acabou virando reportagem no Fantástico (da TV Globo), que reconheceu a onda como sendo a maior do Brasil.

Atualmente, o surf na Ilha dos Lobos é uma atividade controlada pelo ICMBio, pois o local é um refúgio de vida silvestre que busca a proteção dos lobos e leíµes marinhos que lá vivem. Mas não é uma atividade proibida, conforme indica chefe da unidade de conservação em Torres. "O protocolo padrão é que o surfista que deseja surfar na Ilha dos Lobos venha até o ICMBio e peça autorização para isto", afirma Ney, que conclui. í‰ importante que façamos o controle pois trata-se de uma unidade de conservação. Mas achamos interessante que hajam outros campeonatos de surf (como o MCD in Memoriam Zeca Scheffer, realizado em 2010) no local, desde que as restriçíµes definidas pelo ICMBio sejam respeitadas".

 


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