BRINCAR DE CORRER: A esperança de um mundo melhor no Esporte

28 de dezembro de 2015


Cerca de 100 jovens entre 10 e 20 anos participam do projeto


O esporte é um instrumento pedagógico excelente para ocupar a mente e desenvolver o corpo. Pena que o Brasil ainda precisa avançar muito nesse sentido. A sorte é que somos brasileiros… e não desistimos nunca.

Por Maiara Raupp

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A prática de esportes não é apenas um sí­mbolo de cuidado com a saúde, mas sim uma ferramenta de integração e inclusão social. Durante a prática esportiva, crianças e jovens aprendem muito mais que as técnicas que envolvem o esporte. Aprendem a ter respeito pelas regras e pelos outros jogadores, agregam o entendimento, o conví­vio com o coletivo, a resoluçíµes de conflitos, o esforço e a responsabilidade.

Enquanto em paí­ses desenvolvidos educação e esportes caminham lado a lado, sendo considerados igualmente fundamentais na formação de uma criança e de um adolescente, no Brasil vemos o contrário. Jovens têm que optar por seguir um dos dois caminhos.

Conciliar a vida de atleta e estudante não é uma tarefa fácil. Ainda mais quando o cenário em questão é o Brasil. A falta de incentivo e de polí­ticas públicas esportivas faz com que alguns atletas brasileiros deixem o seu paí­s de origem e busquem novas oportunidades.

Referência mundial para os atletas que não abrem mão da vida estudantil, os Estados Unidos adotam uma polí­tica integrada entre universidades e esportes. Muitas instituiçíµes no paí­s oferecem bolsas de até 100% para alunos que se dedicam a praticar alguma modalidade esportiva, independente da intenção de seguir a carreira profissional ou não. Além disso, os EUA são tidos também como referência de estrutura para a prática de esportes, o que facilita a vida dos que têm esse tipo de interesse em seguir a carreira na área do desporto.

Como não estamos nos Estados Unidos e somos brasileiros que não desistimos nunca, nos resta incentivar crianças e jovens a praticar esportes nas condiçíµes que temos e podemos, com a esperança de um mundo melhor. Foi com esse intuito que surgiu em Torres, há mais de quatro anos, o projeto Brincar de Correr, que hoje atende cerca de 100 crianças e adolescentes entre 10 e 20 anos da comunidade torrense.
 

Força de vontade move moinhos
í‰ em meio í  rua, com terreno irregular, carros circulando, de baixo de chuva ou de sol intenso, se deslocando a pé ou de bicicleta, de pés descalços ou com tênis impróprios para corrida e muita força de vontade, que quase 50 crianças treinam no mí­nimo três vezes por semana no projeto ‘Brincar de Correr’, criado pelo educador fí­sico Cláudio Freitas juntamente com Antí´nio Rodrigues e Sargento Teixeira.

Os treinos ocorrem na Lagoa do Violão, na praia e no condomí­nio Morada das Palmeiras. Além de focar na inclusão social, hoje o projeto conta com vários atletas de alto rendimento. Neste último ano, dois atletas foram campeíµes estaduais, além de outros que conquistaram medalhas em estaduais e obtiveram qualificaçíµes em competiçíµes de ní­vel nacional realizadas pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Isso mostra a força que temos. O principal objetivo do Brincar de Correr é a inclusão social, a valorização da saúde, a formação de cidadãos, mas os resultados que temos obtido têm demonstrado que podemos ir ainda mais longe, observou Cláudio, que também é professor de atletismo, federado pela CBAt.

Busca incessante por apoio
Hoje o projeto se sustenta com auxí­lio de voluntários e de parcerias. Os custos com inscriçíµes nas competiçíµes e viagens são pagos por parceiros do projeto, principalmente do comércio torrense. Temos o apoio forte da Carioca Calçados, que nos ajuda também com os prêmios para as rifas, uniformes e com tênis para a maioria dos atletas. Agora a batalha é conseguir apoiadores para auxiliar financeiramente estes jovens de alto rendimento. Eles podem levar o nome da cidade muito longe ainda, afirmou Cláudio, acrescentando ainda que para esses atletas ele já conseguiu a parceria de profissionais de massoterapia, fisioterapia e quiropraxia.

í‰ uma correria e uma dedicação sem tamanho. Mas o que me motiva a fazer esse trabalho é ver o sorriso no rosto. A felicidade. A realização. Todo o esforço de ir atrás de apoio, patrocí­nios, uniformes, vender rifas, treiná-las quase que diariamente, vale í  pena, disse Cláudio emocionado.

 

Sorriso no rosto das crianças é o que encanta e motiva a continuar

Os melhores do RS participam do projeto
A ideia inicial era formar cidadãos de bem e inseri-los na sociedade, mas, o projeto foi além disso, formou atletas que hoje apresentam um alto rendimento. í‰ o caso de Winderson Vinicius Malinski, um jovem de 17 anos, morador do bairro São Jorge. Criado apenas pela mãe, Winderson é um menino tí­mido, mas que tem muita força de vontade e a passada mais comprida e rápida que eu já vi.

Moreno, como é popularmente conhecido, está entre os 20 melhores do Brasil. Um feito extraordinário para um garoto que treina no meio da rua, sem estrutura e ajuda financeira nenhuma. Ele garantiu em setembro a 19 ° posição no 1500m no Campeonato Brasileiro Caixa de Atletismo de Menores Interclubes, realizado em São Bernardo do Campo (SP). O evento reuniu cerca de 738 atletas de 103 clubes de todas as regiíµes do paí­s, contando com os melhores atletas do Brasil até os 17 anos. E lá estava ele, competindo lado a lado com atletas profissionais, que possuem locais adequados para treinar e auxí­lios financeiros. Além dele, representaram nosso municí­pio Andriws Matheus, Lucas Sousa, José Daniel e Emily Bandeira.

Winderson, que concilia estudos e treinamento, tem liderado as competiçíµes estaduais em sua categoria, e municipais inclusive em categorias acima de sua faixa etária. Hoje a volta mais rápida da Lagoa do Violão é dele, estabelecendo um novo recorde.

Hoje o jovem realiza um sonho de criança, que era ser medalhista. Eu sempre tinha vontade de ganhar uma medalha e no futebol eu não conseguia. Então resolvi participar de uma corrida porque ganhava medalha nem que fosse de participação. Hoje não consigo mais parar de correr, disse Moreno, que iniciou no projeto há dois anos.

O jovem contou ainda que quer correr o resto da vida e ganhar ainda muitas medalhas. As dificuldades são muitas. Tem o cansaço, as dores, o desgaste, a falta de incentivo, de auxí­lio e local adequado. Mas o que me faz sair de casa pra treinar é porque quero representar bem Torres. Quero ser campeão gaúcho. Ser medalhista olí­mpico. Quero ser lembrado. Quero fazer história, garantiu ele timidamente.
 

Mesmo diante de todas as dificuldades, Moreno está entre os melhores do Brasil  

Falando em Olimpí­adas…

Como todos já sabem, em 2016 será realizado no Brasil os Jogos Olí­mpicos. Mas e será que as Olimpí­adas são mesmo brasileiras? De acordo com o professor Luiz Francisco Maggi, o Brasil está longe de pertencer a essas Olimpí­adas. Os jogos olí­mpicos serão no Brasil, mas não são do Brasil. Os ingressos possuem preços altí­ssimos que apenas uma minoria de brasileiros pode pagar. Não se tem auxí­lio ao esporte. Empresas que patrocinam em sua maioria não são brasileiras. Grande parte dos telespectadores não é brasileira. No fim das contas a influência que as olimpí­adas vai causar gera um rendimento pra pouquí­ssimas pessoas, defendeu o professor.

Luiz Francisco faz ainda uma reflexão com relação í  quantidade de atletas que hoje chegam a uma Olimpí­ada. Hoje são milhíµes de atletas que sonham em chegar a uma Olimpí­ada. Dos que participam, uma minoria ganha medalhas. Na minha avaliação, o grande fundamento do esporte não é chegar í s Olimpí­adas e ser campeão. Mas sim os princí­pios que só o esporte pode permitir como resiliência, respeito ao próximo, aos seus limites, dedicação, persistência, estilo de vida mais saudável, um futuro mais promissor, afirmou ele, acrescentando ainda que o difí­cil é fazer as pessoas enxergarem isso.

Será que só esses que são premiados que valem í  pena. Ou um grupo de crianças carentes que estão querendo ser alguém melhor não vale? As pessoas só vêem isso como despesa e não como investimento. Se eles não forem medalhistas olí­mpicos, vão ser pessoas melhores e isso é um grande feito. Eles poderão sonhar com um futuro melhor. Ter mais esperança, destacou o professor. Luiz disse ainda que as pessoas precisam entender que uma das poucas alternativas para se salvar uma geração, que está praticamente perdida, é a oportunidade no esporte. O esporte talvez seja o único elo que se tem entre os gostos dessa geração e a possibilidade de torná-los cidadãos melhores, com princí­pios humanos. Quando vemos alguns meninos com pouca estrutura, treinando no meio da rua, conseguindo disputar frente a frente com atletas remunerados, com boas estruturas, percebemos que a força de vontade é essencial, completou o professor, que ajuda no projeto voluntariamente.

O educador ressaltou ainda que esse tipo de esporte depende apenas do esforço deles. Se tu correr e for melhor, você vai ganhar. Diferente do futebol que í s vezes precisa ter um empresário, um olheiro. O principal adversário não são os outros concorrentes, mas sim não desanimar perante todas as adversidades que se tem. Isso que apaixona no esporte, concluiu Luiz Francisco.

 

 


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