CONHECENDO A CAPITAL DO BRASIL: ‘Me caiu os butiádo bolso’ (parte II)

24 de abril de 2015

Quem leu a primeira parte da matéria sobre Brasí­lia na semana passada  (acesse aqui)  já pode observar um pouco da realidade em que se encontra a capital do paí­s. E aí­ vem mais, porque ainda tem muitos butiás para cair dos bolsos. Na foto, o  Parque da Cidade: maior que o Central Park

 

   

Por Maiara Raupp

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Brasí­lia possui quase 3 milhíµes de habitantes de acordo com o censo demográfico  realizado pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatí­stica (IBGE)  em 2014, o que a torna a quarta cidade mais populosa do paí­s. Além de ser centro polí­tico, é um importante centro econí´mico, sendo a terceira cidade mais rica do Brasil, exibindo um Produto Interno Bruto (PIB) de 99,5 bilhíµes de  reais, ou 3,76  % de todo o PIB nacional, estando também entre as áreas urbanas de maior í­ndice de  renda per capita  do Brasil.
Segundo pesquisa da consultoria Mercer sobre o custo de vida para funcionários estrangeiros, Brasí­lia estava colocada na posição 33 entre as cidades mais caras do mundo em 2011, subindo da posição 70 em 2010. Superada no Brasil em 2011 somente pelas cidades de  São Paulo  (10) e  Rio de Janeiro  (12), Brasí­lia entra na classificação logo depois de  Nova Iorque  (32), a cidade mais cara dos Estados Unidos.  

A meu ver, a cidade não é cara somente para funcionários estrangeiros, mas sim para todos que ali vivem ou que a visitam. Os valores das coisas, desde alimentação a um minuto de lazer, custam muito dinheiro. Uma refeição simples, em uma galeria do setor bancário onde muitos funcionários almoçam diariamente, não baixa de R$ 50 por pessoa. Um pote de requeijão em uma padaria custa entre R$ 7 e R$ 11. Uma loucura!

E quando o assunto é diversão as coisas não são muito diferentes. í beira do Lago Paranoá, que é quase toda particular, tem muitos clubes. Para acessar as dependências internas dos clubes teoricamente precisa ser sócio. Mas é muito engraçado: é só estar em um carro de luxo e cumprimentar o guarda que está tudo certo. E assim fizemos. Sentamos í  beira do lago para curtir o sol e a água limpa e quente. Muitas pessoas têm lanchas, stand up paddle, caiaques, pagam para deixar seus bens guardados nos clubes. Quem não tem, aluga. E não é muito barato não. Fora dali têm teatros e cinemas com preços até dentro do esperado. í€ noite as boates e barzinhos em sua maioria cobram para entrar e não baixam de R$ 35. No entanto, í s 2 horas da madrugada tudo se encerra devido ao barulho, já que ficam próximos das áreas residenciais. Alguns, que são mais isolados, se estendem um pouco mais, no entanto são bem mais caros.

 

 

Desigualdade e criminalidade

 


Brasí­lia possui a maior  desigualdade de renda  entre as capitais brasileiras, além de ser uma das capitais em que mais se registram homicí­dios para cada cem mil habitantes no paí­s. A alguns quilí´metros do centro da capital está o condomí­nio Sol Nascente, localizado na Ceilândia, uma das cidades-satélites de Brasí­lia, considerado pelo IBGE como a maior favela da América Latina, ultrapassando a Rocinha, no Rio de Janeiro, e outras grandes comunidades carentes em Buenos Aires, na Argentina, e La Paz, na Bolí­via. As ocupaçíµes dos condomí­nios daquela região aumentaram desde 2010, quando somadas não passavam de 60 mil, hoje totalizam quase 80 mil moradores. E o pior é que toda essa população sofre com a falta de infraestrutura e de saneamento básico. Saúde, educação e principalmente a segurança são precárias, além da grande quantidade de lixo espalhado e esgoto que corre pela rua.

A maioria das pessoas que trabalham em Brasí­lia vem de cidades-satélites como essa, ou ainda de municí­pios de Goiás, já que os custos de vida no plano-piloto são absurdos. A maioria percorre diariamente de 30 km a 60 km de casa para o trabalho, isso de í´nibus, cujo transporte é muito precário (conforme relatarei abaixo).

Os í­ndices de  crimes  no  entorno do plano-piloto de Brasí­lia são muito altos.  Segundo sociólogos, a criminalidade é uma herança do crescimento desordenado, ainda que assentado em núcleos urbanos planejados. Os ní­veis de criminalidade da capital do paí­s estão entre os maiores do Brasil, chegando ao ponto de haver uma média de até dois assassinatos diários.

No plano-piloto pouco de sabe de assaltos e roubos. Chega ao ponto de poder deixar coisas de valor em cima dos bancos dos carros ou até janelas abertas sem grade. Segundo moradores, há casos isolados, mas é raro. Aqui os policiais ganham muito bem, afirmou um morador. Talvez isso explique um pouco. No entanto nos arredores, a criminalidade é assustadora.

 

Outra coisa que me intrigou muito e que evidencia as desigualdades que permeiam Brasí­lia – e confirma a velha fama de ilha da fantasia – foi ver a sede de algumas embaixadas. Como capital nacional, Brasí­lia hospeda 124  embaixadas  estrangeiras e muitas delas ficam em zonas carí­ssimas de Brasí­lia e em mansíµes que valem muitos milhíµes. í‰ o caso das embaixadas de paí­ses como Angola, Moçambique, índia, onde seu povo está morrendo de fome e aqui eles esbanjam luxúria com carros de luxos e residências e sedes que são uns palácios. Me caiu os butiá do bolso.  

 

Ceilândia: a maior favela da américa Latina fica em Brasí­lia

 

 

Transporte público precário

 

A atual situação do sistema de transportes do Distrito Federal gera um quadro de pouca mobilidade urbana, com um serviço de í´nibus caro e ineficiente, e uma infraestrutura que privilegia o automóvel particular. Isso gera uma tendência de aumento no número de carros a ní­veis para os quais a cidade não foi projetada. A cada mês, cinco mil veí­culos entram em circulação em Brasí­lia, existindo um veí­culo para 2,3 habitantes. Com isso começaram a surgir inúmeros engarrafamentos na cidade e alguns lugares se tornam intransitáveis nas  horas de pico. Os í´nibus transportam pouco mais de 14 milhíµes de passageiros por mês,  mas a maior parte da frota já ultrapassou os sete anos limite impostos por lei.

Para tentar amenizar esse quadro, foi construí­do um  metrí´, que transporta cerca de 150 mil usuários por dia. No entanto, devido í  sua extensão limitada e ao próprio crescimento da cidade, ele não alterou significativamente o problema de trânsito na cidade e desde o iní­cio da sua construção em 1991, gera prejuí­zos da ordem de 60 milhíµes de reais anuais ao governo. Das 29 estaçíµes planejadas, 24 estão em funcionamento, ligando o centro do  plano-piloto (rodoviária) a  Guará,  íguas Claras,  Taguatinga,  Ceilândia  e  Samambaia (cidades-satélites). Fico me perguntando: se a capital do paí­s não é exemplo em mobilidade, o que resta para as demais cidades do Brasil?

 

Pontos turí­sticos

 

Visitamos muitos pontos turí­sticos de Brasí­lia e são poucos que se salvam em questão de conservação. O Parque da Cidade Sarah Kubitschek foi fundado em 1978 e é o maior parque urbano do mundo, com 420 hectares, sendo maior até que o próprio Central Park, em Nova Iorque, que possui somente 320 hectares. O Parque é um dos principais e mais extensos centros de  lazer  ao ar livre da cidade, concentrando diversos tipos de entretenimento como quadras de ví´lei, futebol, basquete, pista de corrida, caminhadas e ciclismo, parque de diversíµes, quiosques, grandes estacionamentos, lagos artificiais além de um pavilhão coberto para feiras e exposiçíµes, considerado o 3 ° maior do Brasil.

Com urbanismo de Lucio Costa, arquitetura de Oscar Niemeyer e paisagismo de Burle Marx, o parque é bastante amplo e arejado devido í  grande diversidade de árvores e ao lago que contem diversas espécies de animais. O local, considerado patrimí´nio de Brasí­lia, ganhou fama nacional por meio da música Eduardo e Mí´nica do grupo brasiliense  Legião Urbana, que estourou nas rádios do Brasil. í‰ nesse ponto que eu queria chegar. Renato Russo compí´s essa música que fala de Brasí­lia e do Parque da Cidade. No lugar onde ele geralmente ficava para compor suas músicas, foi feito um monumento em sua homenagem. Foi feito. Mas é quase imperceptí­vel para quem não conhece e não sabe onde está situada. Não há uma iluminação ou cuidado especial, mas há ferrugem. Ao redor do monumento, foram colocados bancos, para que as pessoas sentassem. Mas não foi possí­vel. Alguns estavam quebrados. Outros com formigueiros gigantescos. A tentativa de tomar um chimarrão, na sombra da árvore, apreciando o monumento Eduardo e Mí´nica não teve sucesso.

A Torre de TV pra mim também foi uma decepção.  O que se dizia era que dava para ver Brasí­lia toda lá de cima, já que havia um mirante de 75 metros de altura, e ela está localizada no centro da cidade. Fiquei animadí­ssima, mas quando cheguei lá no alto senti medo. E olha que eu não tenho medo de altura, mas a precariedade da estrutura me deu calafrios. As torres e a laje de concreto que sustentam a estrutura estavam com muitos buracos. Parecia umidade. Lá em cima, no tal mirante, que era suspenso no ar e de ferro, havia buracos de ferrugem. Dava a impressão que podia despencar a qualquer momento. E quem duvida?

A  Torre de TV de Brasí­lia  é uma torre de transmissão televisiva construí­da em  1967  com 244 metros de altura. Projetada por  Lúcio Costa, a Torre é um dos poucos edifí­cios importantes de Brasí­lia que não são uma criação de  Oscar Niemeyer. í‰ a terceira estrutura mais alta do  Brasil e um dos monumentos mais procurados na capital federal, com média de mil visitantes por dia. Merecia mais cuidado.

 

Monumento em homenagem ao Renato Russo, enferrujado

 

Estádio Mané Garrincha: Finalizando o tour

 

Para finalizar o tour por Brasí­lia, o Estádio Nacional Mané Garrincha. Uma das maiores roubalheiras que o paí­s já viu. O estádio mais caro da Copa e que em menos de um ano recebeu meia dúzia de eventos e já está se desmanchando. Rachaduras a olho nu, grama sintética descolando e placas do teto se desprendendo. Isso tudo reparamos em meia hora de visitação.  

O estádio foi idealizado a partir de um conceito arquitetí´nico visto em vários monumentos da capital federal, que é caracterí­stica marcante do arquiteto Oscar Niemeyer: a criação de um ambiente de colunas que precede a obra interna. No Estádio Nacional de Brasí­lia Mané Garrincha, esse conceito serviu de inspiração para os 288 pilares que ficarão dispostos ao redor do edifí­cio, formando a área de convivência e de acesso do público.

O estádio é apenas uma dentre as diversas estruturas que compíµem o  Complexo Poliesportivo Ayrton Senna, que engloba também o  Ginásio de Esportes Nilson Nelson  e o  Autódromo Internacional de Brasí­lia Nelson Piquet, os quais não visitamos. Inaugurado em 1974, o estádio possuí­a capacidade total para 45.200 pessoas. Após a tal reforma (2010 a 2013), sua capacidade passou para 72.788 pessoas, tornando-se o segundo maior estádio do Brasil e um dos maiores da  América, perdendo apenas para o  Maracanã. O estádio atualmente pertence í   Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap), pois não há um time de futebol com mando de campo. Outra tristeza, já que torna uma estrutura carí­ssima em pouco utilizada. í€s vezes fico me perguntando, será que é eu que sou exigente ou são as pessoas que não mais se importam com tanta roubalheira e banalidades? Que pais é esse?

 

 

 O caro e pouco utilizado estádio Mané Garrincha

 


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