CONVERSANDO COM A HISTí“RIA: Dos Primeiros Habitantes de Torres a antiga cultura da cal

12 de junho de 2015

 

Painelistas reuniram-se para mais dividir conhecimentos em mais um produtivo debate sobre nossa história

 

 

Por Guile Rocha

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Um pouco da história dos primeiros habitantes que (há milênios) viveram na região de Torres – bem como o legado que estes ‘conterrâneos antepassados’ deixaram para a formação e identidade cultural da nossa sociedade – foram resgatada na noite de quarta-feira (03) durante o ’11 ° Conversando com a História’, que teve como tema A História antes da História: os primeiros habitantes de Torres.  

No Centro Municipal de Cultura, o já tradicional   debate sobre a história da cidade – que é organizado pela Prefeitura e ocorre mensalmente –  desta vez contou com um eclético público formado por interessados cidadãos, alunos da escola Tietboehl e do EJA (Educação de Jovens Adultos). O encontro foi mediado pelo jornalista Nelson Adams Filho, que ressaltou sua alegria pelo momento de "efervescência cultural" que Torres vem passando atualmente. "Parece um sonho para mim que, 20 anos após a efetivação do Raí­zes Torres, hoje vejamos novos talentos acadêmicos que vêm pesquisando as origens de Torres com afinco, sua formação e seu passado, os vestí­gios deixados pelos primeiros indí­genas, artefatos e adornos", destacou Nelson.

 

Entre arqueologia amadora e caieiras

 

A primeira palestrante da noite foi a professora aposentada Maria Helena Lima, autora do livro ainda em edição Moradores da Rua Júlio de Castilhos. Moradora desde sempre da histórica rua torrense (caminho dos í­ndios Carijós, primeiros povoadores de Torres, segundo ela) a professoras falou sobre a coleção arqueológica de seu pai, í‰lcio Lima. Embora feita amadoramente, sem catalogação, a coleção seria composta por cerca de 300 pedras e antigos artefatos indí­genas, coletados nas dunas da Itapeva e nas imediaçíµes da ainda pouco urbanizada (e mais natural) Torres. "Me criei convivendo com esse material histórico, ajudei meu pai a coletar as peças na juventude: vasculhando achava um carretel, uma ponta de flecha. A última pedra da coleção achei atrás do Morro do Farol, tinha um formato parecido com um jacaré", recordo Maria Helena, explicando que a coleção foi exposta no Farol by browseonline"> Hotel em 1960 e, posteriormente, vendida ao Museu Júlio de Castilhos (em Porto Alegre). "Porém, lá a coleção foi descaracterizada,e me pergunto que utilidade está tendo o material recolhido aqui no litoral. Não seria tempo de resgatar para Torres ao menos parte deste patrimí´nio, para conhecimento dos cidadãos locais? " indagou.

Na sequencia do evento,   falou o ex- motorista de í´nibus e quase nonagenário morador de Torres, Manuel Pedro Cardoso. Com uma história rica de ser compartilhada, ele lembrou das peripécias envolvidas nas viagens entre Porto Alegre e Florianópolis, que nos anos 60   demorava 17 horas (sendo o trajeto do í´nibus feito pela praia). Mas grande relevância para a história municipal houve quando Cardoso recordou da tradicional Caieira de Eloy Krás Borges, local onde se dava a produção do Cal a partir de conchas trituradas.

Por décadas, na então pouco urbanizada Torres, o cal era o material mais utilizado para dar ‘a liga’ nas construçíµes das casas (já que ainda não se usava cimento). "Era muita gente que trabalhava na Caieira do seu Elói. Ela durou até 1940 e ficava junto ao Morro das Furnas, na Praia da Cal (que tem este nome exatamente pelas caieiras que lá se estabeleceram). Conchas, cascas de mariscos e caramujos (a melhor qualidade) eram queimados nos fornos para a produção do cal. Então, os trabalhadores batiam essas concha até ficar como pó, ensacavam em sacos de linho e levavam o material até as carretas", disse seu Manuel Pedro Cardoso.E respondendo as boas perguntas do mediador Nelson Adams, ele complementou: A lenha para os fornos vinha de um matagal que ia por tudo, desde a Lagoa do Violão até onde hoje é a Itapeva. Depois a madeira saia de barco através da Sanga da ígua, e na cidade serviria para a Caieira de Eloy Krás Borges e para o by browseonline"> Hotel Picoral", finalizou seu Cardoso.

 

Entre sambaquis perdidos e preservação da história

 

Historiador e educador na aldeia guarani, Rafael Frizzo foi o próximo palestrante da noite. Com suas palavras, ele demonstrou um vasto conhecimento sobre o passado de nossa região e os Sambaquis de Torres, que vêm sendo objeto de pesquisas suas há 10 anos . Segundo explicou o historiador, os sambaquis são depósitos de concha que podem se formar naturalmente, mas que tem um valor arqueológico e cultural mais relevante quando representam depósitos artificiais feitos pelos homens ancestrais. Pesquisando seu conteúdo, pode-se saber caracterí­sticas sobre a vida dos primeiros indí­genas do atual território torrense, que teriam vivido na região desde 5 mil anos atrás. "Onde hoje é o asfalto do estacionamento da Guarita, por exemplo, havia um sambaqui que passou por diferentes etnias, diversas sobreposiçíµes culturais no mesmo sí­tio arqueológico. Porém, ele acabou servindo de base para se asfaltar o próprio parque (nos anos 70)", lamenta Frizzo.

As   caieiras foram essenciais para a construção das primeiras fortificaçíµes em Torres, mas também foram responsáveis pelo desmonte de muitos Sambaquis que se espalhavam pela região, formaçíµes que tinham uma representação simbólica para os ancestrais povos indí­genas. "No século 18 um padre jesuí­ta já dizia que Torres era explorada para fins industriais, estabelecia um comércio inicial com Laguna. Já nas primeiras edificaçíµes – como os Fortes Militares erigidos sobre o Morro das Furnas – o cal foi utilizado. E em 1857 haviam 3 caieiras em Torres, que ajudaram a construir igrejas e casas do povoado, mas também consumiram   os sambaquis", ressalta Frizzo.

Segundo o notório historiador torrense Rui Rubem Ruschel (neto de José Picoral), até meados dos anos 60 haviam cerca de 20 sí­tios arqueológicos do Mampituba a Itapeva. Mas hoje, apenas dois sí­tios se mantém preservados em território torrense “ um na Praia de Itapeva e o outro na Praia do Recreio. E buscando preservar o que sobrou destes antigos locais, há mais de 40 anos o municí­pio de Torres foi o primeiro do paí­s a elaborar uma lei no intuito de proteger os sí­tios arqueológicos . Porém esta lei parece ter caí­do no esquecimento segundo Rafael Frizzo: ele disse que, apenas na área do condomí­nio de luxo Ocean Side (localizado na Itapeva) haviam 7 sambaquis que foram desmontados com ‘aval de arqueólogos picaretas’. Contudo, o historiador destacou que parte da história foi preservada, num trabalho de geraçíµes de pessoas que viveram em Torres e foram empreendendo o ato de colecionar artefatos, encontrados em sambaquis e recantos da cidade.

Frizzo lembrou de coleçíµes de peças indí­genas  mandadas de Torres para Hamburgo (através de imigrantes alemães) ainda no século 19, e da famosa coleção do morador torrense Balbino de Freitas, que foi comprada pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. "A aparição de zoófitos (artefato em pedra) por aqui demonstra riqueza cultural e estabilidade dos povos indí­genas desde os kaigangs (por exemplo), grupos anteriores aos Guaranis", indicou o historiador, que concluiu dizendo que o ideal seria a retomada de ao menos parte destas coleçíµes para Torres (seu local original). "Porém, para isso precisarí­amos de uma estrutura adequada, como by browseonline"> investimento na área de museus. Já pensamos também em resgatar um sí­tio arqueológico com 3800 anos localizado no sul de Torres e trazer para o Parque da Guarita, salvar ao menos a memória do que ele um dia foi".

 

 

 Coleção do seu Virgile: Objetos fabricados por ancestrais indí­genas estavam expostos no evento  

 

 

Patrimí´nio Arqueológico e Turismo

 

O historiador e professor Leo Gedeon – autor do livro "O Passado em Ruinas: Turismo e Patrimí´nio Arqueológico em Torres/RS" –  foi o último dos palestrantes em mais essa verdadeira aula promovida pelo "Conversando com a História". Descritivo e quase poético, ele filosofou sobre o nascimento da arte pelos povos ancestrais. "O povo torrense, que há mais de 4 mil anos se envereda nas falésias,   produzia seus artefatos de pedra lascada e polida. Algo que parece um machadinho, uma pedra mais   pontiaguda, até esculturas rudimentares simbolizando nossa fauna (não se sabe sobre sua utilização, mas crê-se que era para fins rituais). Todas feitas por artesão que dedicavam boa parte de sua vida para dar forma í quelas pedras, sinal de que havia uma vida boa e sedentária entre a praia e a serra, que propiciou que alguns povos ocupassem a região por até 1000 ininterruptamente. Uma cultura que foge um pouco aos olhos desapercebidos, mas está impregnados dos pensamentos e da cultura humana passada", ressaltou o historiador, lembrando que há tempos Torres vêm sendo visitada com interesse por arqueólogos, e que na literatura especializada a região é de extrema importância para a compreensão dos povos pré-históricos do Sul do paí­s.

Continuando, Leo Gedeon lembrou da arte rupestre deixada por povos indí­genas na localidade de Areias Grandes (interior de Torres). "Um local circundado parcialmente por uma murada erigida pelos antigos, e onde há algumas marcaçíµes nas rochas com diferentes formatos: uns em meia-lua, outros retangulares, algumas inscriçíµes. Trata-se de um sitio importante que ainda carece de pesquisas, um rara manifestaçíµes da arte rupestre na região", explicou o historiador, que em outro momento falou também do florescer do turismo em Torres, no começo do século 20, baseado na balneoterapia (quando os banhos de mar eram indicados pelos seus fins medicinais).

Gedeon fez ainda uma celebração í s belezas de Torres e a variedade dos elementos naturais na cidade. "Há dunas, mar, ilha, falésias entrecortadas que as vezes parecem até rostos, rio, lagoas e mangues, com a serra geral ao fundo. Torres é um lugar peculiar no mundo. Tanto que, em 1945, havia uma iniciativa da prefeitura para tombamento da cidade, para que ela crescesse sempre salvaguardando esse testemunho que são nossas falésias, sí­mbolos de vigilância e ascensão". Porém, a iniciativa do tombamento nunca saiu do papel, e o historiador lamentou que o crescimento urbano pouco planejado da cidade tenha resultado em muitas perdas para nossa história – do patrimí´nio natural ao material.   "Agora precisamos batalhar pela efetivação de museus que atuem pela ótica do turismo e contribuam para a preservação da nossa história. Também seria interessante que tivéssemos equipamentos de valorização da cultura local: placas explicando sobre as rochas dinamitadas para o porto abortado na Guarita, contando a história dos faróis, do forte das Torres, lembrando da presença dos sambaquis. Pelo direito que temos a memória, seria correto termos uma adequada sinalização de locais históricos, mesmo que alguns deles não estejam mais lá", finalizou Gedeon.  


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