CORRE, A POLíCIA VEM Aí!

5 de fevereiro de 2010

 

 

Essa crí´nica poderia começar assim: – Era uma vez uma bela, sensí­vel e delicada garota, que por sua aparência foi apelidada de Barbie por suas amigas, devido í  sua semelhança com a famosa bonequinha. Mas essa não é uma crí´nica de beleza e fragilidade. í‰ uma crí´nica de desabafo e de desagravo. Quando leio manchetes gritantes nos jornais falando de gente inocente que acabou sendo morta acidentalmente pela polí­cia que está nas nossas cidades para nos proteger do mal que a bandidagem pode nos fazer fico indignada como, talvez, fique indignada a maioria das pessoas de bem desse paí­s. Talvez porque tais fatos aconteçam longe da gente nada fazemos a respeito a não ser indignar-nos quietamente.

 

Outro dia, nossa amiga Barbie, uma já senhora de certa idade que soube manter-se com uma bela e jovem aparência e que optou com seu marido tornarem-se torrenses e aqui fixarem residência há alguns anos, foi mostrar o Parque da Guarita í s suas visitas, duas sobrinhas vindas lá das Missíµes, dirigindo fagueiramente seu carrinho conversí­vel antigo recém comprado e caiu na bobagem de reivindicar o direito de não pagar o ingresso por ser moradora local, do que tem muito orgulho. O recepcionista negou-se a conceder-lhe tal privilégio porque a placa do carrinho ainda não era de Torres e não houve argumento que o convencesse, nem prova como o tí­tulo de eleitor ou a carteira de habilitação. A motorista, para desbloquear o acesso ao Parque, retirou o carro estacionando-o atrás do Pórtico e voltou í  Recepção com uma nota de cinco reais para pagar o ingresso quando foi cientificada que não mais poderia pagá-lo porque seu carro seria guinchado. Surpresa, argumentou que não havia cometido delito algum para ter seu carro guinchado, insistiu no pagamento, apresentou razíµes, defendeu-se e acabou defendendo seu carro do guincho colocando o próprio corpo de braços abertos como barreira tentando impedir que seu precioso carrinho fosse levado. A polí­cia apareceu e ela acabou sendo agredida por trás por um PM, teve os braços imobilizados í s costas, levou um tranco numa perna e um golpe no pescoço que a derrubaram no chão batendo com o rosto na terra, foi algemada, presa e conduzida ao Hospital, chorando, com os braços algemados í s costas, implorando para ser solta, ameaçada pela policial feminina que sentou com ela no banco de trás do carro policial de levar mais porrada se não calasse a boca. Dessa forma deu entrada no Hospital onde permaneceu aguardando por mais de duas horas, sentada numa cadeira numa sala sempre vigiada por dois policiais como se fora um bandidão perigoso, com as mãos algemadas í s costas, tendo negados seus apelos de ajuda, inclusive da pessoa em quem confiava poder ajudá-la, uma funcionária municipal em cargo comissionado que abriu a porta da sala e ante seus apelos apenas disse que não podia ajudá-la e abandonou-a ali í  própria sorte e aos maus tratos e torturas que lhe estavam sendo infringidos por aqueles que, supostamente, aqui estão para defendê-la.

 

Finalmente foi olhada por um médico, apenas olhada não detidamente examinada em suas contusíµes, então foi conduzida í  Delegacia de Polí­cia local. A sua saí­da do Hospital dessa forma macabra foi assistida por vários amigos mobilizados por sua vizinha que tomou conhecimento do fato pelas meninas, menores que foram deixadas pela Polí­cia abandonadas í  própria sorte num local estranho, quando elas nem sequer sabiam ao certo o endereço da tia, sendo levadas para casa pelo marido de uma funcionária municipal que chegava ao seu turno de serviço e condoeu-se da situação das indefesas e confusas garotas vindas lá de Guarani das Missíµes para passearem í  beira mar na casa da sua querida tia.  

 

Na Delegacia já nem sabia ao certo o que dizia, transtornada pelos sofrimentos fí­sicos e pela humilhação moral e pressão psicológica a que estava sendo submetida por tantas horas. Acabou por assinar um BO do qual não tinha a menor condição de análise do conteúdo, querendo livrar-se logo daquilo tudo e voltar para casa, para casa, a sua casa em Torres, seu ninho í  beira da Lagoa do Violão, lugar que escolheu para morar, viver, conviver, ser feliz como qualquer outro cidadão torrense, cumprindo seus deveres como o de votar, pagar impostos, dirigir com cuidado, fazer a coleta seletiva do lixo, cuidar da sua rua e da sua nova cidade. Inclusive assumindo o dever e o prazer de mostrar nossas preciosas belezas a todos que vem visitá-los, fontes de orgulho para nós também, os torrenses por opção. Mas, parece que isso não é importante nem para os PMs que vem de fora na alta temporada de Verão para fazerem cumprir a Lei, mesmo que í  força, í  porrada, a golpes sujos, a agressíµes e violências, nem para os funcionários municipais lotados na Recepção do Parque, fiéis cumpridores da Lei, incapazes de discernimento em situaçíµes difí­ceis e em prestarem bom tratamento aos visitantes. A Lei está aí­ para ser cumprida e nela diz que só podem entrar no Parque da Guarita sem pagar ingresso carros com a placa de Torres, sem aceitação de argumentos de que foi adquirido há pouco e ainda não teve resolvida sua situação de transferência de domicí­lio. Naquele momento não importava que minha amiga fosse uma senhora moradora local ou uma visitante vinda em seu carrinho com placa lá de Flores da Cunha. Importava sim, prendê-la por desrespeito í  Lei, por desacato í  autoridade policial e civil, por mentir que era daqui, bater nela para que aprenda de uma vez por todas quem manda aqui como se fora uma criancinha birrenta (e indefesa) merecendo castigo fí­sico por desrespeito, tal qual muitos adultos se acham no direito de bater,

 

Convenhamos, mesmo que ela estivesse mentindo ser daqui e fosse de fora, isso é lá maneira de recepcionar uma visita que só queria entrar no Parque sem pagar três reais de ingresso? Mesmo que ela estivesse mentindo, isso é motivo para guinchar o seu carrinho amarelo? Mesmo que, na pior das hipóteses, e eu tenho certeza absoluta de que ela jamais diria um palavrão a alguém nem chamaria um policial de brigadianinho de merda como foi registrado no BO que ela inocentemente assinou na Delegacia, mas mesmo que ela fizesse isso, é motivo suficiente para apanhar pelas costas, ser algemada, presa, transportada num carro policial, ameaçada de levar mais laço por não calar a boca ao chorar e pedir clemência e respeito, ser mantida sob custódia na tortura de braços algemados í s costas, ser humilhada, destratada, submetida, menosprezada, como se fora uma marginal, uma trapaceira, uma cretina, uma mentirosa? Mesmo que ela estivesse bancando a bacana por seu orgulho besta de agora ser uma torrense, é motivo para o que aconteceu e a enormidade, a monstruosidade, a ignomí­nia da ação administrativa dos funcionários municipais e da ação policial dos brigadianos?  

 

Afinal de contas, quem nos defende dos ladríµes, dos agressores, dos transgressores, dos assassinos? Infelizmente, sou obrigada a convir que não é a nossa gloriosa polí­cia militar brasileira. Há muitos e muitos cidadãos sendo mortos, agredidos, maltratados por policiais militares de incontáveis cidades brasileiras. Infelizmente, sou forçada a concordar com a nova educação que estamos dando í s nossas crianças, tão diferente da educação da minha própria infância quando meu pai nos ensinava o papel da polí­cia e o respeito e a valorização que deví­amos ter para com os policiais, nossos amigos e protetores. Hoje, sou mais por dizer í s minhas netas: – Cuidado, olha a polí­cia, te esconde, corre que a polí­cia vem aí­!, ensinando que da polí­cia a gente tem que ter medo porque a qualquer deslize ela pode nos prender, mesmo que seja por um equí­voco.

 

      Clamo por justiça! Minha indignação não pode mais ficar quietinha dentro de mim porque ultimamente há muitos outros fatos ocorridos aqui na nossa Torres, que me estão indignando. São multas injustas, são ameaças de prisão por desacato í  autoridade policial, são notí­cias de agressíµes verbais e fí­sicas que chegam aos nossos ouvidos e que nos indignam e agora não podem mais calar. Justiça, minha indignação, nossa indignação clama por justiça!  

 


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