DE GUAPORí‰ PARA TORRES: Uma nova proposta de escola

30 de setembro de 2015

 

 Projeto da Cidade escola Ayni, em Guaporé, interior do Rio Grande do Sul, deve começar a ser implantado ainda neste mês

 

 

Por Maiara Raupp

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A cidade Escola Ayni, um projeto inovador no mundo que está sendo desenvolvido no Sul do Brasil, foi apresentada na última terça-feira, dia 15 de setembro, pelo empresário e fundador, Thiago Berto, durante a semana acadêmica do curso de Pedagogia da Ulbra Torres. A cidade escola é um espaço para a criança se expressar, ser quem veio ser, realizar a sua missão. í‰ um local de troca e aprendizado entre adultos e crianças, onde todos são mestres um dos outros. Todas as propostas da Ayni seguem as leis e parâmetros curriculares do Brasil, as quais permitem autonomia pedagógica e administrativa. Inspirada por pedagogias como Montessori, Escola da Ponte, Educação Viva e outras, a Ayni quer inspirar o governo e demais escolas, mostrar que é possí­vel uma nova forma de ver a criança e propor um espaço acolhedor, que elas se sintam seguras, honradas e respeitadas pra expressarem quem elas realmente são. Dinâmicas de aprendizagem sem provas, se padríµes de classe, sem divisão de turmas por idade, sem as aulas como conhecemos hoje, mas com toda a energia e vontade desses pequenos mestres em aprender o que desejam em um ambiente que realmente inspira a autonomia e a busca por conhecimentos úteis para a criança, explicou Thiago.

 Somos uma semente com todas as informaçíµes necessária para nos desenvolver. A água que nos rega é o amor. Precisamos primeiro de tudo de amor. De um ambiente que nos acolha e permita que possamos expressar nossa essência. Também somos mestres. Parte da cura dos adultos, disse uma criança no site da Fundação Ayni.    

 

Como nasceu a Ayni

 

A Ayni nasceu de um sonho, de uma jornada de vida e autoconhecimento em uma viagem de 3 anos pelo mundo. Thiago viveu em Guaporé até os 16 anos, quando foi expulso de casa pelo pai, indo morar em Porto Alegre. A vida sempre lhe permitiu experimentar coisas cedo e hoje ele sabe que houve uma razão sábia para tudo isso: posso ainda jovem colocar-me a serviço e usar o que aprendi para algo que acredito, sem buscar nada, apenas expressar o que encontrei dentro de mim, afirmou ele.

Aos 19 anos já era um empresário promissor, sendo o primeiro engenheiro de informática da Microsoft na América Latina. Aos 30 anos, com um vazio no peito e com medo de acordar com 80 anos e ver que a vida escorreu pelas mãos, só ganhando grana, seguindo padríµes, vivendo a vida que os pais e a sociedade queriam que ele vivesse, decidiu abandonar sua vida no Brasil para realizar uma viagem de 3 anos pelo mundo em mais de 70 paí­ses na busca de um sentido mais profundo para sua vida. Em sua viagem descobriu um intenso desejo em colaborar com a sociedade no campo da educação. Retornou a sua cidade natal para fundar uma escola que une as diferentes iniciativas pedagógicas que conheceu pelo mundo.

Vendi todos seus pertences e sai a viajar pelo mundo de mochila em uma busca de si mesmo, de quem eu era e do sentido para meus anos seguintes. Fui morar no Butão, um pequeno paí­s da cordilheira do Himalaia, trabalhar como voluntário do governo real. Depois segui viajando pelo mundo e em setembro de 2012, um ano após iniciar minha viagem, conheci um projeto de educação infantil em Cusco, no Peru, e ali pude perceber que era minha missão a ser expressada. Após viver oito meses no Peru trabalhando como voluntário na escola, segui viajando pelo mundo, mas agora com um novo propósito: o de visitar projetos de educação alternativa, de aprender e de absorver conceitos dessas iniciativas e então voltar ao Brasil para criar uma escola. Em setembro de 2013 parti em viagem até o Alasca, nos Estados Unidos, e a partir de lá comecei uma viagem de moto de oito meses por todo o continente americano visitando 40 projetos de educação. A escola Ayni é o resultado dessa pesquisa, de horas de trabalho voluntário, de troca de experiências com educadores de todas as partes do mundo, contou Thiago.

   

 

FOTO: Thiago Berto durante sua viagem pelo mundo

 

 

A escola

 

A Ayni está sendo criada para ser um farol de luz, um espaço de referência, uma escola modelo que inspire os governos municipais e estaduais a adotar novas práticas de educação na rede pública de ensino. Esse é o maior propósito da Ayni: ajudar a fazer a mudança nas escolas que já existem, não sendo apenas uma escola diferente. Outro objetivo importante: ser um espaço de referência em ideias práticas de sustentabilidade e respeito í  natureza e, principalmente, um lugar para transformação do ser. A nova educação começa com uma nova maneira de viver de nós adultos, uma nova perspectiva sobre o mundo, a vida, e então consequentemente uma forma diferente de nos relacionarmos com as crianças.

A Ayni foi desenhada e expressada para ser um lugar de inspiração. Um espaço de aprendizado e expressão para crianças, pais, educadores e comunidade. Um lugar inspirador onde podemos vivenciar conceitos de uma sociedade mais consciente do seu próprio propósito, onde as crianças se sintam bem vindas a expressar seus verdadeiros potenciais e onde adultos tenham a oportunidade de conectar-se com seu próprio interior em um diálogo constante de autoconhecimento. A escola proporcionará a todos os participantes e visitantes, além de uma nova pedagogia (que é em si uma forma de viver), um contato com novos conceitos de organização social e econí´mica, os quais expandem os propósitos de sua existência como a educação viva, bio-construção e sustentabilidade, economia solidária, dentre outros.

A Ayni é uma forma de viver, essa é nossa pedagogia. Uma relação primeiro de tudo de aceitação como adultos, de nos reconectarmos com o nosso ser, com a natureza, de reconhecermos nossa própria essência, nossas verdades e a partir daí­ desenvolvermos uma nova perspectiva e relação com as crianças: elas são nossos mestres, companheiros de um caminho de evolução como seres humanos, e a oportunidade de compartilhar esse tempo e espaço com as crianças é vista com gratidão e honra. Essa é a nossa base pedagógica. A relação de respeito, carinho e os limites como forma de amor para as crianças. Nesse espaço sagrado, nessa relação entre adultos e crianças, todos crescemos, nos desenvolvemos e avançamos como sociedade, como humanidade, complementou Thiago.

 

Professores da Ayni

 

Os professores, que serão remunerados (mas não devem se candidatar apenas pelo dinheiro), serão guardiíµes dos pequenos mestres (crianças) e dos espaços em que eles interagem com o mundo. Desses guardiíµes, espera-se primeiro de tudo que deem carinho, amor e limites. Essa é sua prioridade de ‘ensino’. O adulto deve entregar-se, perder a necessidade de controle, confiar e honrar o processo e caminho sábio de cada criança, sem condução ou manipulação de temas e aulas. O adulto, professor, guardião, entende que não há um objetivo, ele desfruta do caminho, da experiência de viver e acompanhar o desenvolvimento e descobertas das crianças. Cada atelier (a Ayni possui atelieres e não salas de aula) tem um guardião, pode contar com um observador por tempos especí­ficos e um professor assistente voluntário. Rituais e rotinas são incentivadas como parte importante do desenvolvimento da criança e de seu sentimento de sentir-se segura em seu ambiente. A escola segue as diretrizes curriculares do governo, mas em uma forma particular e diferente de passar esse conteúdo í s crianças. Para a Ayni brincar também é aprender, brincar não é uma pausa no aprendizado. A criança pode escolher que atividades ela quer realizar, o guardião pode incentivar e inspirar a criança com histórias e convites para participar de oficinas que introduzem temas relativos ao currí­culo formal.

 

 

 

Forma pedagógica

 

Na Ayni não há provas e exames, e sim uma avaliação constante, pessoal e próxima de todo o contexto da criança. Toda cultura da escola funciona em um ambiente de cooperação para que a criança possa expressar seu valor genuí­no. A competição não é ensinada em nenhum momento, os conflitos são bem vindos e honrados como um momento muito enriquecedor para expressão de emoçíµes das crianças. A organização dos espaços é fundamental í  saúde emocional e ao bem estar da criança. A própria criança é incentivada a compreender o ciclo dos materiais, de serem retirados e retornados aos seus lugares. O guardião deve estar consciente de que a sua energia deve estar centrada e elevada ao entrar no espaço das crianças. O atelier representa a segurança da casa das crianças, além desse espaço respeitar os tamanhos das crianças com móveis e materiais em tamanho reduzido. í‰ incentivado que as crianças façam todas as tarefas de organização e manutenção da limpeza do espaço de uma maneira livre e descontraí­da, mas entendendo a sua parte no todo: a autonomia das crianças é um ponto fundamental em nossa pedagogia. Os pais devem compreender a necessidade de estender os conceitos dessa pedagogia para suas casas. A interação e o respeito í  natureza é um fundamento muito importante de nossa pedagogia, assim como o respeito aos animais.

 

 

Espaço fí­sico

 

A Ayni começará a ser construí­da em outubro, em "um bosque mágico" de 20.000m ² em Guaporé-RS. O terreno foi doado pelo prefeito municipal que abraçou o sonho do projeto, assim como a comunidade local. O prefeito deu o terreno que vale milhíµes no centro de Guaporé. Ele era pra ter dito não. Mas disse sim. Não podemos esperar pelos outros, pelo governo. Temos que fazer. Não podemos desistir na primeira dificuldade. í‰ na crise que nos transformamos. Está chegando muitas pessoas de vários lugares do mundo para ajudar a construir a escola e para dar oficinas. Isso é maravilhoso. A Ayni sobreviverá de incentivos privados e doaçíµes. Será uma escola adicional, no contraturno. Não substituirá as escolas normais. A ideia é disseminar a energia, difundir a prática, levar para as escolas as inspiraçíµes da Ayni. E isso as crianças farão, garantiu Thiago. A escola deve estar em funcionamento em maio de 2016 e atenderá gratuitamente cerca de 60 crianças entre 2 e 13 anos. Os pais tem que entender que não será um almoxarifado de crianças e nem um projeto social. í‰ uma inspiração. O objetivo da Ayni não é mudar a educação, é avançar. Eu quero muito que a Ayni feche suas portas. Porque daí­ seu dever estará cumprido, concluiu Thiago.

 


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