Quase plenamente incorporada ao espaço urbano de Torres, é até difícil acreditar que há pouco mais de 40 anos a Lagoa do Violão estava praticamente intocada pelo homem. Atualmente muita coisa mudou, e a natureza que circundava a lagoa foi devastada ou forçada a conviver com prédios, casas, ruas asfaltadas e outras estruturas de uso humano. Uma mudança provavelmente irreversível, mas se hoje o entorno da Lagoa do Violão foi incorporado pela cidade, como é que os cidadãos e a administração pública estão cuidando dela?
Por Guile Rocha
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Adoro a Lagoa do Violão. Particularmente, acho a Praça dos Escoteiros o melhor lugar da cidade para se sentar e apreciar o pí´r do sol. Isso principalmente nos dias sem vento, quando a lagoa reflete como espelho as cores do crepúsculo com a vista da serra geral, das dunas e do contexto urbano em constante transformação de nossa Torres . O problema é que o banco em que ia me sentar estava quebrado, mais um ato de vandalismo que, infelizmente, sou obrigado a me deparar na cidade. Passo então pelo passeio público da lagoa, e percebo rapidamente que ele está judiado e mal conservado em vários pontos, um convite e tanto para um tombo. Foi daí que partiu o estalo de fazer esta matéria para abordar diferentes pontos de vista acerca da Lagoa do Violão, indo dos cuidados que estamos tendo com ela (como cidadãos em sociedade), passando por sua história até as mudanças previstas para o futuro deste cartão postal torrense. Trata-se de uma área com alto potencial turístico e que deveria ser explorada com consciência.
Um pouco de história (e a lenda da Lagoa)
"Quase ao pé do monte estende-se, paralelamente ao mar, um lago de águas tranquilas e cercadas de altas ciperáceas; do outro lado, crescem matas em terreno plano. í€ direita veem-se ainda areais puros e, por fim o horizonte, limitado pela grande cordilheira, cujo cimo forma um imenso planalto".
Esta descrição acima foi extraída do livro de Saint-Hilaire que vislumbrou a vista da Guarda de Torres, em sua passagem por aqui no dia 4 de junho do ano de 1820. A Lagoa do Violão era, então, descrita como integrante ativa da Torres Antiga, conforme indicou Roni Dalpiaz, turismólogo e ‘torrense da gema’ (em coluna publicada no jornal A FOLHA).
Mas a integração da lagoa com a ‘Torres Moderna’ demorou para acontecer. Roni lembra que, na década de 70, a cidade crescia em direção ao mar e ao rio Mampituba, e o entorno da Lagoa estava quase intocado pela mão do homem. "Pelo que se sabe, a Lagoa do Violão (antes apenas conhecida como Lagoa das Torres ou Lagoa da Vila), sofreu alteraçíµes no seu aspecto original quando por volta de 1940 foram secados os banhados próximos í Guarita pelo Serviço Nacional da Malária. Mais tarde, recebeu novos contornos, desta vez pelo serviço de saneamento (D.N.O.S.). Esta última intervenção deu a ela este formato que lembra um violão", explicou Roni.
Mas além dessa explicação, Roni Dalpiaz recorda que há também uma linda lenda que conta o motivo para o formato de violão da Lagoa. "Diz a lenda que um loiro marinheiro português naufragou na costa torrense e se salvou boiando com auxílio de seu violão. Ocarapoti (Flor Campestre), índia filha do cacique o resgatou e levou para fazer parte da tribo dos carijós. Ocarapoti se apaixonou pelo português violeiro, chamado pela tribo de Puiara (Dono do som), e passou a viver com ele. Mas a tribo tinha seus costumes, e o violeiro deveria ser sacrificado e comido em uma cerimí´nia, pois todos acreditavam que com isso absorveriam na alma os seus atributos musicais. Após a cerimí´nia, a índia Ocarapoti chorou pela morte de seu amado Puiara e derramou tantas lágrimas que encheu uma depressão, que formou a lagoa. Lembrada pelos torrenses, Ocarapoti, hoje repousa em forma de uma estátua na margem sudeste da lagoa, na Praça dos Escoteiros", ressalta Roni.
Praça dos Escoteiros (do potencial turístico ao vandalismo)
Um pouco mal cuidada, assim como a Praça dos Escoteiros, lá esta a estátua, um pequeno monumento para recordar desta bela lenda referente a Lagoa do Violão. Mas não há qualquer sinalização quanto ao que a Estátua de Ocarapoti representa, ou um mural explicando aos visitantes sobre a lenda. Um ponto turístico que, embora possa ser considerado singelo se comparado aos nossos paredíµes naturais, não é explorado em todo o seu potencial. Se fosse na Europa, ou na Nova Zelândia, tenho certeza que esse mural estaria lá.
A praça em si também não é tão respeitada quanto sua acanhada beleza mereceria. O espaço sofre historicamente com as marcas de vandalismo: pichaçíµes, bancos e brinquedos quebrados. Tristes rastros da falta de noção cidadã do ser humano. Mas ainda que o vandalismo indigne, o poder público também deve assumir a responsabilidade da manutenção constante da Praça dos Escoteiros. Pois apesar das avarias, as pessoas utilizam com frequência o local: sentam-se nos velhos bancos que sobraram para descansar e apreciar a vista, tomar um mate, namorar. Os de sangue-frio levam os filhos para brincar nos destroços do playground.
Observo o contexto e interrompo algum momento de romantismo para perguntar ao jovem casal Andressa (16 anos) e Everton (19 anos) – sentados num dos bancos – se eles sabem o que a estátua de Ocarapoti representa. Foi o Everton quem me respondeu, corretamente, que se tratava da índia que chorou tanto pelo amado que encheu a lagoa. Andressa ficou surpresa com a estória, disse que não sabia direito. Mas ambos concordaram que o torrense pode até conhecer, mas o turista que passar pelo local não saberia o que representa a estátua. Eles também criticam a falta de cuidado com a Praça dos Escoteiros "No geral as pessoas não se preocupam com o que é dos outros, é só olhar pra essa praça e ver que ela está atirada. O vandalismo acontece também porque muitos jovens não tem nada melhor pra fazer, não acham opçíµes e decidem destruir coisas que são de todos. Mas não é desculpa, falta consciência e respeito, não dá para botar a culpa só na prefeitura", aponta í‰verton.
A questão dos aguapés na Lagoa
Segundo Secretaria do Meio Ambiente, nível de Aguapés está adequado
Mas quando falamos da Lagoa do Violão pelo ponto de vista biológico, a questão dos aguapés talvez seja uma das que mais gere discussão. Um leitor de A FOLHA, chamado João ílvaro Rocha, recentemente mandou um email para nossa redação pedindo para que cobrássemos, junto a administração municipal, providências quanto a limpeza da Lagoa do Violão. "Ela nunca esteve tão suja e tão cheia de aguapés e capins aquáticos, principalmente na ponta norte, em frente ao Restaurante Girardi. Esta falta de limpeza está proliferando um sem número de bichos e insetos que estão invadindo as moradias próximas", alertou ílvaro. E o pedido do cidadão faz coro a outras pessoas que moram no entorno da região.
Porém, segundo o biólogo e secretário Municipal do Meio Ambiente em Torres, Roger Maciel, foi retirado recentemente uma grande quantidade de aguapés, até por esta ter sido uma reclamação constante no período de veraneio. "Os aguapés ficam concentrados num dos cantos da Lagoa em decorrência do vento. No caso, se vento sul está constante, em geral os aguapés ficarão concentrados na parte norte da Lagoa, e vice-versa. O nível que há atualmente é o considerado adequado pela secretaria do Meio Ambiente", disse o secretário ao jornal A FOLHA.
Roger ainda ressalta que a retirada de aguapés é um trabalho que deve ser realizado constantemente, e que para o tamanho da lagoa, é razoável (e até aconselhado) que mantenha-se uma ocupação por aguapés entre 5% e 20% da área. "O aguapé sob controle contribui para diminuir os níveis de poluição. Também é essencial para o perfeito equilíbrio do ambiente aquático e a sustentação de um elevado número de organismos, diminuindo assim a turbulência das águas e, consequentemente, sedimentando os materiais em suspensão. O aguapé é ainda utilizado como substrato para a desova e refúgio de vários organismos aquáticos, como peixes e insetos. ".
Entretanto, segundo enfatiza o secretário, "se a invasão do capim Brachiaria e a proliferação acelerada de macrófitas aquáticas não for controlada, pode comprometer a oxigenação e a iluminação da água, além de aumentar a taxa de eutrofização, enfatiza Roger Maciel. A Brachiaria se fixa no fundo da lagoa, causando uma hegemonia biológica, dificultando a instalação de outras formas de vida e outros níveis alimentares, fragilizando o ecossistema. Além disto, compete com vantagem pela luz, nutrientes e oxigênio, resultando em perda de diversidade".
Complementando, Roger Maciel disse que, quando ele assumiu a pasta (em 2013), havia na Lagoa do Violão uma problemática relacionada com a morte de peixes, que ocorria pelo fato dos aguapés estarem todos presos. "Nos soltamos os aguapés para evitar a proliferação de algas que acabavam prejudicando a entrada de sol e a oxigenação da Lagoa, o que levava os peixes a morte. Quando um corpo hídrico recebe muitos dejetos começa a adubar demais, ter muita vegetação, então ao soltar os aguapés reduziu este problema. Com o trabalho apenas de manejo dos aguapés, conseguimos dar mais vida para a Lagoa do Violão", concluiu o Secretário do Meio Ambiente


