DIREITOS HUMANOS E DA NATUREZA: A palestra de Leonardo Boff em Torres

1 de agosto de 2014

 

O auditório ficou lotado e eu estava ali, com o computador aberto, anotando as melhores palavras de Leonardo Boff

 

Por Guile Rocha

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Foi na última sexta-feira (25), no auditório da Ulbra Torres. Um grande público juntou-se para prestigiar a palestra com o proeminete escritor e teólogo Leonardo Boff. Eu, particularmente, só conhecia o chapa de nome (perdoem a ignorância), mas confesso que a figura dele – algo nostálgica pela semelhança com o bom velhinho, querido Papai Noel – e o tema da palestra – "Educação e Direitos Humanos" – chamaram minha atenção.  A palestra estava marcada para as 14h, mas começou oficialmente apenas í s 14h35 (já que   atraso parece ser uma premissa eterna no comportamento brasileiro, e me incluo nisso). A razão do atraso foi que, pouco antes, estavam em conferência Leonardo Boff e o governador Tarso Genro, candidato a reeleição agora em outubro.  E após esta reunião de amigos aqui em Torres, o teólogo declarava seu apoio a candidatura do petista. Pimba.

 

1) Apresentaçíµes e militância polí­tica (disfarçada)

 

Enfim, após a habitual espera chegava o palestrante, com sua longa barba e cabelos brancos a la Papai Noel , só que vestindo um tí­pico poncho gaúcho.   Entre palmas, ele subiu no palco. Logo após houve a  formação de uma banca, constituí­da pela prefeita Ní­lvia Pereira e suas companheiras de PT, a deputada estadual Marisa Formolo e a deputada federal Maria do Rosário. Posteriormente, foram chamadas também as secretárias municipais Marisa Carlos (Educação) e Clarice Brovedan (Cultura e Esportes) , além da Reitora da Ulbra-Torres, Débora Thomas.

O próximo ato foi a entrada em cena do coral infantil da tribo Nhu Porã, aqui do Campo Bonito, com os pequenos de mãos dadas cantando uma canção em Tupi-Guarani. Após isso, a prefeita de Torres, Ní­lvia Pereira, foi quem fez (com efusivos elogios) a apresentação do escritor, professor universitário e expoente da Teologia da Libertação no Brasil: Leonardo Boff. ‘Ele foi membro da Ordem dos Frades Menores (franciscanos),e ficou conhecido pela suas posturas polêmicas e liberais frente a ala conservadora da Igreja Católica. Também virou notório defensor dos direitos humanos e da terra, dos direitos a manter a vida com dignidade. (editado da   wikipedia)

No começo da palestra,  Leonardo Boff retribui os agradecimentos da prefeita Ní­lvia, da qual disse ser parente (Já que Ní­lvia tem o sobrenome Boff também). Ele estendeu os elogios para a deputada federal e candidata a reeleição, Maria do Rosário, dizendo que apoiava a petista por  ela defender o ideal de que os direitos humanos devem começar a partir dos pobres e oprimidos, e a partir dai ser expandindo para todos.  O teólogo ainda fez elogios a candidata a reeleição para deputada estadual Marisa Formolo. Embora Leonardo Boff tenha dito que não pretendia usar o palco como palanque eleitoral, foi exatamente o que fez, mesmo que (tentando parecer)   indiretamente.

Durante a palestra, vieram elogiou ao governador do RS, Tarso Genro. Segundo Boff, Tarso trata-se de "um intelectual que acompanha o mundo e batalha pelos direitos dos oprimidos. Ele pensa no estado inserido no Brasil e o Brasil inserido no mundo". Outro a ser citado como exemplo pelo teólogo foi o ex-presidente Lula. "Ele nunca esqueceu das raí­zes de onde veio, ele que perdeu dois irmãos de fome. Ele sempre disse que lutaria para que as pessoas não tivessem que sofrer o mesmo que ele", destacou Boff, quase í s lagrimas.

 

2) Pelos Direitos humanos e pela dignidade

 

Mas voltemos a palestra, que (militâncias a parte) teve ótimos momentos de reflexão sobre os direitos humanos e da natureza a partir das palavras serenas de Leonardo Boff. O filósofo disse que o Brasil é o paí­s que mais direitos sociais tem no mundo. "Porém na prática muitos são negados: os sem teto, os sem terra, movimentos   populares pela saúde e a educação. São direitos que estão na constituição, mas ficam inválidos porque não há regularização, não são respeitados. Vivemos numa sociedade de privilégios, e não de direitos", lamenta Boff, indicando a importância de uma reforma polí­tica para que se estabeleça um novo pacto social, que funcione de uma maneira que realize a dignidade do ser humano.

Segundo o palestrante, para ter direitos humanos deve haver vida. Porém não uma vida magra, mas sim em abundância. "E também é preciso que haja os meios da vida, como alimentação. O Bolsa Famí­lia e o projeto Fome Zero são propostas quase messiânicas para garantir que as pessoas tenham comida. Ainda há favelas brasileiras onde morrem pessoas de fome. Temos direito a uma moradia também, algo que muitos brasileiros ainda não possuem. í‰ espantoso o bolsão de miséria, os improvisados barracos de madeira onde tantos brasileiros ainda vivem, com o esgoto correndo no pátio", relatou ele.

Boff falou também de lutas históricas dos í­ndios, negros e mulheres por seus direitos no Brasil, histórias estas marcadas por humilhação e subjulgamento.     "Quando se declarou pela primeira vez os direitos do homem, parece que foram esquecidas as mulheres. Apenas em 1932 as mulheres puderam votar no Brasil, por muitos séculos elas foram consideradas menores do que o homem, gente incapaz de escolher seus votos. Mais dura ainda foi a luta dos indí­genas, que desde a chegada dos primeiros europeus foram tratados como macacos, inferiores ao homem branco, (e massacrados também). Outra humilhação sofreram os afrodescendentes, que (na escravidão) eram vendidos como peças, como animais, e que até os dias de hoje continuam sem o devido reconhecimento (dada a complexidade de sua cultura e papel na história brasileira)".

Ao falar novamente dos povos indí­genas, Boff trouxe a palestra para o ambito local "í‰ bom   saber que aqui em Torres a prefeita fez uma escola indí­gena. Importante permitir que eles (tribo Nhu Porã) possam ter condiçíµes de se sentirem indí­genas junto a nós (cidadãos ocidentalizados). Não devemos fazer da diferença uma desigualdade, mas ver na diferença uma forma de demonstrar como o ser humano pode ser flexí­vel".

 

3) As guerras do mundo

 

Refletindo sobre questíµes globais, Leonardo Boff disse que estamos vivendo tempos de barbárie e violação dramática dos direitos humanos – como ocorre na Sí­ria e no Oriente Médio. ""A morte é banal, o sentido da vida humana é banalizado. São 17 frentes de guerra em andamento no mundo com pessoas utilizando armas de destruição em massa. O que os israelenses estão fazendo com os palestinos é algo abominável, um crime contra a humanidade", opinou.

O teólogo passou informaçíµes impactantes (embora sem citar fontes) sobre a polí­tica externa dos Estados Unidos. "Barack Obama passa ordens de usar os drones (veí­culos aéreos não tripulados) para matar os lí­deres. Estes Drones são armas mortais, equipadas com raios que pulverizam o ser humano. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos decidiu resolver os problemas do mundo a partir da violência", disse Boff, que complementou entrando no assunto espionagem. "Mesmo num computador desligado, há pessoas capacitadas para tirar todas as informaçíµes dele".

 

4) Da Teologia da Libertação ao estado classista

 

Leonardo Boff falou sobre a Teologia da Libertação, da qual é um dos grandes expoentes mundiais. Trata-se de uma corrente que defende que os direitos humanos a partir dos pobres, que prega que os direitos incluam os invisí­veis sociais, a base da pirâmide. "Se deixarmos os pobres fora das reformas sociais, deixarí­amos dois terços da humanidade fora".   Ele reforçou também a importância da aceitação das diferenças entre cada ser humano, e sintetizou os direitos humanos em dois conceitos chave: vida e respeito. "Respeito supíµe que o outro está na minha frente e deve ser acolhido, e que somos convidados a conviver pois temos a mesma casa comum, que é a terra, este ente que produziu a tudo".

Porém, no mundo que é dominado pelos super-ricos donos de poderosas empresas – há 85 multibilionários que controlam a fortuna da metade da humanidade humanidade, segundo o teólogo – reina o estado de privilégios eda ganância. "Vivemos num estado classista, dominado por algumas poucas fontes financeiras que controlam o poder econí´mico, midiático e polí­tico. O estado é classista e vive de privilégios. Quem tem privilégios não quer saber de direitos. Se compararmos a democracia com a nossa noção de igualdade e justiça social, ela parece ser uma farsa".

Mas Boff destacou que a busca pelos direitos dos mais necessitados deve continuar, e que a dignidade da vida humana deve ser reconhecida mesmo que pelo confronto. Ele lembrou que participou dos empates com Chico Mendes, seringueiro e ativista ambiental que, nos anos 80, lutava pela preservação das seringueiras nativas da Amazí´nia( e da floresta como um todo). Luta esta que acabou levando-lhe a morte. "Faziamos um enfrentamento com nossos corpos, iamos com idosos e crianças inocentes. Expunhamos nossa dignidade aos tratores, que não tinham coragem de passar por cima e derrubar as árvores" , recordou.

 

5) Pacto pela preservação da natureza

 

O outro foco da palestra, além dos direitos humanos, foi a questão ambiental e dos direitos da natureza. Boff disse que o ser-humano tornou-se o Satã daTerra, dadas a forma que a humanidade tem interagido com a natureza. "Quando surgiu o homo sapiens, a Terra já havia se organizado, ela não precisou de nós. Como diz a Bí­blia,  se no jardim do í‰den nós entramos no mundo foi para guardar e cuidar dele.Essa é nossa missão humana, mas nos cumprimos a missão?" indagou

Para Boff, respeito supíµe que o outro está na minha frente deve ser acolhido, não importa se for uma lesma, uma vaca ou uma árvore. "Somos convidados a conviver pois temos a mesma casa comum, que é a terra, este ente que produziu a tudo.Portanto devemos impor um limite a nossa voracidade, não matar, não cortar desmedidamente as árvores. Um indí­gena faz um rito, pedindo desculpa a uma árvore antes de cortá-la, e pedem licença para entrar na floresta. Uma questão de respeito com a mãe terra".

Como estudioso das religiíµes, Leonardo Boff lembrou do paradoxal papel que as doutrinas religiosas têm nas diversas culturas, e das pessoas que escolhem se sacrificar (literal e figurativamente) por uma causa. Sobre a relação entre ciência e religião, ele sugeriu que "a ciência deve dizer a religião que não seja fundamentalista, pois todos os seres são sagrados.E a religião vai pedir a ciência que faça evolução com consciência, não pelo mercado, mas pelo amor e sequência da vida".

Finalizando, o teólogo disse pensar que, se o século 20 foi das maiores conquistas dos direitos humanos, o século 21 tem que ser da conquista dos direitos da ‘Mãe Terra’. "O que conta é viver o sermão da montanha, aliviar a dor do ser humano e   cuidar daqueles que precisam. Devemos manter o respeito diante de toda forma de vida, preservar a vitalidade da Terra, os ares, o solo, o sangue dela que é a água". disse ele, complementando ao dizer que    bem viver deve ser um   viver em harmonia com a Mãe Terra,  pois ela não deixará nada faltando para nenhum dos seres. "Queremos unir o pacto natural com o pacto social, pois a terra nos dá tudo, enquanto   nós lhe damos apenas agressão, poluição e desmatamento. Tenho medo que, daqui a alguns anos, nossos netos olhando para trás nos amaldiçoem, vendo que a nossa distruição impactou numa terra devastada do futuro, com água, solo e ar contaminados. Mas se cumprirmos o pacto natural, teremos um futuro para nós e para a Terra.".

 


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