Do jornal ao SER JORNALISTA

19 de junho de 2015

 

No mês que o jornal A FOLHA comemora 09 anos, trazemos uma definição acadêmica sobre o papel do jornal nos últimos séculos, a profissionalização do jornalista e sua participação na era digital em que vivemos  

 

Por Guile Rocha

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Hoje temos a noção de que o jornal tem a responsabilidade de transmitir as informaçíµes pertinentes para o cidadão de sua localidade, funcionar como mediador dos fatos que cercam nossa realidade, sendo assim um instrumento para que a sociedade forme argumentos na tomada de decisíµes. Tendo como base a noção do jornalismo como Quarto Poder, Traquina (2005) contextualiza historicamente a imprensa como principal  mecanismo para a formação da opinião pública, além de vigilante dos atos das instituiçíµes governantes.

Porém, do advento da imprensa até o século 19, os jornais espalhados pelo mundo eram sobretudo armas na luta polí­tica, propagadores de ideologias pré-determinadas e meios de transmissão da informação altamente parciais. Foi a partir do advento da sociedade industrial capitalista que o jornal passou a tornar-se divulgador de informação, e não simples meio para propaganda de ideais decididamente tendenciosos.   Segundo Traquina (2005), tal mudança de paradigma foi possibilitada pela comercialização do produto jornal, que passou a ser financiado pela florescente publicidade em detrimento do poder polí­tico.  

Assim, foi principalmente a partir da relação com a publicidade que a imprensa consolidou-se como meio instituí­do para propagar a informação com teor mais isento. A independência relativa do poder polí­tico propiciou que cada meio da imprensa tivesse mais autonomia para falar sobre os acontecimentos e pessoas   que considerasse pertinentes. Os jornais, por sua vez, tornam-se produtos populares na sociedade a partir do final do século 19, buscando retratar assuntos variados para alcançar um público genérico e heterogêneo, que ia reconstruindo seus padríµes e o gosto pela informação e pela notí­cia.

Neste paradigma da sociedade da informação, o jornalista passou a concentrar-se nos fatos como matéria prima de seu trabalho principal: a construção das notí­cia. Passou a ser função do jornalista a separação dos fatos de valor que acontecem na sociedade para inserção na imprensa. A descrição dos cenários, o ato de recorrer a diversas fontes, a realização de   entrevistas e a investigação de estórias passaram a ser recursos usuais empregados pelos jornalistas na elaboração do conteúdo noticioso (TRAQUINA, 2005).  E com o tempo – e estudos empí­ricos no campo jornalí­stico – chegaram-se a algumas conclusíµes que são quase formulas matemáticas sobre o ato de comunicar-se num meio jornalí­stico: a definição do lead (perguntas básicas encadeando o texto) ou a conceituação da notí­cia como construção social da realidade, por exemplo.

 

Profissionalização do Jornalista

 

O processo histórico da profissionalização da atividade jornalí­stica passa pelo reconhecimento do importante papel da imprensa como meio de formação da opinião pública . Porém, foi apenas a partir do momento que os jornais tornaram-se empresas, e assim passaram a visar a acumulação de capital como um de seus objetivos, que foi possí­vel uma caminhada rumo a real profissionalização da atividade jornalí­stica. Afinal, é o patrocí­nio da propaganda e a vendagem/assinatura de jornais que trarão recursos para a empresa midiática poder pagar os vencimentos dos jornalistas. E para que aja uma imprensa de elevado ní­vel, do ponto de vista moral e intelectual, faz-se necessário que estes jornalistas tenham legitimidade em sua importante atividade de informar a sociedade. Por isso sindicatos de jornalistas foram formados para defender direitos í  melhores salários e condiçíµes de trabalho para a emergente classe.

Conforme Traquina (2005), profissíµes são padríµes de conduta e formação especializada, que exigem um vasto mandato legal moral e intelectual. Assim, o ensino acadêmico do jornalismo foi outro aspecto importante na profissionalização do jornalismo. Vinculado inicialmente aos estudos das ciências sociais, mas em sua essência uma disciplina altamente multidisciplinar, o jornalismo e a comunicação passaram a ter, a partir de estudos cientí­ficos na área,   maior reconhecimento como atividade intelectual atuante na formação da realidade. Saberes do jornalista como o domí­nio das técnicas de recolha de informação, de elaboração de estruturas narrativas precisas e de uma linguagem especí­fica foram definidos na academia como domí­nios técnicos a serem ensinados. A presumí­vel capacidade de saber reconhecer o que é notí­cia, ter o "faro para a notí­cia", é colocada em prática nos bancos da universidade. Códigos deontológicos surgiram para definir as responsabilidades morais e sociais do jornalista.

As escolas de jornalismo passam a ser formadas nos Estados Unidos a partir de meados do século 19, mas no Brasil somente a partir da segunda metade do século 20 que elas começam a se estabelecer progressivamente. Estas instituiçíµes de ensino buscam manter-se em constante evolução, para treinar profissionais capazes de realizar suas funçíµes em uma sociedade marcada pelo advento de novas e complexas formas de comunicação.

 

Jornalista na Cultura da Convergência

 

Jenkins (2009) escreve que estamos vivendo a cultura da convergência, "onde as velhas e as novas mí­dias colidem, onde mí­dia corporativa e mí­dia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor da mí­dia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisí­veis" (p. 28). A partir da internet e das novas tecnologias, que se fortalecem em meados da década de 90 do século passado, a informação passou a viajar em uma velocidade antes inimaginável, sendo mediada, divulgada e consumida em escala muito maior.

Se pensarmos que   os meios de comunicação são extensíµes do homem, atualmente as   nossas extensíµes são sobretudo digitais (SIMíƒO, 2013). As rotinas de produção jornalí­sticas são,   independentemente do meio e produto final, marcadas por tecnologias digitais quer nos processos de recolhimento da informação (ví­deo, áudio, anotaçíµes) quer nos processos de edição, produção e feedback (do Word ao Facebook). Saberes estes que, necessariamente, são transmitidos aos alunos nas universidades de jornalismo, em maior ou menor escala.

Ser jornalista hoje implica também ser um profissional polivalente, capaz de dominar diversas técnicas de comunicação. Como diz Neves (2009), "na sociedade de mercado do século 21, o profissional da comunicação que não adquire um leque de conhecimentos abrangente e dinâmico está fadado a ser engolido pelo caráter convergente do mercado consumidor de mí­dia". Portanto, conhecer e saber se posicionar em discussíµes empresariais, polí­ticas, econí´micas,   culturais e de responsabilidade social são caracterí­sticas inerentes da profissão. E se a faculdade não pode se aprofundar em cada uma dessas questíµes que formam a malha da realidade social compartilhada, ao menos busca direcionar o jornalista aos saberes importantes na formação de sua bagagem cultural especí­fica.

Hoje vale a regra de que qualquer pessoa é livre para escrever em um jornal (apesar da Obrigatoriedade do diploma de jornalista estar tramitando no Senado), e não se pode impedir que um indiví­duo se manifeste na imprensa. Trata-se da liberdade de expressão, direito constitucional do brasileiro. Entretanto, faz-se necessário o entendimento pelo senso comum de que as habilidades especí­ficas do jornalista fazem a diferença. Pois senão, estariamos entregues a um ‘estado de natureza’ onde todos dizem o que querem sem mediação (o que vêm sendo amplificado pela popularização das redes sociais), uma situação que pode ser desastrosa para o entendimento correto daquela informação que tem valor, que é investigada, do que merece ser analisado e possui vários pontos de vista.  


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