EDITORIAL – BASTA!

21 de junho de 2013

 

As manifestaçíµes que dominaram as ruas das principais capitais do paí­s se tratam da gota d™água na tolerância do povo para com o desmando institucionalizado que se transformou o Brasil nos últimos anos. Não representa culpar o partido A, B ou C. Representa um basta í  falta de basta que os governantes que possuem mandato e foram eleitos para assegurar Ordem e Progresso na nação tem demonstrado exercitar em seu trabalho na polí­tica.

Quando o congresso elege para sua presidência um polí­tico que renunciou para não ser cassado; quando o presidente do STF, após liderar a votação do Mensalão (um processo moralizador da justiça) e ser aplaudido por tal, mostra seu lado B, aparecendo usufruindo mordomias do poder e ataca a tudo e a todos como se fosse ele a única pessoa no mundo capaz de mudar o Brasil, responde perguntas em inglês, estampando, afinal, atitudes de arrogância dignas de ditadores enrustidos; quando homens condenados em última instância (Mensalão) descobrem que existem outras instâncias e aparecem na TV debochando da justiça; quando se vê na TV um Brasil similar a um paraí­so institucional,  ao passo que na vida, no dia-a-dia, vê-se justamente o contrário; só resta aos jovens e idealistas de uma nação uma manifestação de desespero; uma demonstração de indignação contra a hipocrisia generalizada que se transformou o receituário do poder no Brasil.

A polí­tica se transformou em um sindicato de defesa dos servidores públicos das cúpulas das instituiçíµes. Somente da cúpula, deve-se deixar claro… Marajás que conquistam salários milionários se organizam em corporaçíµes para dominar os polí­ticos que estão no poder e trazê-los para a liderança de novas conquistas de direito destes sindicatos do mal. O teto salarial no Brasil, que deveria ser exceção, acabou se tornando quase que a base salarial das cúpulas do poder Executivo, Legislativo e Judiciário. E, o que é pior, as corporaçíµes já estão unidas para aumentá-lo. Ou seja, o salário de R$ 28 mil já é troco para os marajás. E para compensar isto e conseguir apoio, os marajás tratam de não questionar a compensação que dão aos polí­ticos do poder legislativo. O Judiciário e o Executivo de certa forma compram o congresso nacional deixando seguir dentro dele, como se normais fossem, as regalias dadas aos polí­ticos com mandato em Brasí­lia e nas Assembléias Legislativas.  Um exemplo são os quase R$ 100 mil mensais que os congressistas conquistaram para despesa de gabinete. O disparate é tratado pelas autoridades brasileiras da mesma forma do que o direito de um brasileiro qualquer de utilizar um banheiro em uma repartição pública. Por mais que a sociedade reclame disto, que a mí­dia estampe estes desmandos, que as Organizaçíµes Não Governamentais de fiscalização das contas públicas denunciem estes disparates, nada acontece.  A sociedade utilizou meios formais e usuais (mí­dia e ONGs) para colocar vários megafones ligados defronte aos comandantes, mas eles se comportam como se fossem deficientes auditivos absolutos. E aí­ a galera não agí¼entou e saiu í s ruas para protestar. Com razão, mesmo sem compreensão clara do que estão fazendo…

Um paí­s que está crescendo naturalmente e que ainda exibe mazelas por todos os cantos, mas paga salários para as cúpulas dos poderes como se estivesse em perfeito estado estrutural, está agindo e estampando uma atitude totalmente divergente de qualquer lógica. Um paí­s que na iniciativa privada (quem verdadeiramente produz e que, afinal, paga os impostos para pagar as mordomias do setor público) oferece salários quase dez vezes menores que os oferecidos pelo setor público, não pode ir adiante em paz;  muito menos resiste assistir seus dirigentes polí­ticos afirmando, sem corar, que isto é normal, que é natural…

A falta de tratamento de esgoto; a falta de serviços de Saúde Básica; a falta de um sistema de educação no mí­nimo eficiente; a falta da segurança de seus cidadãos do dia-a-dia, dentre outras mazelas institucionalizadas e cabalmente provadas í  sociedade, não podem conviver bem com o tratamento VIP dado í s corporaçíµes de marajás, que sugam o dinheiro de todos como se fosse natural, como se fosse uma obrigação; que paga milhares de tetos salariais Brasil afora como se fosse troco, teto salarial do serviço público que representa quase 50 salários mí­nimos. Ou seja: que estampa que um trabalhador brasileiro precisa trabalhar mais de quatro anos para ganhar o que um servidor pago por ele (o mesmo brasileiro que ganha salário mí­nimo) ganha em um mês… e ainda pede aumento…

Esta dissonância representa total irresponsabilidade institucional. Temos estrutura de terceiro mundo, mas os homens públicos das cúpulas do Brasil ganham salários de primeiro mundo – e acham pouco. Os jovens do Brasil não protestam por R$ 20 centavos. Eles protestam talvez por algo que eles não conseguem explicar, mas que está explicado pela hipocrisia estampada entre o poder do Estado perante os simples viventes como os milhíµes de brasileiros espalhados pelos rincíµes nacionais.   Os jovens dão um basta í  injustiça, o que mostra que a alma dos brasileiros, principalmente os mais jovens, não se deixou corromper por manobras do poder que de certa forma compram almas por todos os cantos.

Não é quebrando tudo que se resolve coisa séria; também não é estampando rebeldia sem causa que se consegue militar por uma causa. Mas os jovens ainda não têm maturidade para entender esta confusão que se tornou o sistema tributário, polí­tico e administrativo do Brasil. Somente uma reforma nestas três instâncias pode clarear mais o horizonte dos jovens, futuro da nação. Colocar mais dinheiro nas cidades ao invés de centralizar a arrecadação (como é hoje), poderia ser um bom começo. E o novo Pacto Federativo está aí­ para ser avaliado pelo Congresso Nacional.


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