EDITORIAL – Leite ou churrasquinho de gato?

13 de maio de 2013

 

Espetacularmente, o Ministério Público Estadual descobriu uma das fraudes mais perigosas para a população. Conforme informam os promotores de justiça envolvidos na Operação Leite Compen$ado, executada nesta semana em vários lugares do RS, principalmente em indústrias de leite e fornecedores que alimentam a logí­stica da cadeia leiteira do Estado do RS, podem ter sido 100 milhíµes de litros de leite consumidos por nós, gaúchos, que estão quantificados como sendo ví­tima de adição de água suja, uréia e formol. Estes produtos podem causar câncer conforme diagnóstico cientí­fico no Brasil.

O mais interessante nisto é que tudo ocorre em um ambiente de fiscalização quantitativamente rí­gida. O Ministério da Agricultura e a Secretaria de Agricultura do Estado possuem centenas de fiscais que deveriam se  utilizar de inteligência para apurar problemas no abastecimento alimentar da população. Mas parece que o ministério e a secretaria estadual estão mais preocupados em checar documentação, emitir multas e, í s vezes, entrarem em discussão de debates sobre o sexo dos anjos, do que, efetivamente, executarem um procedimento que dê o mí­nimo de segurança aos consumidores. Não se pode admitir que no século 21, com todas as milhares de normas e leis que iluminam a burocracia legal no Brasil, burocracia, inclusive, que deve ser diminuí­da, sob pena do setor industrial se tornar pouco competitivo, que haja a possibilidade de indústrias de leite possam ficar quase um ano vendendo churrasquinho de gato í  população, ou seja: vendendo leite contaminado com veneno e batizado com água para enganar os pobres contribuintes, que pagam quase metade do que produzem em impostos de consumo e renda.

Certamente, os maiores culpados diretamente neste processo são as indústrias. Quem fabrica leite tem de ter checagem de 100% de amostra da matéria prima recebida. Trata-se de um produto sistêmico de consumo, quase como uma ração, consumida por todos, principalmente por pessoas pobres e por crianças, mais uma vez os mais prejudicados neste imbróglio que se transformaram os controles públicos no Brasil: Burocráticos, gordos, caros, mas ineficientes, e agora provados que são também ineficazes, o mais sério de tudo, o que dá espaço para que possamos desconfiar que estejamos consumindo churrasco de gato nas esquinas das cidades.

As marcas apontadas certamente sofrerão por si próprias a represália natural de mercado. Por não serem cuidadosas, pagarão por queda de vendas e podem, no futuro, ter de enfrentar tribunais em embates de pessoas que í s acusam de serem causadoras de doenças adquiridas por hipotéticos consumos de produtos batizados com quí­micos cancerí­genos. Mas o Estado brasileiro e as leis brasileiras mostram que são burocratas, mas burros nos controles. Como um processo legal e de segurança alimentar pode deixar que, por seis meses, o povo consuma leite contaminado sem nenhum fiscal flagrar o processo, somente porque o MP queria dar flagrante nos bandidos? Parece que a saúde das pessoas também ficou í  serviço da burocracia, desta vez a jurí­dica e policial.

 


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