Espetacularmente, o Ministério Público Estadual descobriu uma das fraudes mais perigosas para a população. Conforme informam os promotores de justiça envolvidos na Operação Leite Compen$ado, executada nesta semana em vários lugares do RS, principalmente em indústrias de leite e fornecedores que alimentam a logística da cadeia leiteira do Estado do RS, podem ter sido 100 milhíµes de litros de leite consumidos por nós, gaúchos, que estão quantificados como sendo vítima de adição de água suja, uréia e formol. Estes produtos podem causar câncer conforme diagnóstico científico no Brasil.
O mais interessante nisto é que tudo ocorre em um ambiente de fiscalização quantitativamente rígida. O Ministério da Agricultura e a Secretaria de Agricultura do Estado possuem centenas de fiscais que deveriam se utilizar de inteligência para apurar problemas no abastecimento alimentar da população. Mas parece que o ministério e a secretaria estadual estão mais preocupados em checar documentação, emitir multas e, í s vezes, entrarem em discussão de debates sobre o sexo dos anjos, do que, efetivamente, executarem um procedimento que dê o mínimo de segurança aos consumidores. Não se pode admitir que no século 21, com todas as milhares de normas e leis que iluminam a burocracia legal no Brasil, burocracia, inclusive, que deve ser diminuída, sob pena do setor industrial se tornar pouco competitivo, que haja a possibilidade de indústrias de leite possam ficar quase um ano vendendo churrasquinho de gato í população, ou seja: vendendo leite contaminado com veneno e batizado com água para enganar os pobres contribuintes, que pagam quase metade do que produzem em impostos de consumo e renda.
Certamente, os maiores culpados diretamente neste processo são as indústrias. Quem fabrica leite tem de ter checagem de 100% de amostra da matéria prima recebida. Trata-se de um produto sistêmico de consumo, quase como uma ração, consumida por todos, principalmente por pessoas pobres e por crianças, mais uma vez os mais prejudicados neste imbróglio que se transformaram os controles públicos no Brasil: Burocráticos, gordos, caros, mas ineficientes, e agora provados que são também ineficazes, o mais sério de tudo, o que dá espaço para que possamos desconfiar que estejamos consumindo churrasco de gato nas esquinas das cidades.
As marcas apontadas certamente sofrerão por si próprias a represália natural de mercado. Por não serem cuidadosas, pagarão por queda de vendas e podem, no futuro, ter de enfrentar tribunais em embates de pessoas que í s acusam de serem causadoras de doenças adquiridas por hipotéticos consumos de produtos batizados com químicos cancerígenos. Mas o Estado brasileiro e as leis brasileiras mostram que são burocratas, mas burros nos controles. Como um processo legal e de segurança alimentar pode deixar que, por seis meses, o povo consuma leite contaminado sem nenhum fiscal flagrar o processo, somente porque o MP queria dar flagrante nos bandidos? Parece que a saúde das pessoas também ficou í serviço da burocracia, desta vez a jurídica e policial.


