Na história da região sul, a pecuária sempre foi um dos principais focos da economia gaúcha. Durante o período Imperial, altos impostos e falta de competitividade perante produtores de Argentina e Uruguai impediam lucros dos fazendeiros sulistas, em razão do alto preço final do charque regional. Buscando um acordo com o governo central que impulsionasse sua pecuária, os estancieiros gaúchos exigiam a tomada de medidas que, pelo menos, garantissem o monopólio sulista sob o comércio do charque da época, perante aos impostos exagerados que baniam-nos da competição.
Em meio ao descaso das autoridades imperiais e a falta de autonomia dos estancieiros sulistas, um grupo liderado por Bento Gonçalves exigiu a renúncia do presidente da província do Rio Grande do Sul, o que não ocorreu a princípio. Mas no dia 20 de setembro de 1835, os revolucionários se organizam, invadem Porto Alegre, vencem a Batalha da Azenha e dão princípio í Revolução Farroupilha.
Não é verdade que no Vinte de Setembro os gaúchos tradicionalistas comemoram uma revolução derrotada, como de malgrado dizem alguns despeitados. O que comemoramos e o que fica é a grandeza dos homens e das mulheres que a fizeram, indivíduos sob terríveis sofrimentos que levantaram valentemente a bandeira da liberdade, em busca dos ideais de uma república independente. Um levante contra a imposição da autoridade central e indiferença que sofria a província gaúcha.
í‰ mera coincidência a situação do Estado (e muitos outros Estados Federativos) após quase dois séculos de Federação do RS? Não. Os problemas são os mesmos, talvez agravados pela ganância tributária e de poder geradas após a Constituição de 1988, que de certa forma definiu que quem manda e faz política pública no Brasil é a União. Nosso contexto atual sugere que haja outro levante, muito similar ao realizado na Revolução Farroupilha. Nosso Estado é, faz décadas, explorado por grande diferença do que ele capta em produção e recebe do orçamento nacional: subsidia os Estados do Norte e Nordeste com diferenças fiscais gritantes; Não possuímos autonomia para legislar no campo do direito criminal e definir algumas penas que poderiam ser diferenciadas aqui no Estado, uma forma de realmente dar ao povo gaúcho a chance de ser uma federação diferente. Estas são matérias que sugerem que os gaúchos reclamem e se rebelem (de forma atual “ com democracia) contra o poder central, que recebe a maioria dos impostos pagos pelo povo e mantêm centralizada a decisão das prioridades de investimento e gasto nacionais e sua repartição ente as federaçíµes.
Mas o povo gaúcho, também, vem sendo a tempo explorado em demasia pelos governantes de nossa própria federação, o Estado do Rio Grande do Sul. Parece que há uma repetição freudiana por aí. Possuímos uma das alíquotas de ICMS maiores do país e enorme: 17%; O orçamento do RS vem há mais de quatro décadas aumentando os gastos de custeio no setor público e diminuindo os gastos em investimento coletivo, uma mazela gritante e preocupante; Os setores de Saúde, Educação e Segurança Pública, maior obrigação das federaçíµes para com o povo dos Estados, vêm caindo vertiginosamente. O Orgulho que já tivemos por nos diferenciarmos nesta área está sendo substituído por vergonha de sermos, ano após ano, ultrapassados nos índices de avaliação por Estados até vizinhos ao nosso. Portanto, o povo gaúcho necessita de dois levantes. Um, contra o corporativismo Estatal local, da Federação gaúcha; outro, contra o imperialismo tributário empreendido por Brasília, digno de comparação ao levante de 20 de setembro de 1835.
í‰ claro que a guerra e espírito separatista por si só não são formas modernas e civilizadas para se conseguir justiça, liberdade e prosperidade de uma federação. A escolha de cabeças e partidos políticos que peguem estas bandeiras (junto com a bandeira do RS) e coloquem novamente o espírito libertário e guerreiro do gaúcho aproveitado e em destaque seria a forma democrática de buscarmos nossos feitos.
As Façanhas que estão, ainda, servindo de modelo aos gaúchos federalistas teriam que ser modelo para um novo modelo de Rio Grande do Sul. Devemos sair deste formato rançoso e relativista empreendido nos últimos anos para entrarmos em um formato de Estado onde o legado da Revolução Farroupilha sirva como exemplo. Exemplo em políticas Estaduais e exemplo em políticas de relacionamento do Estado com a União. Paz na atitude, revolução na idéia farroupilha. Este é o caminho.


