Quem já se aprofundou em palestras que sugerem produtividade e foco no essencial deve ter se defrontado com uma analogia muito inteligente, que é utilizada para quebrar as amarras dos seres humanos e sugerir que a ambição e o orgulho não cabem em nenhum ambiente realmente produtivo. Trata-se da analogia do Pato. í‰ que o animal (muito belo por sinal) consegue ser eclético. O Pato consegue ao mesmo tempo nadar, voar e caminhar… Mas, em contrapartida, nada mal, voa mal e caminha mal… O exemplo serve de alerta í s insistentes almas, que querem pegar para si tudo, sem medir se são capazes de fazer tudo í quilo que abocanham.
O processo serve para empresários empreendedores, que muitas vezes querem abocanhar vários mercados e acabam ficando fracos em todos e sucumbindo, como serve para o setor público. Muitos políticos afoitos por votos prometem e mantêm serviços essenciais em seu poder; acrescentam mais serviços para disponibilizar para seus eleitores, sempre na busca de votos; e acabam sendo ruins em tudo. E o que acaba aparecendo são as falhas em setores pontuais, onde a sociedade como um todo não poderia se dar ao luxo de falhar. As da segurança pública básica, como a que vimos em Santa Maria na tragédia da Kiss, são exemplos que infelizmente insistem em aparecer no dia-a-dia das comunidades brasileiras.
O Estado surge como necessário nas vidas dos seres como um síndico é obrigado a ser eleito para cuidar de interesses COLETIVOS de um edifício residencial, comercial, misto… Como em um edifício é necessário dividir de forma justa entre os moradores do prédio as despesas necessárias para fazer com que o ambiente se mantenha em sua coletividade, o Estado também se obriga e cobrar impostos e taxas da população para suprir as demandas coletivas das quais foi eleito para gerir. í‰ claro que qualquer grupo unido apóia que o excedente de caixa seja utilizado para ajudas mais pontuais e sociais do ambiente coletivo. Ou seja, quando tudo de essencial está sendo suprido, é natural que o síndico ou o Estado (síndico maior da sociedade) sugira e realize algumas açíµes sociais, como subsidiar por algum tempo uma família que o progenitor está desempregado; deixar de cobrar chamadas extras para estas mesmas famílias por algum tempo, dentre outras açíµes que são sociais, não coletivas. Mas o síndico e o Estado como síndico da sociedade não poderiam nunca sacrificar açíµes coletivas do prédio ou do país, Estado ou município em prol de ajudas sociais. Nunca é admissível que em um prédio o elevador não receba a manutenção necessária para não correr o risco de desabar no fosso, em troca da necessária subvenção de famílias assoladas pela falta de recursos. Neste caso, o síndico e o Estado estão invertendo suas funçíµes sociais. Colocam TODOS em risco em detrimento de uma parcela menor. Ou não é?
No caso de Santa Maria podemos ver bem claras as ganâncias. Poderemos assistir de camarote (com o inquérito que será feito e DIVULGADO), a insistente ganância dos poderes públicos, que não possuem responsabilidade fiscal de suprir a sociedade de responsabilidades coletivas essenciais, pois optam por utilizar o dinheiro dos altíssimos impostos no Brasil e no RS em demandas pontuais, sociais e corporativas. Tudo bem se isto fosse feito de forma eventual, em sobras de caixa. Mas manter políticas públicas assistencialistas e corporativistas no Estado em troca da ineficiência em manter serviços básicos em funcionamento, como, por exemplo, o de segurança de incêndio, coloca o Estado no Lugar do Pato. Quer mostrar que faz tudo, mas acaba se expondo mostrando, na verdade, que faz tudo, mas muito mal.Ou seja, existe mas acaba sendo quase que descartável.
Se os bombeiros no RS não têm estrutura física e financeira para assegurar aos gaúchos que os locais de alto fluxo de pessoas estão totalmente e previamente assegurados para a utilização, como se vê estampado em páginas dos jornais de todo o Brasil e do mundo, que o serviço seja entregue novamente para a sociedade privada. Que os bombeiros, então, fiquem responsáveis tão somente em apagar incêndios. Que o trabalho de prevenção seja de TOTAL responsabilidade dos entes privados. Mas que, em contrapartida, se diminua a carga tributária cobrada da sociedade que abocanha mais de 40% do que consome e se produz. Não é mais admissível que a sociedade se obrigue a chamar o Estado para cumprir sua função de proteger, mas que o Estado não consiga assim o fazer. Há de se mudar radicalmente.


