Educar para a Vida

29 de julho de 2012

 

Maria Helena Tomé Gonçalves (mhtome@hotmail.com)

 

 

                      Houve quem não concordou com minha posição sobre determinados conteúdos matemáticos constantes dos programas de ensino das nossas escolas de ní­vel fundamental. Ninguém deve concordar com isso sem analisar amplamente o panorama brasileiro. Num jornal diário dessa semana foi apresentada uma real e dolorosa estatí­stica sobre os í­ndices de alfabetização do povo brasileiro: alfabetizados em ní­vel pleno “ 26%; alfabetizados em ní­vel básico “ 47%; analfabetos funcionais “ 27%, resultado de Pesquisa realizada pelo INAF 2011/2012, publicado em Zero Hora do dia 18 do corrente, página 30. Dos concluintes do Ensino Médio somente podem ser considerados alfabetizados plenamente 35% e dos brasileiros com formação superior 38% apresentam ní­vel insuficiente de leitura e escrita. Vale a pena ler essa matéria e entender o quanto é injustificável serem aprovados alunos em cursos de ní­vel médio e superior que apresentam ní­veis deficientes de leitura e escrita. Temos tantos analfabetos quanto alfabetizados em ní­vel pleno. Isso somente demonstra a falência do nosso atual sistema de ensino.

                      Outro fato relevante que vem sendo abordado pela imprensa de forma intensiva é o endividamento do povo brasileiro. Talvez isso aconteça realmente graças ao eficiente sistema de marketing utilizado pelas empresas capaz de convencer qualquer um a comprar até vento engarrafado, porém se deve também ao fraco conhecimento de matemática financeira do nosso povo. Deve ser muito difí­cil a um cidadão analfabeto funcional ou alfabetizado em ní­vel rudimentar fazer cálculos rápidos de juros e multas para não comprometer todo o seu salário em módicas prestaçíµes mensais de forma controlada e razoável. As nossas necessidades básicas, í s vezes nem tão básicas assim, mas que atendem ao nosso desejo í­ntimo de ter aquele objeto, extrapolam a capacidade de raciocí­nio lógico e de realização de operaçíµes fundamentais de somar, subtrair, multiplicar e dividir, de calcular juros e porcentagens e número de   parcelas e ajustar tudo isso í  renda mensal familiar. Esses são conteúdos que precisam ser trabalhados intensivamente na escola básica, pois são necessidades vitais diárias de todos os indiví­duos.

                      Diante desses fatos questiono para que serve saber álgebra e logarí­timos se muitos de nós concluí­mos o curso superior com deficiências até de leitura, lembrando que ler significa não só decifrar sí­mbolos gráficos, mas atribuir-lhes significado e, fundamentalmente, entender sua mensagem. í‰ preocupante também a declaração que integra os documentos para candidatura a cargos eletivos em todos os ní­veis, uma declaração simplista na qual o candidato diz que sabe ler e escrever e jura estar falando a verdade, especificando também seu ní­vel de escolaridade. Deveria ser evidente que quem não sabe ler e escrever não pode absolutamente candidatar-se. Isso não é discriminação, isso significa aceitar a inscrição de candidatos possuidores de um instrumental mí­nimo para o exercí­cio do cargo: ler e escrever correntemente. Por isso, a candidatura deveria pautar-se também sobre um mí­nimo de escolaridade, pelo menos, ensino fundamental completo. Na era pós Lula pode ser considerado até ofensivo dizer que quem não possui um mí­nimo de escolaridade não pode exercer cargos públicos eletivos, pois o nosso ex-presidente faz questão de salientar o fato de não ser um Homem de Estudos, mas de Vivências e que, mesmo assim, chegou ao cargo mais alto do paí­s.

                      Quando o francês De Gaulle no passado, disse que o Brasil não era um paí­s sério, ficamos ofendidos porque ouvir isso de um estrangeiro é, no mí­nimo, constrangedor, além de ser uma deseducada falta diplomática e também comprovar o enorme pedantismo e a falsa superioridade do povo europeu sobre o resto do mundo. Mas o homem tinha razão, se fí´ssemos sérios, nosso sistema educacional usaria os atuais nove anos de escolaridade obrigatória como forma exponencial de inclusão social através do verdadeiro preparo para a vida de cidadão.


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