Na BR-101, as pessoas paradas em bloqueio acompanham a movimentação dos caminhíµes em sentido inverso, enquanto as manifestaçíµes na estrada se aproximavam do fim
Buscando solucionar reivindicaçíµes importantes da categoria, caminhoneiros realizaram, entre segunda (1 °) e quarta-feira (03), uma paralisação geral que fechou rodovias por todo o país, e foi destaque nos meios de comunicação. Em ao menos oito estados, caminhoneiros bloquearam as estradas elencando motivos de sobra para a manifestação. Os motoristas reclamam das restriçíµes de circulação nas cidades, da falta de segurança nas rodovias e do valor do pedágio, além de defender a redução do preço dos combustíveis e maior fiscalização de transportadoras ilegais.
Também foram reivindicados a criação da Secretaria do Transporte Rodoviário de Cargas, e a votação da sanção para aprimorar Lei 12619/12, chamada de Lei do Motorista. Ainda entraram na pauta o oferecimento de crédito para quem quer adquirir seu próprio caminhão, definição de salário compatível com a categoria e redução de tempo de serviço para fins de aposentadoria.
"Brasil é um país que depende dos caminhoneiros"
E na tarde desta quarta-feira (03), eu me locomovia de Porto Alegre para Torres, com o intuito de chegar em Três Cachoeiras e fazer uma reportagem exatamente sobre a paralisação dos caminhoneiros. Vale destacar que Três Cachoeiras tinha um importante valor simbólico nessa paralisação, uma vez que, além de ser detentora do título simbólico de capital dos caminhoneiros, foi o primeiro local a aderir as manifestaçíµes, com os motoristas bloqueando a BR-101 desde as 6h da segunda-feira (06).
E na BR-101, pouco antes de chegar efetivamente ao meu destino, já me deparei com o primeiro foco das manifestaçíµes. Vários caminhíµes se encontravam parados junto no posto Buffon, localizado alguns quilí´metros antes do centro de Três Cachoeiras, na BR-101. Parei o carro e fui conversar com alguns destes motoristas.
Com 42 anos, sendo 15 destes como caminhoneiro, Alcemir Jesus Schleider, de Joinville, estava estacionado no local esperando o final das manifestaçíµes. "Mesmo se quisesse, nenhum caminhão pode furar o bloqueio. Por mais que as causas sejam justas, a paralisação é obrigatória para todos os caminhoneiros, quem não respeitar é hostilizado" explica. Alcemir também relata as reivindicaçíµes que considera mais importantes para a categoria. "O preço do diesel está muito caro, causa um rombo no bolso do motorista. Os pedágios também são um absurdo, principalmente nas estradas do Paraná e São Paulo".
Já Zé Luiz Rocha, morador de Três Cachoeiras e também caminhoneiro, fazia-se presente no Posto Buffon apenas como observador, não estando diretamente vinculado í s manifestaçíµes. "Ainda assim apoio a causa, é importante a classe lutar pelas mudanças na Lei do Motorista, pois o maior tempo de descanso pode ser bom para o motorista que trabalha exclusivamente para uma empresa, mas para o autí´nomo tempo é dinheiro, e quanto mais tempo ficamos parados menos podemos render", indica. Zé Luís também manda um recado para as pessoas que são contra a paralisação, que efetivamente tem consequências graves na logística de todo o Brasil, uma vez que os prejuízos pela falta dos caminhíµes foram milionários nos 3 dias de protestos(seja pelos atrasos nos prazos ou por mercadorias estragadas). "Que bom seria se tivéssemos mais portos e ferrovias para escoar a produção, mas não temos. A verdade é que o Brasil é um país que depende dos caminhoneiros, e se todos parassem o Brasil simplesmente não teria como fazer rodar suas mercadorias. Por isso o povo tem que entender que é justa a nossa luta por direitos".
Mais de meia hora parado na estrada
Parei minha conversa quando, de repente, várias viaturas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) passaram em alta velocidade pelo local. "Pelo jeito eles estão indo para acabar com o bloqueio", me disse Zé Luís. Então me despedi, e fui correndo para o meu carro para tentar cobrir o acontecimento. Dirigi mais uns quilí´metros e, por volta das 16h45, a menos de 50 metros da entrada de Três Cachoeiras, uma das viaturas da PRF bloqueou totalmente a pista, impedindo que qualquer veículo passasse. Estacionado no meio da BR-101, saí do carro e fui conversar com o policial, saber o que estava efetivamente acontecendo. "Bloqueamos a pista para garantir a segurança. O pessoal do choque da Polícia Rodoviária Federal e a Brigada Militar estão negociando com os manifestantes o fim da paralisação, e não sabemos como eles vão reagir a esta negociação. Já tivemos casos de carros e caminhíµes sendo alvejados por pedras por alguns caminhoneiros revoltosos, e por isso decidimos bloquear a pista até que a situação se resolva", me informou ele.
Em frente a mim, conseguia ver a fila de caminhíµes parados que, segundo um morador de Três Cachoeiras me informou, seguia por quilí´metros da BR-101. Impotente, sem saber quanto tempo ficaria parado, não me atrevi a abandonar o carro no meio da pista para acompanhar a negociação entre a PRF e os caminhoneiros, muito embora o meu impulso de jornalista quisesse estar lá, observando a situação em tempo real. Ao invés disso, aproveitei a parada compulsória para acompanhar a reação das pessoas ao bloqueio. Querendo registrar o momento, alguns tiravam fotos do engarrafamento, enquanto outros tentavam se informar sobre o que estava acontecendo, formulavam hipóteses vagas sobre as manifestaçíµes. Uns tomavam chimarrão, ouviam música, e poucos impacientes tentavam achar uma maneira de furar o bloqueio. Em vão, é claro.
Encostados junto a mureta da BR-101, me juntei a conversa de três caminhoneiros, que fumavam e reclamavam do alto preço do diesel, e a falta de apoio das empresas na hora de repassar o valor dos pedágios aos motoristas. "Não dá para ignorar também que a vida do caminhoneiro é perigosa. A violência nas estradas é grande, principalmente no Nordeste do Brasil. Tem estradas na Bahia que são terra de ninguém, os assaltantes fazem a festa e o caminhoneiro é quem mais sofre", me disse Vitor Leal Schwank, motorista autí´nomo de Araranguá.
"Sou motorista profissional, não caminhoneiro"
Após mais de meia hora parado, finalmente a PRF liberou a pista e o trânsito na BR-101 voltou a fluir normalmente. Entrei em Três Cachoeiras e parei no popular posto Pedras Brancas, para tomar um café. O local estava tomado por caminhíµes. Aliás, a cidade inteira estava dominada por eles, como nunca antes eu havia visto. Me encaminhei até uma roda onde um pessoal tomava chimarrão com os olhos voltados ainda para a BR-101, embora a paralisação tivesse terminado. Me identifiquei como jornalista e perguntei se alguém era caminhoneiro, se haviam participado da manifestação.
Um senhor meio exaltado foi quem me respondeu, mostrando uma certa indignação tanto em sua voz quanto em sua expressão . "Eu sou motorista profissional, não caminhoneiro. Caminhoneiro tu chuta uma pedra e saem uns trinta, mas bons motoristas de verdade são poucos. Tenho 42 anos de estrada, e nunca roubei, nunca me droguei nem me vendi como tantos que tu pode ver por ai. Meu pai me ensinou assim, e posso morrer pobre mas vou ter a consciência tranquila. í‰ uma vergonha para nossa classe, mas a cocaína rola solta entre o pessoal que pilota os caminhíµes. Fora o fato de que tem gente que faz de tudo para ganhar uns trocados a mais", me declarou o senhor, que me disse se chamar Ademir, e ser do município de Braço do Norte, em SC.
Lei do Descanso aprovada e fim das paralisaçíµes
Saindo do Posto Pedras Brancas, me locomovi por uns poucos metros até a sede da Associação dos Proprietários de Caminhíµes São José (Aprocasj), que é presidida pelo popular Valdemar Raupp. Lá chegando, a primeira informação que recebi foi sobre a aprovação, em Brasília, da nova minuta da Lei do Motorista: uma vitória para os caminhoneiros manifestantes. "Era o sinal que faltava para o fim da paralisação", me disse Valdemar, que havia dormido por duas noites na Estrada do Mar durante as manifestaçíµes, para compor o enorme quorum de centenas de caminhíµes que se juntavam na nossa região. "Se fossem enfileirar todos os caminhíµes aqui em Três Cachoeiras, a fila com certeza passaria da Vila São João", estipula ele. Ou seja, o equivalente a cerca de 30km de caminhíµes. Valdemar ainda falou dos exageros da Polícia Rodoviária Federal durante as tratativas para acabar com o bloqueio. "Eles erraram na dose, agiram com certa ignorância, portando cassetetes e armas de grosso calibre. Forçaram o final do bloqueio na terça-feira (02) meio que na marra".
Na sede da Aprocasj, também encontrava-se o vereador Ademar Borges, que explicava para uns motoristas presentes o que mudava com a nova Lei do Descanso. "Agora fica permitido dirigir por seis horas sem parar. Depois disso, é necessária uma pausa de 30 minutos. Depois, pode-se rodar por outras 6 horas direto". O vereador disse ainda que uma comissão de deputados estuda, em Brasília, uma proposta pela padronização dos pedágios em todo o Brasil. "Muitos contratos para o consórcio dos pedágios são antigos e foram mal feitos, beneficiando de forma abusiva as empresas, e explorando os motoristas no geral" afirma Ademar, que complementa. " í‰ preciso também pegar as leis que existem e fazer elas acontecer. Por lei, o pedágio tem de ser pago pela transportadora ou embarcadora, mas isso nem sempre acontece na prática".
Os caminhoneiros presentes no local tomavam chimarrão e falavam sobre outras falhas no sistema rodoviário brasileiro, como o fato de a lei exigir que o motorista descanse, mas sem oferecer locais adequados para o mesmo repouso. Reclamavam também de certos agenciadores, "gigolí´s de caminhoneiros", que ganham um dinheiro fácil ao intermediar a contratação do motorista pela transportadora. Pouco tempo depois me despedi e rumei para Torres, meu destino final. E de dentro do carro percebi as dezenas de caminhíµes em trânsito, Torres – Porto Alegre, finalmente em movimento e de volta í s estradas, sinalizando o final da paralisação


