Por Paulo Timm
Outro dia, como faço sempre que estou em Porto Alegre, saí í tarde para meus devaneios culturais. Dificilmente saio í noite, quando as opçíµes são maiores. Contento-me com o que as tardes me oferecem: filmes, livrarias, museus, um bom papo com um ou outro amigo sobrevivente. Com isso, passo em revista todos os lançamentos cinematográficos. A cidade, por sorte, tem boas salas e, assim, cumpro meu ritual vespertino. Daí que entrei a ver, sem muita ideia do que teria pela frente, uma co-produção teuto-brasileira: Entre Vales.
Detenho-me aqui na análise do filme, de temática intimista, em função da notícia do suicídio no início da semana do ator Robin Williams, vítima auto-reconhecida das drogas e de depressão. Um gênio que não conseguiu domar suas dores internas.
Nas primeiras cenas do Entre Vales me senti mal. O filme começa com uma arrastada tomada num lixão, com as inevitáveis evidências da miséria humana que os povoa na dura luta pela sobrevivência. Poucos minutos e senti minha sensibilidade exaurida. Me explico: odeio a reiteração da denúncia social no cinema brasileiro. Estou farto. Se é para conhecer os horrores dos lixíµes no Brasil há magníficos documentários que, além da denúncia, oferecem preciosas e precisas informaçíµes sobre o tema. Já estava me levantando para sair quando o olho da câmera se afasta do social e dá início ao drama humano de que o filme trata. Acomodo-me novamente e lá fico í espera da trama. Lentamente, ela se instaura e vai me envolvendo.Entre Vales não é mais outro filme de denúncia social, embora seu principal personagem chafurde num lixão sua capitulação existencial. O personagem é um empresário bem sucedido que perde um filho pré-adolescente, em circunstâncias meio obscuras. Aí pira e rompe os laços com o mundo. Acaba no lixão. Recomendo o filme. Eu fiquei feliz de tê-lo visto e contente ao ver um filme nacional que trata mais da condição humana do que das mazelas da nossa sociedade. O filme, no fundo, aborda um tema crucial dos nossos dias:a depressão.
Foi a depressão, também, que levou Robin Williams, um ator consagrado, genial, ao gesto extremo. E tanto ela, a depressão, como suas funestas consequências para os que com ela convivem, parecem se transformar na doença mortal do século. Ela não se confunde com a tristeza ou luto, sempre passageiros. Ela é crí´nica. E é cíclica, eventualmente potenciada por manifestaçíµes verdadeiramente catastróficas. Ataca, indistintamente ricos e pobres, adultos, principalmente mulheres e idosos, e crianças, moradores do campo e da cidade. Tampouco se refere apenas í falta de vontade ou interesses, mas a uma combinação deste estado com rápidas e profundas mudanças de humor conhecidas como bipolaridade.
Cada vez mais um número maior de pessoas se vê diante da morte que se insinua sorrateira por dentro do corpo e do espírito abalados ,para acabar isolando o depressivo do mundo dos vivos. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que em 2030 a depressão será o principal problema de saúde no mundo, superando outras doenças como as cardiovasculares e o câncer. O mal do século…Em 2010, 800 mil pessoas se suicidaram no mundo, de um total de 340 milhíµes de pacientes de depressão, segundo a UNESCO, mais do que as mortes decorrentes de guerras. í‰, aliás, mais provável que alguém se suicide do que venha a ser assassinado , vítima de acidente de trânsito ou até pelo uso do cigarro. Nos Estados Unidos, sabe-se que o suicídio mata anualmente 2,5 vezes mais do que os homicídios . Não obstante, ninguém fala sobre o temível tabu.
Outro problema associado í depressão são as drogas. De nada adiantarão os programas governamentais de retirada de drogaditos das ruas, quando, em todo o país existem apenas 49 Centros de Assistência Psico Social “ CAPS – voltados a dependentes químicos. Timidamente, apenas um dos candidatos í Presidência, Eduardo Campos, tragicamente falecido no dia 13, se referia ao tema, prometendo multiplicar este número por 4. Seria de se indagar: Só quatro…? Drogas, alcoolismo aí incluído e por muitos considerada a pior delas, é assunto sério de saúde pública e está a exigir crescente atenção das autoridades.
O suicídio de uma celebridade mundial como Robin Williams, o filme Entre Vales, a nossa convivência diária com o drama das drogas nas ruas das nossas cidades “ quando não dentro de casa! – nos remete í uma melhor avaliação da depressão e da questão mais geral das doenças mentais.
Uma grande iniciativa privada cresceu nos últimos 50 anos com bons resultados: O Centro de Defesa da Vida “ CVV – , fone 141. O AAA é outra iniciativa extremamente importante, internacionalmente consagrada. Deles provêm a Cartilha com os OS DOZE PASSOS DE ALCOí“LICOS ANí”NIMOS que parte do reconhecimento da impotência do alcoolista frente í bebida, vindo daí a transferência de seu tratamento para o campo da saúde pública.
Alcoólicos Aní´nimos foi, na verdade, a primeira tentativa de enfrentamento ao alcoolismo. Com os bons resultado alguns psiquiatras de Minnesota “ USA – associaram-se ao grupo que constitui a base do tratamento, embora refinados por vários outros pesquisadores, de muitas clínicas ainda hoje. A terapia familiar, comunitária e agora empresarial complementam o tratamento do AA.
Mas há espaço para outras iniciativas sobretudo da parte governamental, voltadas, além do tratamento da depressão e drogas, í defesa da vida. Falta, por exemplo, um Estatuto dos Doentes Mentais e Drogaditos, tal como dispomos de um Estatuto do Menor e do Adolescente e Estatuto dos Idosos. Uma instituição respeitada e de caráter nacional como o Corpo de Bombeiros, cujo lema é Vida por Vidas, bem poderia, também, se preparar para o enfrentamento desta nova realidade social. í‰ tempo , enfim, de colocarmos o assunto na Agenda Eleitoral em curso. Saber o que pensam os diversos candidatos sobre drogas, depressão e suicídio, o que propíµem, como se posicionam sobre os vários aspectos relacionados a estas questíµes.


