ENTREVISTA COM MARTHA MEDEIROS

4 de março de 2013

 

 

 

A cronista e escritora Martha Medeiros também foi veranista de Torres na infância, adolescência e na fase pré-adulta. Veraneava no térreo do Edifí­cio Santa Rita, na Avenida Beira Mar, na Praia Grande. Após ficar sem vir í  cidade, comprou um apartamento na Praça João Neves da Fontoura, que vendeu há poucos anos.

Abaixo A FOLHA tenta entrar um pouco dentro da alma criativa da artista, assim como tenta tirar algumas impressíµes que Martha possui de nossa cidade.

 

A FOLHA –   Qual tua atividade mais laboriosa e difí­cil: ser colunista de ZH e do Jornal   O Globo, ou escrever livros?

 

MARTHA – Eu não consigo departamentalizar minhas atividades, é tudo uma salada mista. Escrevo todos os dias, ou ao menos tento (tem vezes que não sai nada e o jeito é desligar o computador e pegar um cinema). Diariamente faço crí´nicas, dou retorno aos e-mails, respondo entrevistas, registro ideias para um livro, colaboro para revistas nacionais, reviso textos para coletâneas, sem falar no parte administrativa da casa e da carreira “ costumo dizer que sou a secretária executiva de mim mesma, já que não tenho nenhum staff, nada de agente, assessora, etc. Mas essa movimentação toda me energiza . Dou duro, sou detalhista, mas gosto tanto do que faço que, para mim, trabalho e lazer se tornaram uma coisa só. Sendo mais direta, o mais difí­cil é escrever ficção, mas ao mesmo tempo é minha atividade preferida, por ser mais desafiador.

 

 

A FOLHA –   Qual o pilar que segura tua linha criativa de colunista,   e qual o pilar que procuras estruturar tua criação de romances e livros de contos ou de poesia?

 

MARTHA – í‰ o mesmo pilar que me sustenta como pessoa. Tenho interesse pelas relaçíµes humanas, pela complexidade de cada ser humano, pelo lado B de todos nós, pelas nossas escolhas e também pelas nossas renúncias, tudo que nos faz ser quem somos. Reflito sobre tudo isso por escrito e compartilho com os leitores. Admito que minha obra é predominantemente umbilical, mas já deixei de me culpar por isso, sou de fato autorreferente e isso cria uma empatia mágica com o leitor. Ao escrever sinceramente sobre o que penso e sinto, meus textos ficam mais verdadeiros, comunicativos. í‰ o meu jeito de escrever e de ser: existindo í s claras.    

 

A FOLHA –   No futuro, pretendes escrever mais romances ou publicaçíµes de contos , crí´nicas e observaçíµes?

 

MARTHA – Não penso em me concentrar em um único gênero, posso continuar exercitando vários caminhos, conforme forem surgindo as oportunidades, mas não escondo que, se pudesse, escreveria apenas ficção, é o que tem me dado mais entusiasmo hoje em dia. No entanto, a crí´nica é uma vitrine importante e estabelece um diálogo instantâneo com o leitor, ao contrário dos romances, que estabelecem uma certa distância.

 

A FOLHA “ Fale sobre projetos na TV, no cinema e no teatro que possam aparecer em cima de tua obra…

 

MARTHA – Tem muita coisa acontecendo, principalmente no teatro. No momento está em cartaz no Rio a versão masculina do meu livro de cartas Tudo que eu queria te dizer (a atriz Ana Beatriz Nogueira já havia feito o monólogo com as cartas femininas, agora Emilio Orciollo Neto encena as cartas escritas por homens). Assisti e adorei a montagem. Em 27 de março estreia em São Paulo a peça Fora de Mim dirigida por Francisco Ramalho. Estarei lá e não sei o que vou ver no palco, será uma surpresa. Costumo dar liberdade total aos adaptadores, não me envolvo. Mas estou confiante. Por fim, a peça Doidas e Santas, com Cissa Guimarães, voltará a entrar em cartaz no meio do ano e deverá vir a Porto Alegre em outubro no Theatro São Pedro. Haverá também um filme com o mesmo nome e com a mesma atriz, as filmagens começarão no segundo semestre.    

 

A FOLHA –   Do fundo do coração: Fale sobre tua impressão sobre Torres e tome a liberdade de dar alguns conselhos para que nossa cidade cresça dentro de sua história de protagonista no turismo gaúcho e nacional.

 

MARTHA – í‰ um assunto delicado, pois tenho uma relação profunda com a cidade, passei todos os veraneios da minha infância em Torres e foi uma época memorável, da qual sinto muita nostalgia. Segui vindo í  Torres na adolescência: passávamos o dia pegando praia na Guarita, í  noite fazí­amos a concentração no Hotel Farol e depois í­amos dançar na Sede da Sapt. Era como se a cidade fosse nossa, conhecí­amos todo mundo, quem viveu lembra: era um paraí­so. Aí­ Torres cresceu, e isso é natural: deixou de ser um balneário quase privativo de um grupo de famí­lias amigas e passou a receber visitantes de todo o Estado, ficou mais heterogênea, só que o charme se perdeu. Virou um centro urbano, porém não basta a exuberância da natureza para manter o encanto anterior.

 Lamento a falta de direção de arte em Torres “ parece que qualquer capricho, qualquer cuidado com fachadas, qualquer investimento em beleza será considerado uma futilidade. O centro de Torres parece uma cidade de faroeste, não tem um padrão de qualidade estético, está poluí­da visualmente, não vejo dedicação no trato das pequenas coisas: o acesso í s praias, as lanchonetes, os restaurantes, as lojas. Continua linda pelo que Deus lhe deu “ as formaçíµes rochosas “ mas eliminou o conceito de bom gosto. O fato de ter crescido e se popularizado não deveria tornar dispensável a graça e a alegria de se transitar num local aprazí­vel, organizado, limpo, colorido, em sintonia com a rusticidade e a simplicidade elegante das praias de outros estados do paí­s. De qualquer forma, fui muito feliz em Torres, muito mesmo, e ainda torço para ver a nossa praia voltar a ser encantadora.    


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