FINIS TERRAE
6 de agosto de 2010
Tomei conhecimento da expressão finis terrae numa aula de História lá, bem distante, durante meu curso ginasial, o equivalente hoje í s quatro séries finais do ensino fundamental, quando estudávamos os Grandes Descobrimentos e a expressão designava a região costeira da Espanha com Oceano Atlântico, mais precisamente um cabo na costa da Galícia, onde a terra realmente terminava. A citada expressão ocorreu-me hoje de manhã quando observava do alto do prédio onde estava, o fim da área de terra da costa torrense e o início do oceano. Repentinamente surgiu na minha mente: finis terrae, finis terrae, finis terrae. O fim da terra, o início do mar. Ocorreu-me que essa expressão não serve para designar apenas aquela parte da Espanha a qual para os habitantes da região na época realmente era o fim da terra conhecida, pois ainda desconfiavam que o planeta talvez fosse de fato redondo e que depois do mar havia outras terras, outros mares e a mesma terra outra vez. Observar nossa finis terrae nesse amanhecer gelado e o mar a perder de vista não foi muito animador, mas confirmou a certeza de que o mar não é infinito embora possa parecer e que lá, depois dele, estão a costa africana repleta de outras paisagens habitadas por outros povos e, bem mais acima, a verdadeira finis terrae espanhola, de onde podemos contemplar o Atlântico de outro ponto de vista hoje com a certeza que bem distante estão as terras riquíssimas dos países americanos que foram exploradas e espoliadas pelos seus descobridores espanhóis, portugueses, franceses e holandeses, que levaram tudo o que puderam levar em troca de uma tal colonização.
Graças a tudo isso, hoje estou aqui admirando nossa finis terrae, com uma vontade imensa de navegar para o lado de lá e redescobrir as terras já conhecidas da humanidade, mas ainda não conhecidas por mim in loco. Poder ver a ífrica Continental no seu lado atlântico, dividida em seus muitos países, também descoberta pelos europeus e por eles colonizada, mas que tem resistido bravamente a aculturação forçada. Foi muito bom ver de perto, através da imprensa durante a Copa 2010, a ífrica do Sul, assim chamada por ser o país mais ao extremo sul do continente africano e um dos mais desenvolvidos, mas que conserva sua herança antropológica e cultural quase intocada. No lado de cá do Atlântico, o povo nativo desse país Brasil não resistiu í s múltiplas pressíµes e estropiou-se. Aqui no Sul, nossos indígenas vivem de forma abominável, nem de acordo com suas origens, nem de acordo com o desenvolvimento tecnológico atual que cada vez dá ao homem maiores possibilidades de conforto. Visito seguidamente o assentamento da tribo indígena aqui de Torres. A FUNAI após muito tempo, tempo demais, conseguiu negociar uma área de terra para eles morarem, uma terra extensa, uma terra boa para o cultivo, mas que esbarra na falta de vontade dos seus donos atuais para o trabalho, sequer para o plantio da horta e da roça caseira e de subsistência. Simplesmente saíram da beira da BR onde moraram durante anos e mudaram de lado para uma terra de sua propriedade. Estão agora mudando de suas ocas de palha e barro para pequenas casas civilizadas, mas não se aculturaram o suficiente para bons hábitos de higiene e de saúde. Encontramos todos os dias, nas ruas da cidade, nas portas dos bancos, nas praças indiazinhas com seus filhos pendurados aos seios murchos mendigando uma moeda. Sentem frio, passam fome, não são mais nem indígenas com seus costumes e suas tradiçíµes, nem brancos com seus progressos e seus hábitos. Vivem na finis terrae da sua própria cultura que acaba quando encontra o mar da civilização ocidental. Finis terrae cultural e humana, desesperançada, que mesmo recebendo um pedaço de sua terra de volta, não sabe mais o que fazer com ela. Não caça nem pesca, não cultiva nem colhe. Povo confuso, contaminado, mais branco que indígena perdido nesse mar de leis que não entende e que não o protegem adequadamente.


