Intensificam-se ocupações irregulares de terreno em Torres

1 de julho de 2016

 

 

Por Guile Rocha

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Nesta semana, seguiu a polêmica em torno das ocupaçíµes irregulares em terreno no bairro Vila Nova (área atrás do Parque do Balonismo). Na tarde de quarta-feira (29), voltei até o local das ocupaçíµes irregulares para conversar com alguns dos moradores. Percebi que o número de pequenas casas nas redondezas era ainda maior, passando de 50 moradias . Muitas das que estavam em processo de construção na semana passada já estavam mais finalizadas e sendo habitadas agora. Algumas casas são de madeira tratada, mas a maioria tem suas paredes feitas de restos de madeira e compensados O som do martelo batendo, da madeira sendo cortada, não era mais tão intenso. Os moradores do terreno invadido, agora, tentam levar a vida em suas humildes residências.

Conversei com um grupo de pessoas que está lá instalada desde o começo da ocupação (sendo estes familiares/amigos da pessoa que, dizem, ser responsável principal pela ocupação). Eles contaram que há 3 meses a invasão começou de forma tí­mida, se intensificando nas últimas semanas. O discurso permanece o mesmo da semana passada: os invasores são pessoas sem condição de pagar os alugueis cada vez mais caros, ou que apinhavam-se em casas de alguém famí­lia, superlotando-as. Ocuparam a área atrás do Balonismo porque diziam o local estava desocupado, tomada pelo lixo. E foram se proliferando. "Ficamos sabendo que era área da prefeitura, ou área que estava com os impostos atrasados. Ninguém aqui tem como comprar um terreno".

Desta vez, os invasores com quem falei negaram que a prefeita Ní­lvia Pereira (ou qualquer representante da prefeitura) tenha passado pela ocupação apoiando o movimento. Sentem-se, na verdade, desamparados pelo poder público. O grupo se ressente com os que pensam que eles são bandidos, traficantes de droga, pessoas que estariam querendo se aproveitar da situação. Confirmam que há pessoas de fora da cidade que ocuparam o espaço, conjuntamente. Entretanto, os forasteiros seriam minoria: "í‰ uma questão de sobrevivência. Se estamos aqui é porque não temos mais para onde ir.  Somos pessoas honestas, quase todos daqui de Torres, muitos perderam o emprego recentemente, ou vivem de bicos.Só queremos um lugar para viver, ter um teto para nossos filhos".

Grávida, uma mulher que vive na ocupação com o marido e (duas crianças pequenas) conta que se sentiu humilhada por uma pessoa que passou pela ocupação irregular, criticou-a. "Me disseram que, se não tenho condiçíµes de criar meus filhos, não tinha que ter tido eles. Agora as crianças tem culpa por terem nascido?".

 

O jeito de viver dos invasores

 

 

FOTO: Interior de uma das residências da ocupação

 

As pequenas moradias não possuem energia elétrica – com exceção de uma, onde um ‘gato’ puxa de forma irregular a energia para uma geladeira e duas lâmpadas, instaladas na casa   de dois pequenos cí´modos (uma sala/cozinha e um quarto). As necessidades fisiológicas são um problema a ser resolvido em latrinas improvisadas ou em algum lugar discreto (ou no banheiro de um vizinho caridoso, com casa urbanizada). Os banhos, em alguns casos, são combinados com os moradores de casas vizinhas, que permitem que os invasores tomem uma ducha (mediante pagamento de um pequeno valor). "No geral o pessoal se ajuda bastante. ígua os vizinhos nos conseguem, ou compramos fora. Fazemos pequenos fogareiros (geralmente em lugar isolado, como latíµes de tinta, para que o fogo não se espalhe) para nos aquecer ou esquentar algum alimento".

Fui convidado a entrar em uma das residências. Não mais do que uma peça com menos de 10m ², feita primordialmente com placas de compensado. No local há duas camas de solteiro (uma delas um pouco maior), mais um colchão no chão, um botijão de gás, um pequeno tanque de lavar (sem água, claro), e os pertences da famí­lia – alinhados em dois pequenos moveis. Lençóis fazem uma divisória improvisada entre os dois ambientes. Lá dormem 4 pessoas, um casal (ela grávida) e dois filhos. "Nossa casa é pequena mas jeitosa, o importante é que estamos juntos. Para o frio temos os cobertores", me disse a mãe da famí­lia. Outra mulher me sentenciou que há algumas casas um pouco menores, outras um pouco maiores. "Cada um tem seu lote e constrói a casa da forma que desejar para se acomodar (com a famí­lia)".

 

 

Incertezas quanto ao futuro

 

Um dos invasores –   senhor de 55 anos, que antes morava em residência próxima ao Valão – me mostrou um boleto com dezenas de prestaçíµes de R$ 50 reais pagas, durante 5 anos. Este valor foi repassado para a cooperativa que deveria garantira a efetivação do projeto Minha Casa Minha Vida em Torres (em terreno junto í  Estrada do Mar). "Até hoje nem notí­cias da minha casa, não sei se virá. Outros inscritos no programa estão aqui também. E o pior é que sofri um infarto, não posso mais trabalhar, não tinha como pagar aluguel. Por isso acabei vindo pra cá".

Quanto a possí­vel ação de reintegração de posse, que pode forçar a expulsão da área ocupada de forma irregular, os   invasores se mostram impotentes e desiludidos: "Eles vão chegar tirando tudo, derrubando nossos barracos, o que podemos fazer? Na frente deles não somos nada. Para fazer isso eles são rápidos. Mas para tentar nos ajudar, mostrar solidariedade, dai ninguém aparece. Se pudéssemos pagar um valor mensal, pequeno, para garantir nossa terra, irí­amos nos unir e tentar pagar. Mas do jeito que estão os preços (dos terrenos em Torres) é impossí­vel ", disse um homem (irmão do responsável principal pela ocupação). "Tem muita criança passando fome na cidade e a assistência social não tá nem ai. Na verdade nada nessa paí­s funciona", diz outro homem hoje desempregado, que há 12 anos vive em Torres.

 

 

Ação de reintegração de posse ajuizada

 

Os terrenos ocupados de forma irregular pelos invasores, em área atrás do Parque do Balonismo, são em parte pertencentes ao municí­pio e, em parte, de propriedade privada. No dia 24 de junho, a prefeitura emitiu um comunicado oficial, através da Procuradoria-Geral do Municí­pio, informando que havia sido ajuizada ação de reintegração de posse com medida liminar das áreas do Parque do Balonismo e Rua "H" – no chamado loteamento Jardim Eldorado. "A Liminar foi deferida nos autos 072/1.16.0002597-3, aguardando cumprimento através de oficial de justiça e Comando da Brigada Militar. No tocante as áreas de propriedade particular, os proprietários também ajuizaram ação de reintegração com medida liminar deferida".

 

 

 

 

Ocupaçíµes irregulares em pauta também na Câmara  

 

 

FOTO: dezenas de invasores estiveram na Câmara dos Vereadores na última segunda (27)

 

O assunto acabou também sendo protagonista de discussíµes na Câmara dos Vereadores, durante a sessão da Câmara da última segunda-feira (27). Dezenas de homens, mulheres e crianças que estão ocupando a área irregular – e lá construindo suas moradias – lotaram o plenário do legislativo torrense, levando pedido para se posicionarem na tribuna popular. Entretanto, os invasores da área não cumpriram os ritos legais estipulados pelo regimento da Câmara torrense – que prevê que as inscriçíµes para uso da tribuna popular devem ser requisitadas com antecedência. Por isso, o pedido só será atendido em agosto, após o recesso dos vereadores (que ocorre durante todo o mês de julho).

Alguns dos vereadores que se pronunciaram na sessão acabaram, também, abordando a questão das ocupaçíµes irregulares na área atrás do Parque do Balonismo. Jéferson dos Santos (PTB) afirmou ser solidário a causa dos invasores, no sentido de encontrar uma solução para o impasse das famí­lias, "que necessitam de um teto para seus filhos (palavras do vereador)".

Já o vereador Marcos Klassen (PMDB) colocou no não cumprimento do projeto Minha Casa Minha Vida – anunciado pela prefeitura de Torres há anos (mas que até hoje não foi efetivado) em área junto a Estrada do Mar – a culpa pelas ocupaçíµes irregulares. Marcos lembrou, inclusive, que entre as famí­lias invasoras há inscritos neste programa de moradia popular – famí­lias que pagam R$ 50 mensais para uma cooperativa (sem, entretanto, ter garantias da construção de sua casa). "Embora não estejam dentro da lei, os vereadores estão com vocês, disse Marcos".

A vereadora Lú Fippian (PT), afirmou, em seu discurso,   que o processo mostra a necessidade do Brasil realizar uma "reforma urbana" – assim como estaria tentando realizar uma reforma agrária. Mas a vereadora criticou pessoas que estão invadindo junto sem terem necessidade de novas moradias, denunciando que há   invasores que possuem "caminhonetes importadas" e estariam sendo oportunistas nas ocupaçíµes irregulares.

O vereador Jailton ‘Nego’ Miguel (PRB) lamentou a situação das famí­lias, mas foi extremamente realista com o assunto. Ele ressaltou que já existem pedidos de reintegração de posse para a área invadida, e que um oficial de justiça logo deverá oficiar cada um dos invasores para que se retirem do local – sendo que a Brigada Militar poderá ser chamada para retirar os invasores a força (caso estes não deixem voluntariamente o local). "Tenho certeza de que não é dessa forma que as pessoas conseguem casas. Tenho pena das famí­lias que, com esse governo que esta ai (referindo-se í  prefeita Ní­lvia Pereira) não vão conseguir nada. O pior é que daqui a pouco estas pessoas não vão ter nem o que comer, pois o desemprego aumenta e os preços da alimentação básica estão subindo".

Ao final da sessão, foi designada pelos vereadores uma comissão temática para receber os manifestantes (mesmo durante o recesso legislativo) e buscar encaminhamentos junto ao poder executivo.

 


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