JOGOS DE GUERRA NAS COREIAS

20 de março de 2013

 

Após a morte de Kim Jong-il em 2011, seu filho Kim Jong-un assumiu o cotrole da Coreia do Norte, mas continuou com a postura bélica e de isolamento sociopolí­tico seguido pelo pai

 

Tensão Nuclear

 A Coreia do Norte realizou na manhã do dia 15 de fevereiro seu terceiro teste nuclear, em um claro desafio í  comunidade internacional e a seu principal aliado externo, a China. A explosão provocou um abalo sí­smico de 4,9 pontos na escala Richter, detectado pelos serviços geológicos de vários paí­ses. Três horas depois da explosão, a Coreia do Norte anunciou que havia realizado um teste bem sucedido de um dispositivo nuclear miniaturizado e mais leve, com maior potência que os detonados no passado.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou a ação e afirmou que ela representa uma clara e grave violação das sançíµes internacionais contra Pyongyang. Especialistas dizem que a Coreia do Norte já tem bombas nucleares, mas não desenvolveu ainda a capacidade de colocá-las em foguetes e fazê-las chegar a um alvo distante.

E no último dia 08 de março, a tensão na pení­nsula coreana atingiu nesta sexta-feira (8) ní­veis ainda mais altos, após a Coreia do Norte responder í s últimas sançíµes da ONU com o anúncio de que romperá o cessar-fogo assinado há seis décadas com o Sul, em uma renovada ameaça de ataque nuclear. O governo da Coreia do Norte também anunciou que fechará totalmente a fronteira entre os dois paí­ses.

O Ministério da Defesa da Coreia do Sul advertiu que o paí­s vizinho provocará sua própria destruição se produzir um ataque nuclear preventivo, em uma resposta í s últimas ameaças do regime de Kim Jong-un.

"Se a Coreia do Norte atacar a Coreia do Sul com uma arma nuclear, o regime de Kim Jong-un desaparecerá da Terra", expressou o porta-voz do Ministério, Kim Min-seok.

 

Breve histórico do conflito entre as Coreias

Em 1910, o Reino da Coréia é anexado oficialmente ao Império Japonês, encerrando o poder de uma dinastia monárquica de cinco séculos. Na época, sob a égide da colonização iniciada pelos europeus, as forças asiáticas buscavam suas próprias esferas de influência “ e a pení­nsula coreana foi uma das jóias em disputa entre o Império Japonês e a Dinastia chinesa Qing. Sob o poder japonês, a Coréia passou a Primeira e a Segunda Guerra Mundial como território imperial. Sofreu as mesmas consequências que as outras colí´nias japonesas “ imigração forçada, convocação compulsória, trabalhos humilhantes e discriminação racial.

Cenário secundário da Segunda Guerra, a Coréia foi palco de lutas coloniais durante o conflito; primeiro entre o Império Japonês e a China, e depois entre comunistas e capitalistas. A pení­nsula da Coréia se tornaria, em 1950, uma área de disputa ideológica armada.

 

Guerra da Coréia

 O Paralelo 38, divisor das duas coréias, foi traçado por comandantes estadunidenses ainda durante a Segunda Guerra, em um esforço bem-sucedido dos lí­deres capitalistas em manter a União Soviética sem a tutela da capital Seul. Os russos, que já mexiam suas peças no tabuleiro asiático, haviam tomado a parte norte do território e articularam a instauração de um governo comunista, que colocou Kim Il-sung, (pai de Kim Jong-il, que comandou a Coréia do Norte até 2011), no comando do paí­s.

Os americanos não demoraram a contra-atacar a ameaça comunista, e apoiaram o nome de Syngman Rhee, eleito lí­der da Coréia do Sul em pleito sangrento e duvidoso no ano de 1948. Ultraconservador, Rhee queria independência polí­tica e a unificação da Coréia “ polí­ticas similares í s do lí­der comunista do Norte, mas opostas em ideologia. Estava armado o conflito.

Em 1950, Kim Il-sung visitou Moscou e Beijing em busca de apoio militar para uma invasão a Coréia do Sul. Até hoje não é consenso o resultado dos diálogos, mas a tentativa do comandante norte-coreano de convocar uma consulta popular em toda a pení­nsula no mesmo ano é indí­cio de que os nortistas não receberam respostas positivas.

Quando enviados diplomáticos do norte são presos em Seul em junho de 1950, a Coréia do Norte ultrapassa o Paralelo 38 e abre fogo, oficializando a Guerra da Coréia. Apesar de sua notoriedade, a Guerra da Coréia não fez mais do que determinar o impasse em torno do Paralelo 38. O conflito armado acabaria com a assinatura de um armistí­cio em 1953 e o traçado de uma zona desmilitarizada em 1954.

 

Duas Coréias, duas ideologias

Sob o comando de Kim Il-sung (que esteve no comando do lado comunista até 1994), a Coréia do Norte iniciou seu isolamento do resto do mundo. Foi durante seu governo que as próprias naçíµes comunistas se afastaram do paí­s, a não ser por alguns limitados tratados comerciais que se encerraram ainda nos anos 80. Kim Il-sung conduziu a nação a um crescimento econí´mico positivo até os anos 60. A partir daí­, por causas ainda não esclarecidas, o até então moderado paí­s independente iniciou uma série de polí­ticas internas e externas tragicí´micas, e o governo exercido por Il-sung tornou-se despótico e altamente militarizado. Crí­ticos contemporâneos, como Brian R. Myers, descrevem o modelo de Estado norte-coreano como uma ditadura hereditária e uma nação nacional-socialista de extrema-direita, com ideias de pureza racial, o que aproximaria a Coréia do Norte da Alemanha Nazista. Seu filho, Kim Jong-il, e seu neto, Kim Jong-un, em pouco alteraram a polí­tica do paí­s, a não ser no número de ameaças de agressíµes explí­citas, que aumentaram exponencialmente.

A Coréia do Sul, que se tornou nação economicamente próspera nos anos 80, foi para o lado oposto. Adotou um sistema de três poderes, similar ao brasileiro, e abriu-se econí´mica e politicamente. Tornou-se um grande fator na balança comercial da União Européia, abriu parceria tecnológica com a Rússia, co-anfitriou a Copa de Futebol 2002 (com os antigos inimigos japoneses) e reiniciou comércio com a China, em 1992. Nunca se afastou muito dos Estados Unidos, apoiando a Guerra do Vietnã e dependendo grande parte da sua balança nas trocas com os americanos.

Com a eleição do presidente Lee Myung-bak pelo Grande Partido Nacional, em 2007, a Coréia do Sul se aproximou ainda mais dos Estados Unidos nas relaçíµes comerciais e tratados econí´micos. As eleiçíµes presidenciais e legislativas de 2012 renovaram o mandato do partido conservador, elegendo a nova lí­der Park Geun-hye por uma vantagem apertadí­ssima, e mantendo a maior fatia do congresso, apesar de ter perdido cadeiras.

 

Ensaio de conflito

As relaçíµes dos últimos 10 anos entre as duas coréias são difí­ceis de decifrar. Em 2007, os então lí­deres dos respectivos paí­ses realizaram uma cúpula em Pyongyang (capital da Coréia do Norte), onde foi discutida paz permanente e unificação. Em 2010, o afundamento de um navio da marinha sul-coreana mata 48 marinheiros, e investigaçíµes apontam para um torpedo norte-coreano como causa, o que o então governo de Kim Jong-il nega. Neste perí­odo, chegou a se falar em uma possí­vel dissidência polí­tica na enorme estrutura militar da Coréia do Norte, impossí­vel de confirmar pela obscuridade polí­tica.

A morte de Kim Jong-il em 2011 não trouxe a abertura midiática que observadores esperavam. Kim Jong-un prossegue com o culto pessoal e violaçíµes de Direitos Humanos que são marcas do pai e do aví´, e mantendo o governo do paí­s praticamente em segredo, sem liberar informaçíµes para o resto o mundo sobre o que realmente acontece neste pequeno pedaço de ilha.

 

Sinais e ameaças

Neste ano de 2013, Kim Jong-un colocou as forças militares do seu paí­s em estado permanente de guerra. No dia 11 de março, o lí­der da Coréia do Norte anunciou pela imprensa estatal o fim do armistí­cio de 1953, além de ameaçar verbalmente os governos da Coréia do Sul e dos Estados Unidos. A Guerra da Coréia nunca chegou a terminar, e o fim do armistí­cio significa, logicamente, o prosseguimento da guerra ostensiva. Por outro lado, lógica nunca foi o forte da polí­tica internacional da Coréia do Norte.

Alguns argumentam que as ameaças são apenas fichas de negociação para uma abertura econí´mica sem abertura polí­tica, mas grande parte dos analistas concorda que o Estado norte-coreano não está sinalizando por um acordo. Em resposta í s ameaças recentes, Coréia do Sul e Estados Unidos moveram peças militares para as zonas quentes, no norte do oceano pací­fico, e marcaram um encontro entre presidentes para o mês de maio. Os vizinhos japoneses e chineses também se mostram assustados com as ameaças, visto que a Coréia do Norte possui mí­sseis balí­sticos que alcançam tanto Tóquio quanto Beijing.

A Guerra Fria terminou, mas os ecos nucleares ainda amedrontam o mundo, 25 anos depois.

 

*Por Lucas Aguirre, com informaçíµes de Guilherme Rocha  

 


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