Mais de 300 voluntários ‘abraçam’ a Praia da Guarita no Dia mundial de Limpeza de Rios e Praias

26 de setembro de 2016

 

LEGENDA: Um coração gigante, com a imagem de um par de mãos segurando carinhosamente o mapa global com a inscrição save the planet, foi abraçado por mais de 300 voluntários (FOTO: Fernando Pitol)  

 

Além do lixo recolhido pelos voluntários, evento contou com estandes de instituiçíµes parceiras, palestras ambientais e atividades culturais.  


Por Maiara Raupp
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Foi realizado no último domingo, dia 18 de setembro, na Praia da Guarita, em Torres, a 3 ª edição do Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias, iniciativa internacional realizada simultaneamente em mais de 100 paí­ses.  A ação reuniu na mais bela praia gaúcha cerca de 300 voluntários, que, além de abraçarem simbolicamente a praia, recolheram em um trecho de 200m, 45,2 kg de lixo. Os voluntários também classificaram os resí­duos, incorporando os dados í s estatí­sticas da ONG americana Ocean Conservancy – que visam retratar a poluição dos oceanos em todas as regiíµes. Foram encontrados 3.917 itens, sendo pontas de cigarro (n = 933), pedaços de plástico (n = 834), embalagens de alimento (n = 694), pedaços de vidro (n = 293) e canudinhos de refrigerante (n = 198) os mais encontrados.
Em Torres o evento foi organizado pelo Projeto Praia Limpa Torres (Associação dos Surfistas de Torres) e o Grupo de Estudos de Mamí­feros Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS), em parceria com a Prefeitura Municipal de Torres. Conforme destacado pelo professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) e pesquisador do GEMARS, Paulo Ott, a ação pretende demonstrar a gravidade do problema da poluição dos oceanos e a necessidade imediata de encontrarmos alternativas para reverter o quadro existente. De acordo com estudos recentes, estima-se que se nada for feito, em 2050, a quantidade de plásticos no mar irá ultrapassar a de peixes existentes.  
Para o coordenador do Projeto Praia Limpa Torres, Alexis Sanson, a ação em Torres tem procurado despertar a reflexão das pessoas, de uma forma mais ampla, sobre os caminhos que estamos trilhando. A participação crescente de voluntários a cada ano é também uma marca bastante positiva. Sem dúvida, o evento realizado na Praia da Guarita representa hoje uma das açíµes voluntárias de maior impacto e sensibilização, com referência a necessidade de preservarmos nossas praias e oceanos, da costa brasileira, garantiu Sanson.
A programação do evento contou com oficina de desenho de paisagem com o artista Jorge Herrmann, II mostra artí­stica com a exposição reciclagem marí­tima da artista Flávia Chaves, II mostra de projetos ambientais com a participação de diversas instituiçíµes como a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a Uergs, o Parque Estadual de Itapeva, o Conselho Municipal do Meio Ambiente, Rede de Educação do Litoral Norte (Osório), Espaço Mar (Torres) e as ONGs Onda Verde, Defender, Greenpeace (Grupo de Voluntários de Porto Alegre, Imbé e Florianópolis), Projeto Onda Limpa (Passo de Torres/SC) e GEMARS, dentre outros.  

 

FOTO: Voluntários fizeram a coleta e catalogação do lixo na praia (FOTO: Vagner Machado)

   

Palestra chama atenção para a importância da preservação dos oceanos

 O evento teve ainda um ciclo de palestras que contou com a participação do biólogo e coordenador nacional da ação entre 1995 e 2003, Salvatore Siciliano, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio; o pesquisador Kauê Pelegrini, da UCS, e a bióloga e presidente da Fundação Gaia, Lara Luztenberger, filha do ambientalista José Lutzenberger, idealizador do Parque Estadual da Guarita.
O primeiro painel, realizado por Kauê Pelegrini, chamou a atenção para as múltiplas origens do lixo encontrado nas praias. Os lixos que recolhemos na Praia da Guarita hoje nem sempre foram jogados no chão aqui. Muitas vezes foram jogados em outra cidade. Com o vento foram parar em rios e lagoas, que desaguaram no oceano e com a maré alta o mar trás para a orla. Portanto a responsabilidade desse lixo não é só de quem mora aqui, é de todos, afirmou Kauê.

O pesquisador falou ainda dos problemas que o lixo causa para a vida marinha e para as nossas vidas. As tartarugas, por exemplo, se alimentam de água viva. Essas são facilmente confundidas por sacolas de plásticos, fazendo com que as tartarugas acabem ingerindo e morrendo. Além disso, os peixes também se alimentam equivocadamente de plásticos contaminados. E depois nós vamos nos alimentar desses peixes contaminados, falou Kauê.
Outro problema destacado pelo pesquisador é a quantidade de lixo que cobre o oceano, impedindo que algas marinhas façam a fotossí­ntese e deixem de produzir o oxigênio que respiramos. As algas marinhas produzem cerca de 50% do oxigênio que respiramos por meio da fotossí­ntese. O aumento da quantidade de lixo dos oceanos acaba prejudicando a realização da fotossí­ntese, explicou ele.
Kauê relatou ainda a participação da Universidade em um projeto pioneiro de coleta do lixo em alto mar realizado pela The Ocean Clean Up e o potencial de reciclagem desse material.  No Hawai existe uma ilha de lixo no tamanho da região sul do Brasil. Nessa área foi instalada uma plataforma de recolhimento de lixo com bóias. Parte desse lixo será transformado em utilitário pela UCS, assim como o lixo recolhido na Praia da Guarita. A Universidade é única do Brasil que participa da The Ocean Clean Up , concluiu Kauê.  

 

Importância do voluntariado e origem do dia mundial  

 

O segundo painel foi do biólogo Salvatore Siciliano, que destacou í  importância dos voluntários. Segundo ele, o fazer porque se tem vontade faz toda a diferença. Quem fez as Olimpí­adas do Rio de Janeiro, por exemplo, foram os voluntários. Foram mais de 50 mil. Se não fossem eles não teriam Olimpí­adas. Isso é mágico, garantiu ele, acrescentando ainda que a ação realizada em Torres destacou-se pelo entusiasmo de todos os voluntários, que transformaram a dramática questão do lixo nas praias em uma ação positiva por um ambiente mais saudável.
Salvatore falou ainda sobre a origem do Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias e explicou o porquê é realizado nessa época do ano. O Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias é um evento internacional de conscientização ambiental realizado em mais de cem paí­ses todos os anos, sempre no terceiro final de semana de setembro porque é final do verão no hemisfério norte. Uma ação de limpeza após o verão. Aqui é um evento preparatório para um verão mais limpo, contou ele.
O biólogo disse que a iniciativa surgiu devido í  preocupação com a grande quantidade de lixo nas praias e no mar. Foi aí­ que, em 1986, a ONG norte-americana Ocean Conservancy organizou o primeiro Dia Mundial de Limpezas de Praias na costa dos Estados Unidos com o objetivo de conscientizar a população local sobre este crescente problema. ˜Para termos uma ideia da gravidade do problema em todo o mundo, uma pesquisa recente estima que a proporção de toneladas de plásticos por toneladas de peixes existente nos oceanos era de uma para cinco em 2014 e que, se nada for feito, em 2050, a quantidade de plásticos no mar irá ultrapassar a de peixes existentes. Além disso, estima-se que, também em 2050, 99% de todas as espécies de aves marinhas do mundo estarão contaminadas por plásticos, completou.

 
˜O que tem que prevalecer são as Torres que deram  nome a cidade™

 
 

Bióloga Lara Lutzemberger (foto: Vagner Machado)  

 

Outro ponto forte do evento foi a palestra da bióloga Lara Lutzenberger, filha do idealizador do Parque Estadual da Guarita, o ambientalista José Lutzenberger. Lara fez um resgate histórico do projeto de criação do Parque, destacando um dos princí­pios norteadores do projeto, que era respeitar e destacar as singularidades da paisagem local, o que seu pai chamava de diálogo com a natureza.

Lara chamou atenção ainda para a triste transformação ocorrida na paisagem de Torres. Torres era conhecida como Torres de pedra. Mas hoje, se o lixo suja os nossos mares, as ˜torres de concreto™ sujam a paisagem. Estamos no limite de colocar Torres a perder. Já foi longe demais. As belí­ssimas torres naturais e o próprio farol, sí­mbolos do municí­pio, hoje estão praticamente desaparecidos em meio í s inúmeras e gigantescas ˜torres de concreto™.  Não é possí­vel seguir assim. í‰ preciso rever isso para preservar Torres, desabagou Lara.

Sobre o Parque da Guarita, Lara disse que ele continua lindo. O Parque está diferente do original. Foi alterado desde aquela época, mas o contorno permaneceu. As mudanças são inerentes a vida. Ainda é possí­vel ver aqui um pouco de cada caracterí­stica de toda a região, assim como meu pai havia imaginado, disse ela. Lara afirmou ainda que o Parque nunca esteve tão bonito como agora. Desde antes do furacão Catarina – que destruiu a vegetação “ que eu não via o Parque tão exuberante. Criou corpo. Como um todo ele está tão bonito quanto foi criado, assegurou Lara.  

Entre uma palestra e outra houve a participação do ambientalista Paulo França, com suas belí­ssimas poesias de preservação da natureza, que enriqueceu ainda mais o evento. Lara mencionou Paulo em seu discurso, garantindo que não é preciso de faculdade para se ter sabedoria. A gente aprende se relacionando com a natureza. Meu pai já dizia isso. Com seu jeito humilde e simples consegue transbordar sabedoria e amor pela natureza, concluiu Lara.

Paulo França realiza trabalhos de preservação ambiental nas praias da cidade de Torres a mais de 20 anos, destacando-se pelas belas imagens e mensagens ambientais, sempre chamando atenção í s mazelas do impacto humano no ambiente natural.

 

 



 

 

 

 


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