O Brasil éo maior "exportador" de água virtual do mundo

19 de março de 2010

Entrevista especial com John Anthony Allan.


 A forma como usamos a terra e os recursos hí­dricos no passado negligenciava os impactos ambientais impostos pela agricultura intensiva. Esses custos não se refletem nos preços das commodities alimentí­cias vendidas e compradas internacionalmente, e nem mesmo nos preços dos alimentos no mercado interno. O Brasil não deveria correr para satisfazer a demanda global por sua água, colocando commodities no mercado mundial a preços que impossibilitem que o ambiente das terras e dos recursos hí­dricos do Brasil seja usado de modo sustentável. Essas são as palavras do cientista britânico John Anthony Allan, escritas por ele na entrevista que aceitou conceder, por e-mail, í  IHU On-Line. Conhecido no mundo inteiro por ter criado o conceito de água virtual, explicado a seguir, Tony Allan identifica que as grandes economias de água podem ser feitas no setor agrí­cola, onde os volumes de água usados são vastos. Os agricultores tomam conta de toda a água verde. Junto com os engenheiros, eles tomam conta de toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm a chave para a segurança da água “ especialmente no Brasil, alerta.

A entrevista é de Graziela Wolfart. A tradução é de Luí­s Marcos Sander.

John Anthony Allan é professor no King™s College de Londres e na Escola de Estudos Orientais e Africanos. Pioneiro em conceitos chave para a compreensão e a divulgação das questíµes referentes í  problemática da água e í  sua conexão com a agricultura, as mudanças climáticas, a economia e a polí­tica, Tony Allan foi laureado com o Prêmio da ígua de Estocolmo 2008 (2008 Stockholm Water Prize).

   

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor pode explicar o conceito de água virtual? Como fazer o cálculo de quanto cada produto consume de água?

John Anthony Allan – Os alimentos e outras commodities necessitam de água para serem produzidos. As commodities alimentí­cias possuem um teor de água particularmente grande. Por exemplo, as seguintes quantidades de água são necessárias para produzir 1 quilo de:

Trigo:1.300 litros
Milho:900
Arroz:3.400
Carne de frango: 3.900
Carne de porco: 4.800
Carne de ovelha: 6.100
Carne de gado: 15.500
Algodão: 11.000

 

Ou a seguinte quantidade de litros de água é necessária para produzir 1 unidade dos seguintes produtos:

Um litro de leite: 1.000 litros
Uma xí­cara de chá: 30
Uma xí­cara de café: 140
Uma folha de papel: 10
Uma fatia de pão: 40
Uma maçã: 70
Uma camiseta: 2.700

A água embutida nisso é chamada de água virtual.

Quando uma commodity é exportada de um paí­s para outro, o paí­s importador se torna seguro em termos de água e alimentos contanto que tenha uma economia que seja diversificada, e as pessoas tenham meios de vida que lhes possibilitem comprar alimentos importados. Das 210 economias existentes no mundo, ao menos 160 são economias importadoras de água virtual. Há apenas cerca de 10 economias que têm um excedente de água significativo que pode ser exportado em forma virtual. Esses paí­ses incluem os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, Argentina e França. O Brasil é, em potencial, o maior exportador de água virtual do mundo.

 

IHU On-Line – Quais as maiores consequências ambientais para um paí­s como o Brasil, a partir desta consideração de ser o maior exportador de água virtual do mundo?

John Anthony Allan – A forma como usamos a terra e os recursos hí­dricos no passado negligenciava os impactos ambientais impostos pela agricultura intensiva. Esses custos não se refletem nos preços das commodities alimentí­cias vendidas e compradas internacionalmente, e nem mesmo nos preços dos alimentos no mercado interno. O Brasil não deveria correr para satisfazer a demanda global por sua água, colocando commodities no mercado mundial a preços que impossibilitem que o ambiente das terras e dos recursos hí­dricos do Brasil seja usado de modo sustentável.

IHU On-Line – Como podemos fazer para que essa água virtual seja contabilizada e informada para os consumidores? O senhor acredita que isso ajudaria na questão da economia da água?

John Anthony Allan – Será muito difí­cil fazer com que o valor da água usada na produção de alimentos de origem vegetal e de carne se reflita no preço dos alimentos. Nem os agricultores que produzem as commodities, nem os comerciantes que as tornam disponí­veis nas economias importadoras de alimentos, nem seus clientes e consumidores estão conscientes do teor de água embutida nelas e de seu valor. í‰ improvável que a regulamentação cause algum impacto porque os números sobre o teor de água são muito imprecisos e podem ser facilmente questionados. Educar os consumidores é uma forma mais provável de mudar seu comportamento e sua forma de consumo. Os desafios polí­ticos são imensos, especialmente numa economia de mercado.

IHU On-Line – Qual a importância de se divulgar a pegada da água e que tipo de açíµes deve ser pensado como resposta aos resultados apresentados por essa água virtual?

John Anthony Allan – O conceito de pegada de água é uma forma muito eficaz de contribuir para conscientizar os agricultores, negociantes, supermercados e consumidores a respeito do teor de água das commodities que eles produzem, vendem ou compram e consomem. A comparação da pegada de água de uma dieta pesada í  base de carne de gado que consome 5 m3 de água por dia com a de um vegetariano que consome 2,5 m3 de água por dia apresenta um resultado crasso. Tem-se mostrado que uma dieta pesada í  base de carne de gado e outros produtos de origem animal é muito ruim para a saúde de um indiví­duo. Ela também é muito ruim para o meio ambiente aquático.

IHU On-Line – De que forma o tratamento de esgotos contribui para a economia da água? Quanto se gasta de água para fazer um saneamento básico de qualidade?

John Anthony Allan – A maior parte da água é usada para produzir alimentos. Mais de 80% da água que um indiví­duo ou uma economia necessita são usados na produção de alimentos. 70% dessa água é água verde “ ou seja, água proveniente de chuva que é retida no solo. A maior parte da produção agrí­cola do Brasil vem dessa água que está no solo. Os outros 30% são constituí­dos de água azul ou água doce. A água doce vem dos rios e do lençol freático. A água que usamos em casa e para trabalhos que não a agricultura corresponde a entre 10 e 20% da água de que um indiví­duo ou uma economia necessita. A proporção depende de quão industrializada é a economia e de quão elevado é o padrão de vida. Os efluentes lí­quidos e o esgoto são gerados pelo uso doméstico e industrial de água. Mediante um investimento considerável, os efluentes podem ser reutilizados. Mas é preciso lembrar que esses efluentes são sempre uma pequena proporção do total de água de que a sociedade necessita. í‰ cada vez mais possí­vel e apropriado que as economias avançadas invistam na reutilização de efluentes. Mas a decisão polí­tica de alocar verbas para investir no tratamento de efluentes urbanos tem de ser ponderada levando em conta o valor do investimento em outros setores, como educação, saúde, comunicaçíµes, energia etc. As grandes economias de água podem ser feitas no setor agrí­cola, onde os volumes de água usados são vastos. Os agricultores tomam conta de toda a água verde. Ao lado com os engenheiros, eles tomam conta de toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm a chave para a segurança da água “ especialmente no Brasil.

 

(Envolverde/IHU-OnLine)  


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