O Casulo da Tristeza: algo com o qual temos que conviver

26 de outubro de 2014

 

 

Por Paula Borowski

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Tristeza é um sentimento humano que tem fim, sim, mas é inevitável e, uma vez que ela chega, deve ser tratada como um hóspede, com atenção e importância. Não adianta fingir que ela não está no meio da sala com suas malas ao lado, pronta para passar uma temporada. Melhor   acomodá-la, acolhê-la e escutá-la para ver o que ela tem para contar. Elas podem surgir bem cedo na vida. Muitas vezes nos fechamos num casulo de proteção, para nos recolhermos e olhar o mundo de fora. Entramos numa espécie de abrigo em diferentes fases da vida, passa a ser o habitat das nossas transformaçíµes.

Pensando assim, a tristeza parece bem menos assustadora. Quando perdemos um ser querido, certamente é hora de voltar para dentro. Sentimos como se ela nos engolisse. O mesmo ocorre em outras perdas, de um emprego, de uma relação amorosa. São longos perí­odos de dor. O trabalho do luto, ou seja, da tristeza, consiste em acreditar aos poucos e a contragosto, no insuportável e incompreensí­vel. A tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim, como diz Caetano. A depressão é diversa do casulo   da tristeza, de onde saí­mos superados diferentes. Ela se parece mais como uma toca, da qual não se quer sair e sequer se sabe como foi que se acabou lá. Ao tentar-se regulamentar, normatizar e medicar a tristeza, ficaremos privados do seu poder transformador, de crescimento psí­quico, pois é justamente quando estamos tristes que refletimos, pensamos, ponderamos, analisamos mais os aspectos da vida. Neste sentido parece que a música compreende e traduz   melhor a lí­ngua do que a medicalização da psiquiatria, que algumas vezes tenta engessar o psiquismo e anestesiar sua dor para que o indiví­duo não venha a sofrer e nem mesmo vivenciar sentimentos humanos.

Cabe ressaltar que tristeza não se trata de patologia nem deve ser medicada, mas sim sentida e pensada, para que possa ser elaborada. Muitas vezes escuto relato de alguns de meus pacientes que passaram a usar medicamento em situaçíµes contra indicadas, fruto de uma avaliação psiquiátrica pouco criteriosa e equivocada; e deste modo disseram não conseguir se emocionar com a vida, com situaçíµes aonde desejavam alegrar-se, vibrar, comemorar, por exemplo. A capacidade de desfrutar, de sentir as emoçíµes  estava inibida, bloqueada pelo uso abusivo e inadequado da medicação. Por fim, a tristeza faz parte de nossas vidas, ajuda-nos a crescer   a nos  transformar e muitas vezes, nos torna mais fortes para superar os dissabores da vida.


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