Paralimpí­adas e a inclusão de pessoas com deficiência: muito discurso, pouca prática

19 de setembro de 2016



O atleta brasileiro com mais medalhas conquistadas é Daniel Dias, da natação, que nasceu com má formação congênita dos membros superiores.  

 

 
Os Jogos Paralí­mpicos do Rio de Janeiro é o exemplo puro disso. Poucos patrocinadores, promoção de ingressos e cobertura reduzida dos meios de comunicação.    

 

Por Maiara Raupp
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Todo mundo sabe que os Jogos Olí­mpicos de 2016 estavam sendo realizados no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Era só ligar a TV e alguma modalidade esportiva estava sendo transmitida, principalmente se incluí­sse a participação de algum atleta ou equipe brasileira. O que nem todos estão ligados é que, algum tempo depois do encerramento das Olimpí­adas, o Brasil e o Rio de Janeiro também foram sede das Paralimpí­adas, que reúne atletas com diversas deficiências competindo entre modalidades distintas. Diferente das competiçíµes dos Jogos Olí­mpicos, as dos Jogos Paralí­mpicos, no entanto, não receberam a mesma atenção das emissoras de TV – principalmente dos canais de TV aberta.
A cerimí´nia de abertura das Paralimpí­adas, por exemplo, realizada no dia 7 de setembro, no estádio do Maracanã, não foi transmitida pela TV aberta, o que impediu que milhares de pessoas prestigiassem tamanho espetáculo. O mesmo ocorreu com a cerimí´nia de encerramento, realizada neste domingo (18). Bem diferente da abertura (e fechamento) da Olimpí­ada, na qual as TVs alteraram suas programaçíµes para se adaptar aos horários dos eventos das Olimpí­adas.
Tanto para os Jogos Olí­mpicos como Paralí­mpicos, o direito de transmissão de cobertura dos eventos esportivos foi adquirido pela Globosat, do Grupo Globo, fizeram a transmissão por meio de quatro canais fechados no SporTV, incluindo um temporário e exclusivo para o evento. No caso da TV aberta, entretanto, a competição não tem o mesmo espaço, seja pela falta de tradição, interesse de contratos de patrocí­nio em anunciar durante as transmissíµes do evento ou necessidade de agenda de programação.
A abertura das  Paralimpí­adas recebeu inúmeros elogios nas redes sociais. No entanto, o que tomou conta foram í s crí­ticas pela falta de transmissão. Fiquei olhando na TVE que transmitia ao vivo da TV Brasil, ambas públicas. As outras emissoras, uma vergonha. Se não tem forma de lucrarem não transmitem.  O mais triste é que o povo se informa com estas mí­dias interesseiras, reclamou a confeiteira Mariel Proz. Maior evento paralí­mpico da história e passam novela, futebol, ratinho, etc… Viva a tv aberta brasileira!, desabafou o atleta Gelsom Sbardelotto. Não é comercialmente atrativo. O SporTV, que tinha 16 canais mas Olimpí­adas, agora está com apenas 4 canais, e passou a abertura da Paraolimpí­ada no SporTV 2, canal menos nobre. Uma lástima mesmo, disse o jornalista Filipe Scotti.
Sempre haverá diferença no mundo, garantiu o estudante e deficiente fí­sico Cosme Klein, que sente na pele a indiferença todos os dias.   Fiquei muito triste com essa indiferença. E a mí­dia que fala tanto cadê ela? Triste esse nosso paí­s, Que péssimo exemplo, falou a historiadora Terezinha Borba.
Além da abertura, a cobertura de maneira geral se resumiu a boletins nos noticiários. Os atletas paralí­mpicos consquistaram medalhas atrás de medalhas e garanto que muitas pessoas não conseguiram assistir a nenhuma dessas competiçíµes. Se ficaram sabendo foi apenas pelo rápido noticiário.
Provavelmente você já reparou na diferença de cobertura das Olimpí­adas e das Paralimpí­adas por parte da mí­dia, não? E isso vem como consequência da falta de patrocinadores e de público. Daí­ fica a pergunta: Jogos Paralí­mpicos – inclusão ou exclusão?
 

Acessibilidade é um dos principais desafios dos deficientes

A indiferença é sentida em vários âmbitos pelos deficientes e a falta de acessibilidade é uma delas.   Mesmo que os direitos das  pessoas com deficiência  estejam chegando há alguns lugares e sendo integrados ao discurso do Estado, í s mudanças concretas de efetivação de cidadania ainda ocorrem de maneira lenta. De acordo com a superintendente do  Instituto Brasileiro dos Direitos de Pessoas com Deficiência (IBDD), Teresa d™Amaral, a legislação brasileira sobre o tema é excelente, mas não houve, nos últimos anos, efetivação dos direitos dessa parcela da população. Isso significa, entre outras coisas, falta de  acessibilidade  nos transportes públicos, nos prédios públicos e privados de uso coletivo, em restaurantes, em universidades, em hotéis e em espaços públicos em geral.  

Teresa ressaltou ainda que a questão da acessibilidade é a que mais chama a atenção quando se fala em pessoas com deficiência, porque, na maioria dos casos, ocorre desrespeito a um dos direitos mais básicos, o de ir e vir. Esse direito praticamente não existe para pessoas com deficiência na maioria das cidades brasileiras, lamentou. Dados do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatí­stica (IBGE)  indicam que 45,6 milhíµes de pessoas têm algum tipo de deficiência, o que corresponde a 23,91% da população brasileira.

 

E o que diz a lei?

O decreto n º 5.296 de 2 de dezembro de 2004, que regulamenta a lei n º 10.098, especifica que toda a edificação pública ou privada, de acesso público ou coletivo, deve estar enquadrada í  NBR 9050, que é a norma que trata da acessibilidade nos espaços construí­dos no Brasil. Nesta categoria de edificaçíµes privadas de acesso público ou coletivo estão restaurantes, hotéis, lojas, dentre outros.

A NBR 9050, criada em 2004, traz uma série de normativas de como devem ser os espaços de forma que estes sejam acessí­veis como rampas, escadas, corredores, banheiros, pisos. No entanto, de acordo com o professor do curso Técnico em Edificaçíµes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Miguel de Moraes, de nada adianta ter lei se na prática não funciona. Como é mister em nosso paí­s, temos leis demais e aplicaçíµes de menos. O prazo médio de adequação das edificaçíµes seria de 30 a 48 meses, a contar da data da publicação do decreto n º 5.296 de 2 de dezembro de 2004. Ou seja, em 2 de dezembro de 2008 estarí­amos vivendo em um paí­s acessí­vel, nos parâmetros da NBR 9050, explicou Miguel.  

 

 


Em Torres não é diferente

Em Torres a inclusão das pessoas com deficiência também não está acontecendo na prática da forma com que deveria. Além de alguns estabelecimentos comerciais não terem acesso para cadeirantes, por exemplo, a partir dessa semana a Associação dos Deficientes de Torres, que existe desde 2000, não tem mais um local fí­sico para atender os deficientes.

A sede da Associação, que se localizava na Avenida do Riacho, 980 (atrás do CAPS), teve que ser desocupada essa semana. De acordo com uma voluntária, há um tempo elas chegaram para realizar as oficinas com os deficientes e a sala havia sido modificada estruturalmente, sem comunicação alguma, o que reduziu ainda mais o espaço. Agora foram convidadas a se retirar com todo o maquinário, sem terem um espaço adequado para ir para atender os alunos deficientes. Além do serviço que presto voluntariamente, estou oferecendo minha casa para a realização das oficinas. Queremos saber o que será feito, indagou í  voluntária.

Está aí­ mais um dos problemas que deverão ser olhado com cuidado pelos candidatos a prefeito do municí­pio.

 

 


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