Um profissional que consiga se adaptar ao interior, conviver com as eventuais desvantagens técnicas de cada lugar, aderir aos salários oferecidos e principalmente se manter nas cidades. í‰ isto que os técnicos do governo federal buscam ao tentar importar médicos de Cuba, de outros países da América do Sul e mais recentemente sinalizando, inclusive, com a contratação de médicos de países desenvolvidos da Europa.
Um lugar que o receba bem, pague conforme o mercado paga ao setor e í categoria, e que possua as mínimas condiçíµes de trabalho. Isto é o que deseja a maioria dos médicos ao pensarem (alguns optarem) por trabalhar em cidades do interior.
Atender de forma universalizada a saúde do povo brasileiro, em qualquer canto da nação. í‰ isto que indicam as diretrizes do SUS para as cidades.
Estrutura, salário e carreira, mas para médicos brasileiros
O Representante do SIMERGS (Sindicato dos Médicos do RS) em Torres, o médico Fábio Faria é também membro do Conselho Consultivo do sindicato na região. Ele atua em Torres há vários anos e sugere, afinal, o que o sindicato já sugeriu institucionalmente no ano passado: uma carreira pública de Estado para médicos se espalharem por todo o RS. Para Farias é necessário uma carreira ser desenhada por inteiro. Ele afirma que há de se ter estrutura operacional, apoio humano de auxiliares e enfermeiros condizente e salário. Ele defende, também, que esta carreira seja exercida por médicos experientes.
Para atuar no interior, praticamente sozinho, o profissional tem de ter bastante experiência em procedimentos básicos, mas que devem ser feito com prudência e perfeição. São suturas, partos, procedimentos gerais, que são as principais demandas dos PSs (Postos de Saúde) das cidades assim como nos ESFs (Estratégia de Saúde da Família), afirma o médico. Tem especialidades do tipo generalistas como estas que estão se extinguindo, justamente por não oferecer ambiente e salário compatíveis no sistema público. Pediatria e Clinica Geral são exemplos, salienta o médico torrense.
Farias concorda que em Torres a situação não é tão crítica, mas sofre, ainda, com as ofertas de mercado dos grandes centros. í‰ que um médico que trabalha full time (40 horas/semana) na cidade recebe menos de R$ 9 mil líquidos no teto salarial. Esta remuneração é conseguida muito facilmente em consultórios e quem trabalha 40 horas não consegue manter e trabalhar em consultório ao mesmo tempo, exemplifica Farias.
Para o médico Fábio e para o sindicato, a mudança deve existir, mas deve vir em um pacote que insira condiçíµes de trabalho, estrutura para exames, apoio especializado (auxiliares) e condiçíµes de encaminhamento para especialistas de forma azeitada, um dos problemas de afunilamento hoje em dia.
A carreira proposta pelo SIMERGS sugere que os médicos de Estado sejam contratados como as carreiras de juízes, por exemplo. Um treinamento especializado, concursos exigentes e salário final inicial de R$ 20 mil, com plano de carreira que possa aumentar os rendimentos em pelo menos 50% ao longo da carreira.
Para o sindicato, há um risco muito grande para a sociedade em contratar médicos de fora por conta da falta de garantias de conhecimentos dos mesmos. Dos cubanos que fizerem testes de proficiência, somente 5% passaram, encerra o médico Fábio Faria, falando pelo sindicato da categoria.
Sindicalista de Torres da área de saúde também discorda das contrataçíµes importadas
O presidente do SIMTO (Sindicato dos Servidores Públicos do Município de Torres), André Dambrós, é dentista e atua em várias frentes da saúde pública. Portanto, ele passa uma visão de servidor público de carreira e de especialista em saúde pública, principalmente nas questíµes que envolvem recursos humanos, sua atuação e militância como sindicalista.
Em minha opinião a contratação de médicos vindos de fora do Brasil não resolverá o problema da falta destes profissionais. O que falta na verdade são condiçíµes materiais de trabalho e até de segurança nestes locais, afirma convicto. Também não faltam profissionais aqui no Rio Grande do Sul, diz. Por exemplo, temos dois médicos para cada mil habitantes, enquanto o preconizado é um médico para cada mil habitantes, acrescenta Dambrós.
A responsabilidade da saúde que foi repassada para os municípios, não foi acompanhada proporcionalmente por financiamento vindo do Estado e da União, continua. Isto, combinado com a má gestão de recursos, é o que nos leva í situação atual, segue o sindicalista. A contratação temporária destes profissionais estrangeiros fere um dos princípios fundamentais da ESF (Estratégia de Saúde da Família), pela transitoriedade, que é o vínculo com a comunidade, encerra Dambrós.
Mas municípios aderem í campanha da FAMURS em defesa aos médicos estrangeiros
No outro lado da mesa de negociação estão os gestores públicos. E a campanha da Famurs pela atuação de médicos estrangeiros e formados no exterior tem a adesão de municípios do norte gaúcho, o que pode se expandir como uma postura institucional dos prefeitos de todo o Estado do RS. Na última segunda-feira (20/5), durante encontro de Interiorização da Federação, prefeitos daquela região confirmaram apoio ao movimento, ressaltando a necessidade de contratar esses profissionais da saúde. Vários gestores participaram do evento, realizado no campus da Universidade do Alto Uruguai, em Erechim.
Representando o presidente Ary Vanazzi, o vice-presidente da Famurs e ex-prefeito de Quinze de Novembro, Clair Kuhn, justificou e afirmou: Mesmo as prefeituras pagando altos salários aos médicos, não há candidatos para trabalhar no interior e nas periferias das grandes cidades.
Queda nas receitas
De acordo com o coordenador-geral da Famurs, Julio Dorneles, os municípios gaúchos estão sofrendo com a falta de dinheiro. Nos últimos meses, registra-se uma queda no repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), recurso transferido pela União í s prefeituras. Em relação a 2012, a parcela de FPM teve uma retração de aproximadamente 3%.


