TORRENSE EM CORRIDA DUPLA: Os desafios de ser um atleta profissional no atletismo

30 de julho de 2016


Ainda que a indústria do esporte movimente cerca de US$ 1 trilhão ao ano, atletas com grande potencial, como Moreno (foto) tem dificuldade de crescer e viver dele em algumas modalidades.


Por Maiara Raupp
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A indústria do esporte no mundo movimenta em torno de U$ 1 trilhão de dólares anuais. No Brasil, o segmento também movimenta uma quantia enorme de dinheiro, em média R$ 31 bilhíµes por ano. No entanto, atletas com alto rendimento não conseguem recursos para continuar a representar o paí­s em algumas modalidades.
De acordo com o técnico do maior centro de atletismo do Brasil, em São Paulo, Sérgio Luis Coutinho Nogueira, isso acontece porque, além dos altos investimentos serem feitos apenas no futebol, há um gasto excessivo na realização de eventos ao invés de focar no incentivo ao atleta. "O Brasil não acompanha o desenvolvimento do esporte que acontece no restante do mundo. As confederaçíµes, federaçíµes e comitês olí­mpicos não deveriam se dedicar í  prática de eventos, pois estes consomem uma parcela grande de recursos. Estamos no caminho errado. Muitos eventos e pouco investimento na formação dos atletas e dos técnicos. O atletismo tem muita verba: tem a Caixa Econí´mica, a Olimpykus, o Comitê Olí­mpico, mas isso não se traduz num programa efetivo de incentivo, afirmou Sérgio, acrescentando ainda que os eventos devem ser mais privatizados e patrocinados.

 

Mercado esportivo crescente


O faturamento anual do varejo no segmento esportivo gira em torno de R$ 5 bilhíµes no Brasil. Conforme relatou o presidente da subsidiária brasileira da fabricante de artigos esportivos  Nike, o argentino Cristian Corsi,, o Brasil tornou-se (pouco antes da Copa do Mundo 2014) no terceiro maior mercado para a empresa, ultrapassando o Japão e o Reino Unido. Com os Jogos Olí­mpicos esperamos um novo impulso. São poucos os lugares do mundo que se vê tanta gente praticando esporte quanto vemos no Brasil, garantiu Corsi. A empresa patrocina cerca de 300 atletas brasileiros com potencial para competir em Olimpí­adas, além das seleçíµes nacionais de futebol, basquete e atletismo.
Outra iniciativa que gera negócios em setores distintos – como artigos esportivos e cosméticos, passando por aplicativos para smartphones – é a Maratona do Rio. O evento chega a movimentar R$ 200 milhíµes na economia da cidade.

 

 

E a valorização dos atletas?


Um dos maiores nomes da história do atletismo, Usain Bolt, tem uma imagem que roda o mundo e lhe faz ser um ótimo garoto-propaganda. Dono de oito patrocinadores pessoais, o velocista garante vencimentos milionários por ano. Ainda bem, porque se dependesse só do salário…
De acordo com a revista  Forbes, Bolt é o 73 º atleta mais bem pago do mundo com US$ 21 milhíµes (quase R$ 75 milhíµes) anuais. O valor praticamente integral tem a ver com os patrocí­nios do corredor, pois seu salário por temporada é de US$ 15 mil (R$ 53,5 mil), ou somente US$ 1,25 mil (R$ 4,46 mil) por mês.
Os US$ 21 milhíµes em direitos de imagem colocariam Usain Bolt – seis vezes ouro olí­mpico e dez vezes campeão mundial nos 100m, 200m e 4x100m – quase no mesmo patamar de Lionel Messi, (que recebe US$ 1 milhão a mais do que ele). A diferença está no salário: o atacante argentino, melhor jogador do mundo por quatro vezes, ganha US$ 51,8 milhíµes (R$ 185 milhíµes) anualmente do Barcelona, o que o coloca na quarta colocação do ranking da  Forbes.
O jamaicano poderia aumentar seus ganhos caso disputasse mais etapas da Liga Diamante (Diamond League), o maior circuito de atletismo do planeta na atualidade. O vencedor de uma das 14 provas leva US$ 10 mil (R$ 35,7 mil), enquanto o campeão geral recebe ao final da temporada um adicional de US$ 40 mil (R$ 142,8 mil).

 

 

Até chegar í  Liga Diamante…


Tirando a Liga Diamante, poucas são as provas que apresentam premiaçíµes satisfatórias aos atletas do atletismo. O Troféu Brasil de atletismo, por exemplo, grande competição do paí­s, distribui pouco mais de R$ 500 reais ao 1 ° colocado, R$ 400 reais ao 2 ° e R$ 200 reais ao 3 ° lugar.
 Os incentivos financeiros e estruturais para quem está na base também são escassos. Uma das principais iniciativas do Plano Brasil Medalhas foi implantar a Bolsa Atleta Pódio, instituí­da em 2011. A Bolsa Pódio é uma nova categoria do programa Bolsa Atleta, com a finalidade de apoiar atletas com chances de disputar finais e medalhas olí­mpicas e paralí­mpicas. As bolsas variam entre R$ 5 mil e R$ 15 mil.
Para ser contemplado, o atleta deve atender critérios definidos na lei, como estar situado entre os 20 melhores do ranking mundial ou entre os melhores na prova especí­fica da modalidade “ o que não é muito simples. Após cumprir os critérios e ter sido indicado por sua confederação esportiva, em conjunto com o Comitê Olí­mpico do Brasil (COB), ou pelo Comitê Paralí­mpico Brasileiro (CPB), o atleta precisa enviar um plano esportivo para análise dos membros do COB (ou CPB), da confederação e do Ministério do Esporte. Uma vez que o atleta é aprovado, passa a ter direito ao benefí­cio por 12 meses e, só ao fim desse prazo, é feita a reavaliação de sua permanência. São patrocinados 242 atletas, de acordo com dados de outubro de 2015.

 

 

Torrense está entre os 10 melhores do Brasil e sem patrocí­nio


O atleta torrense, Winderson Malinski, está entre os 10 melhores do paí­s na prova dos 10 mil metros rasos, um feito incrí­vel para um jovem de 17 anos que treina no meio da rua, sem estrutura e com poucos apoios.
  O atleta, que participa a dois anos do projeto social Brincar de Correr (Ascort), falou como se sente. Tenho potencial para ir mais longe. Fico feliz com o resultado porque ainda tenho pouco tempo de treino e nada de ajuda financeira e já estou entre os melhores. Isso mostra que estou em boas mãos. Que o meu treinador é um grande profissional e que juntos podemos ir além, afirmou Moreno, dedicando o resultado ao seu treinador e idealizador do projeto, professor Cláudio Freitas.
Esse resultado me motiva a seguir treinando e focado, que logo chegarei ao topo. Sei que hoje já estou mais perto do meu sonho do que ontem. í‰ só ter paciência, dar tempo ao tempo e confiar no meu trabalho, juntamente com meu treinador, que logo chegará a minha hora. Até o final do ano espero ficar entre os três melhores do paí­s no ranking para conseguir receber a bolsa atleta. Esse é o nosso principal objetivo no momento, concluiu ele, que hoje conta apenas com o apoio dos profissionais que prestam serviço voluntariamente ao projeto, como quiropraxia, fisioterapia, educador fí­sico, além de doaçíµes de alguns materiais esportivos.    
Precisamos de mais auxí­lio do municí­pio. Talvez uma bolsa atleta municipal, já que Moreno leva o nome de Torres para o Brasil afora. Qualquer recurso financeiro será bem-vindo para ele continuar competindo e alcançando bons resultados, falou Cláudio, acrescentando ainda que agora é a hora dele decidir se quer seguir profissionalmente como atleta ou não, mas sem recursos financeiros fica difí­cil, ao mesmo tempo que fazer um menino com tanto potencial desistir de seu sonho é um pecado, desabafou o professor.

 

 

Investimentos futuros

A crise financeira e os cortes no orçamento da União não atingiram o Ministério do Esporte, que vai repassar R$ 26 milhíµes í  CBAT (Confederação Brasileira de Atletismo) nos próximos 24 meses. Este valor representa mais da metade do orçamento anual da entidade (cerca de R$ 40 milhíµes) e será destinado para a implantação da ˜Rede Nacional de Atletismo™. Parece muito dinheiro, mas não é. Porque é um projeto para atender a todas as regiíµes do Brasil, explicou o superintendente de Alto Rendimento da CBAT, Antí´nio Carlos Gomes.
De acordo com o Ministério do Esporte, esse montante deve ser utilizado para implantação e manutenção de 12 centros de treinamentos. Estima-se que 500 atletas, preferencialmente da base, sejam atendidos. Ou seja, não é voltado para os desportistas que devem representar o Brasil nos Jogos do Rio-2016, e sim para Tóquio-2020 em diante. Vamos ficar de olho!

 

 

 

 


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