Torres: preservar épreciso (e urgente)

5 de agosto de 2015

Na foto, um retrato do Morro do Farol a partir do Parque da Guarita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

Por Leonardo Gedeon

Historiador, pesquisador e delegado do Defender RS

 

 

Recentemente, tive contato com uma publicação intitulada Paisagens do Sul com uma compilação de pareceres técnicos do arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim, especializado em paisagens culturais e jardins históricos. Esta obra foi uma iniciativa do Instituto do Patrimí´nio Histórico e Artí­stico do Estado (IPHAE) e Instituto do Patrimí´nio Histórico e Artí­stico Nacional (IPHAN) em que versa sobre os bens patrimoniais do Rio Grande do Sul. Entre os dezesseis pareceres apresentados, tratando sobre as edificaçíµes históricas, paisagens sulinas, a cultura imaterial, os sí­tios das missíµes jesuí­ticas, entre outros, ressalta aos meus olhos o parecer sobre o Tombamento de Torres/RS, sob o tí­tulo O SíTIO NATURAL DE TORRES.

 

Na introdução do seu texto, o autor traz uma importante informação: Em 19 de maio de 1945, o Prefeito do Municí­pio de Torres dirigiu-se ao sr. Diretor do Serviço do Patrimí´nio Histórico e Artí­stico Nacional, dr. Rodrigo Mello Franco de Andrade, solicitando proteção legal aos monumentos naturais de Torres. O processo permaneceu anos sem qualquer avanço. Somente na década de 1990 foi-me solicitada visita ao sí­tio para emissão de parecer sobre o tombamento. Em meados da década de 1940, Torres encontrava-se em estágio transitório de desenvolvimento urbano, mantendo aspectos tradicionais da sua cultura saboreando as vivências e saberes do pequeno povoado e sofrendo os impactos socioeconí´micos da introdução do turismo balnear que começava a se configurar nos traços e contornos da cidade. Uma das principais caracterí­sticas desse perí­odo é a expansão da rede hoteleira e a construção dos primeiros prédios. Na segunda quinzena de abril de 1949, o jornal O Torrense anuncia orgulhosamente em manchete de capa Torres constróe o terceiro dos maiores edifí­cios da América do Sul, parabenizando a suntuosa iniciativa da SAPT (Sociedade dos Amigos da Praia de Torres) que pretendia terminar a obra no final do mesmo ano. Atualmente, sofremos com ameaças irreversí­veis í  paisagem cultural quando as torres de concreto avançam aos céus como a bí­blica Torre de Babel, suprimindo a grandeza e realeza das verdadeiras Torres Naturais, as históricas falésias conhecidas como o Morro do Farol, o Morro das Furnas, a Guarita e a Torre Sul. Pode-se comprovar com o exercí­cio do olhar observando o Farol de Torres a partir do cume do Morro das Furnas. í‰ entristecedor constatar os espigíµes acima do Morro do Farol escondendo a edificação do terceiro farol construí­do em 1952. Um panorama poluí­do por falta de bom senso e excesso de ganância no í­mpeto egoí­sta de privatização da paisagem urbana e natural, que na verdade é um bem de todos, um direito da população. Poderí­amos ter uma outra Torres, se o pedido de tombamento do sí­tio das Torres fosse atendido em 1945. Uma cidade que prioriza a harmonia entre seus aspectos originais e sua expansão privilegiando seus monumentos naturais, a cultura popular e o patrimí´nio histórico.

 

Na incessante luta para a efetiva preservação do Patrimí´nio Cultural brasileiro, a DEFENDER (Defesa Civil do Patrimí´nio Histórico) enviou um ofí­cio em novembro de 2014 ao Executivo e ao Ministério Público solicitando a elaboração da Lei Municipal de Proteção aos Bens Culturais colocando-se parceira no processo. Após, sete meses de protocolo do oficio, o MP responde via email avisando sobre o arquivamento da solicitação advertindo que pela omissão do Executivo entendeu-se que já existe tutela sobre o patrimí´nio histórico local. Creio que se tivesse a efetiva tutela e proteção as edificaçíµes históricas não estariam sendo paulatinamente destruí­das sob a batuta dos órgãos fiscalizadores e dos poderes públicos competentes. A repercussão desse caso pode ser acompanhada no site www.defender.org.br com o tí­tulo MANIFESTO CIDADíƒO publicado em 26 de maio do corrente ano. O parecer técnico do arquiteto Carlos Delphim deve ser levado com seriedade num perí­odo de Revisão do Plano Diretor e delimitação do Centro Histórico com a implementação do inventário e registro e elaboração do Plano Municipal de Cultura. Para o autor no conceito de paisagem, interferem processos imateriais de valorização, atitudes, experiências e expectativas dos seus fruidores, sutilezas que escapam a outros setores que não o da Cultura. A preservação das falésias e seu entorno é justificado quando afirma que Torres são um monumento natural reconhecido por gaúchos, brasileiros e sul-americanos que visitam as praias. […] As torres são a primeira manifestação da excepcional beleza do relevo de nosso litoral. […] O portão sul desse frêmito telúrico está em Torres. Anuncia a grandeza que, a partir daí­, irá convulsionar a feição morfológica da costa brasileira.

 

Pensar a cidade pela perspectiva do Patrimí´nio Cultural fornece os elementos necessários para a valorização da cultura e identidade local nos seus mais diversos aspectos e interfaces, sendo uma delas o fomento do Turismo Cultural. A comunidade costeira que se desenvolve envolta pelas belezas naturais em meio í s torres são os guardiíµes das imponentes falésias. Essa população de torrenses nasceu e cresceu no colo dessa exuberante e milenar paisagem percorrendo o tempo pelo fio condutor da História. Por ter ciência dessa responsabilidade podemos reiterar o parecer de Carlos Delphim: Todos estes pontos de vista justificam meu parecer FAVORíVEL ao tombamento de Torres e sua inscrição no Livro do Tombo Arqueológico, Paisagí­stico e Etnográfico do IPHAN.

 


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