Uma breve perspectiva sobre a relação da sociedade de Três Cachoeiras com a leitura
Três Cachoeiras é uma das cidades mais promissoras do Litoral Norte: principal produtora de banana no RS, capital dos caminhoneiros, futuro polo industrial (com a chegada da Vidroforte). Um município que vêm crescendo economicamente de forma exponencial, mas cujo crescimento cultural parece ter ficado estagnado. E uma das provas mais cabais deste aparente atraso exemplifica-se na relação da sociedade com os livros. Ou melhor, na aceitação passiva da falta deles.
O cidadão de Três Cachoeiras pode perceber que o município conta com duas livrarias. Porém, ao entrar nestes estabelecimentos, o cidadão também vai perceber que não há qualquer livro a venda. Nem sequer uma estante com livros básicos da literatura, ou aquelas leituras obrigatórias para o vestibular. Se você, que vive de Três Cachoeiras, entrar numa destas livrarias e quiser comprar um livro de presente para alguém, o pessoal da loja terá duas soluçíµes: a) você pode comprar seu livro na internet. b) Você pode ir até Torres e comprar seu livro em alguma das livrarias da cidade. Mas supondo que se você não tem um carro, ou que você não tenha acesso a internet…. como fazer então para comprar um livro?
A posição das livrarias
Segundo Daiane Silveira, da Livraria Ponto Certo, faz tempo que o estabelecimento não vende mais livros. "A venda de livros tem uma margem de lucro pequena, e a internet substituiu este comércio aqui em Três Cachoeiras. Aliás, a internet modificou muito a relação das pessoas com o livro, as pessoas se acostumaram demais a ler no computador".
Já o pessoal que trabalha na Livraria Central afirma que a população não tem o costume de comprar livros na cidade, e que quando havia a venda dos mesmos no local os clientes não davam bola. "Concordo que a falta de livros é uma vergonha para a cidade, mas isso mostra também uma desvalorização da população com o comércio local, já que os cidadãos preferiam ir para Torres comprar os livros. Por isso desistimos da venda, agora só vendemos livretos infantis. Mas, estamos expandindo a loja e, no futuro, queremos vender alguns livros também", indica a vendedora Juliana.
Tudo bem, as livrarias são isentas de culpa: como estabelecimentos comerciais, elas não são obrigadas a vender os livros se a margem de lucro é aparentemente baixa, ou se a demanda por eles é pequena. Mas, convenhamos que, pelo menos por uma questão de coerência da palavra, uma livraria deve vender livros. Não é?
E a biblioteca pública?
Mas as livrarias não são, nem devem ser, o único local de acesso da população aos livros. Há um serviço público que disponibiliza a população acesso aos livros de forma gratuita, onde o cidadão: a biblioteca pública. E Três Cachoeiras possui uma biblioteca pública, é verdade. Porém, já faz alguns meses que o local encontra-se fechada.
"O fato é que o conselho regional de biblioteconomia exige que haja um profissional especializado e graduado para a função, por isso a biblioteca está fechada. A prefeitura foi notificada e a secretária de educação já está inteirada da situação, porém ainda não há previsão para a reabertura da biblioteca".
Eis uma questão que a Administração Municipal deveria analisar com carinho. Em tempos da disseminação descontrolada e sem fronteiras da internet, pode parecer romantismo para alguns batalhar pelo funcionamento de uma biblioteca, com seus livros de paginas mortas e milhares de cansativas palavras. Mas, citando Fernando Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena".
Os cidadãos opinam
O jornal a FOLHA conversou com duas cidadãs de Três Cachoeiras, mãe e filha, que preferiram não se identificar. Elas não disseram seus nomes por confessar que tem vergonha de admitir que não leem livros. A mãe, que deve ter seus 50 e tantos anos, não se lembra a última vez que leu um livro, mas pensa que fazem algumas décadas. A filha diz que, apesar de não ler muito, tem uma intimidade um pouco maior com os livros, uma vez que seu filho está na escola e é estimulado a leitura. "No final das contas, precisamos de uma criança em nossas para voltar a ter contato com livros e a leitura. Mas é uma vergonha para a cidade que não há lugar para comprar um livro, e que a biblioteca esteja fechada".
Já para Marlene Cardoso e Mauro Leffa, proprietários da Atual Arte Armarinhos e Bazar – e que são leitores tanto de jornais como de livros – o hábito da leitura ainda está começando a se disseminar com mais força em Três Cachoeiras. "Se a internet por um lado é vilã por ter deixado as pessoas dispersas e tirado o foco dos livros, por outro ela também está aumentando muito as possibilidades as alternativas de leitura. í‰ realmente uma questão controversa saber o quanto a internet ajuda ou prejudica a capacidade de aprendizado, tento que isto vêm sendo tema de estudo de vários especialistas na área. Mas voltando a questão do livro, a sociedade local deveria dar mais apoio para iniciativas como a Feira do Livro, e os pais tem o papel de incentivar uma cultura dos livros para seus filhos. E o contrário também vale: nesses tempos modernos, os filhos já estão levando o hábito da leitura para os pais".


