UM PRí‰DIO ABANDONADO NO MORRO DO FAROL (Parte 1)

7 de março de 2016

 

Pichaçíµes e graffitis se encontram por todos os lados da estrutura em ruí­nas

 

Por Guile Rocha

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Era uma tarde quente na quarta-feira passada (24) quando convidei minha namorada Carolina para subir o Morro do Farol. Fomos dar uma checada ‘in loco’ na estrutura do prédio onde  funcionou, até 2011, a Escola Cenecista Professor Durban Ferraz Ferreira. O local, voltando um   pouco mais no passado, ainda acomodou a casa noturna Gimi’s Drink Bar. E já na subida do morro ví­amos o prédio marcado pelas pichaçíµes e grafitis – que a meu ver caem até bem com prédios abandonados…. são como um sinal de que aquele espaço não tem dono (ou tem um dono que está negligente).

O prédio hoje abandonado remete ao perí­odo do Estado Novo de Getúlio Vargas, sendo que seu primeiro uso se deu nos anos de 1937-38 – servindo como colí´nia de férias para um grupo escolar. Em 1979 o prédio onde ficava as instalaçíµes da antiga Escola Cenecista Durbam Ferrar Ferreira foi cedido pela Prefeitura de Torres ao CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade). De acordo com a lei de cedência, caso houvesse   a extinção da escola, ou se a   mesma deixasse de   existir por perí­odo superior a um ano, a diretoria seria   responsável em devolver o imóvel ao Municí­pio.

Em fevereiro de 2011 a escola Cenecista foi desativada. Porém, a diretoria não cumpriu o que estipulava a Lei, forçando assim a Administração Municipal a entrar com uma ação contra o   CNEC. Assim, em novembro de 2012 a prefeitura de Torres realizou a reitegração do prédio ao patrimí´nio municipal. Desde então, o poder público de Torres batalhou pela instalação de uma escola técnica federal no local. Mas apesar dos esforços a instituição de ensino nunca veio para o prédio, que segue há mais de 5 anos abandonado pelos responsáveis.

 

Abandonado (mas ainda utilizado)

 

O prédio está cercado, por uma grade, mas logo se vê uma confortável brecha na cerca que nos conduz facilmente ao pátio. Caminhando até a entrada percebe-se   que o espaço onde antes havia a porta principal está cimentado, bem como estão lacradas a maioria das janelas. Na lateral direita, sujeira e mofo concentram-se, em meio a um bicicletário enferrujado e uma cadeira quebrada – mas nenhuma entrada plausí­vel para a antiga escola.  Enquanto í­amos caminhando até a outra lateral,   onde esperávamos encontrar uma entrada para o prédio abandonado, nos deparamos com dois jovens torrenses que estavam por lá – os dois numa   ‘amizade colorida’,  ao que parecia. Depois de um leve constrangimento, pedi para bater um papo com eles sobre o prédio. E o guri – que foi o interlocutor – me disse que eles e outros jovens continuam se reunindo na antiga escola abandonada. Isso porque, apesar das portas e a maioria das janelas estarem lacradas, uma janela lateral permite a entrada dos que decidirem se aventurar.   E os jovens se aventuram sem problemas, ficam no local fazendo o que os jovens fazem,   aproveitando a estrutura solitária para conversar, namorar, fumar um baseado, coisas do tipo… isso tudo mesmo com o prédio interditado e, de certa forma, em ruí­nas. "Quem quer entrar, entra, os estudantes e jovens de Torres vem bem frequentemente. Acho que não deviam lacrar o local, mesmo que esteja meio abandonado tinham que liberar pro pessoal entrar. Tem uma certa beleza na decadência", sentenciou.

 O possí­vel casalzinho preferiu não se identificar, mas o guri depois me disse que foi aluno do Marcí­lio e do Quartiero, mas teve que parar de estudar para trabalhar. Já ela estava fazendo o Ensino Fundamental no Tietboehl.   Eles falaram que o pessoal jovem que usa o local até faz uma pequena limpeza no prédio da antiga escola – mas que,  no geral, a estrutura está muito ruim   "De noite preferimos não vir, mas não é por medo, é porque não tem iluminação mesmo. O andar de cima está (com o assoalho) meio podre, e o banheiro em estado crí­tico. Mas acho que poderiam arrumar e estar usando de outra forma, já que está parado", disse ele.

 

Parte lateral externa do prédio abandonado

 

 

Adentrando no prédio

 

Nos despedimos do jovem casal com quem conversávamos e decidimos fazer uma ronda dentro do prédio abandonado no Morro do Farol. O acesso foi fácil – subi numa escrivaninha velha, estrategicamente colocada para o vivente alcançar o parapeito da janela aberta – entrei sem problemas. Mas minha namorada preferiu não entrar, então fui sozinho adentrando na antiga escola.

No primeiro andar, na parte mais bem iluminada pelo sol, vi muitas pichaçíµes – riscos, mensagens e desenhos em spray espalhadas por todos os cantos, inclusive em alguns quadros-negros remanescentes da época do colégio. "Somos todos Macacos", dizia uma destas mensagens. Além disso, entulhos aqui e ali pelas salas, trapos de roupas, lixo e camisinhas usadas, janelas quebradas. O saguão principal do prédio mantêm-se muito escuro – mas com a luz do flash da máquina percebe-se que, mesmo abandonado, o saguão ainda mantém um bom aspecto, apesar de algumas infiltraçíµes no teto e algumas madeiras podres e janelas quebradas.

 

Alguns grafittis elaborados no prédio que continua em uso, apesar de abandonado

 

Sigo meu caminho escada acima e chego ao segundo andar. Lá o assoalho de madeira está apodrecendo, fazendo uns rangidos estranhos que são como um sinal de alerta de que o chão pode ceder (como já aconteceu em algumas partes).   Apesar disso, no dia ensolarado que estava, a iluminação era boa,  e havia até duas cadeiras colocadas lado a lado em frente a uma janela aberta – que possibilitam uma bela vista do mar para os que se sentassem nelas. Pelos cantos do segundo piso, a sujeira ficava mais evidente:. Pilhas de lixo aqui e ali , sendo os mais encontrados embalagens de plástico, garrafas pet e trapos de roupa. Uma cama – improvisada com o que deve ter sido o assento de um banco – da sinais de que pessoas realmente utilizam o local para dormir…. e camisinhas pelo chão são indí­cios de que o lugar é utilizado para outros fins além de dormir. No sacadão externo, além de limo e paredes descascadas, o belo panorama da Ilha dos Lobos. E dentro do prédio, entre janelas quebradas, buracos no assoalho podre, pichaçíµes e desenhos bem elaborados nas paredes, enxerguei certa beleza naquele cenário de decadência.

 

No segundo andar, assoalho de madeira está apodrecendo em alguns pontos

 

 

 

 

FUTUROS USOS PARA O PRí‰DIO?

 

Mas o abandono do prédio do Cenecista não se dá por falta de tentativas. A mais insistente destas foi pela instalação de uma Escola Técnica Federal no local – que chegou a ser anunciada em 2013 (e desmentida pouco depois). Mas como a Escola Técnica da IFRS nunca veio (e como estamos ano eleitoral), outras tratativas passam a acontecer em 2016.

Nesta quarta-feira (02/03), a Diretora da ULBRA Torres, Débora Borges Thomas, acompanhada dos coordenadores de cursos do campus, recebeu uma comitiva formada por membros da Reitoria da Universidade, da Diretoria da Associação Educacional Luterana do Brasil (AELBRA), e de uma comitiva de Reitores de Universidades Luteranas dos Estados Unidos, que vieram ao Brasil para conhecer o trabalho desenvolvido pela AELBRA, ULBRA e Rede de Escolas. Além de estreitar relaçíµes entre as instituiçíµes dos dois paí­ses, a visitação abriu as portas para futuras parcerias – que podem incluir o uso do abandonado prédio sobre o Morro do Farol. A prefeita de Torres, Ní­lvia Pinto Pereira, esteve reunida com a comitiva e destacou a importância das açíµes e dos projetos que a Universidade desenvolve para a população de Torres e da região. E, dada a relevância social dos serviços prestados pelos cursos de graduação í  comunidade, a prefeita reiterou a intenção de repassar para a ULBRA o prédio da antiga Escola Cenecista, que atualmente está abandonado, para que a Universidade a transforme em um Centro de Extensão Comunitário.

Já na sessão da Câmara dos Vereadores de Torres da última segunda-feira (29/02),   o vereador Alessandro Bauer (PMDB) informou que, em visita ao Secretário de Cultura do Estado, apresentou uma sugestão para a criação do museu da história de Torres no local do antigo prédio do Cenecista, no Morro do Farol. Na opinião do vereador, um patrimí´nio público da cidade não pode ficar abandonado. Nós observamos um prédio como aquele, em uma área supervalorizada, um mirante excepcional, sendo depredada e desvalorizada. Por isso estamos trabalhando junto í  secretaria estadual da cultura para que algo seja feito em prol de um patrimí´nio que é nosso. afirmou Alessandro.

 

 

 

 

 

 


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