Torres vive de gente circulando, de calendário e de expectativa. Por isso dói ver a Prefeitura tropeçar justamente onde não pode: informar com antecedência, de forma simples e em todos os canais que o povo usa. Em poucos dias, três exemplos repetiram o mesmo enredo: inauguração da Avenida Interpraias com o vice-governador Gabriel Souza, o Batuka Torres na Guarita e o campeonato gaúcho de balonismo. Eventos relevantes, com potencial de mobilizar bairro, comércio e turismo, mas que chegaram atrasados ao ouvido de quem mais importa: o morador. A frase que ouvi de uma moradora da Praia Paraíso resume o problema melhor do que qualquer relatório: “só soube porque fecharam a rua”.
Comunicação pública não é enfeite de gestão, é serviço essencial. Em cidade turística, vale como asfalto e iluminação: dá previsibilidade ao dia a dia, organiza a vida da cidade e conecta governo com gente real. Quando a Prefeitura só aparece na hora do corte de fita, comunica sem querer que a população é plateia convidada de última hora. Isso derruba participação, esvazia cerimônia, reduz o impacto econômico do evento e alimenta um sentimento silencioso de distanciamento entre gestão e bairro.
A cena da Interpraias é didática. Presenças políticas, fotos oficiais, microfone, palanque. Faltou a parte que legitima tudo isso: a rua informada, o morador sabendo o que vai acontecer, quando e por quê. A mesma falha se repetiu no Batuka Torres e no balonismo: divulgação tímida, centralizada e tardia, com o peso do engajamento recaindo sobre quem produz o evento ou sobre participantes mais ativos nas redes. Funciona um pouco, nunca o suficiente. O resultado é uma cidade que descobre a própria agenda por boato, por barulho ou por bloqueio de trânsito.
Há outro ponto que a gestão precisa encarar sem melindre: o prefeito low profile. Não se trata de transformar a figura pública em influencer, nem de confundir comunicação com autopromoção. Trata-se de cumprir o papel de porta-voz. A população procura dois lugares quando quer saber o que está acontecendo: as páginas oficiais da Prefeitura e o perfil do prefeito. Se um desses canais é silencioso, o recado que chega é de ausência. E ausência, em política, sempre é preenchida por quem fala mais alto.
O que precisa mudar não é complexo, é processo. A cidade precisa de uma rotina de “agenda viva” com antecedência real, linguagem simples e capilaridade. Isso significa publicar toda segunda-feira um panorama da semana, reforçar na véspera e no dia, e usar os canais que as pessoas realmente abrem: Instagram, Facebook, site, rádio local e, principalmente, WhatsApp em listas segmentadas por bairro e por interesse. Significa também levar a informação para fora da bolha digital, com cartazes em equipamentos públicos, avisos em escolas e unidades de saúde, e parceria com associações de moradores. E, no mínimo, um vídeo curto semanal do prefeito explicando o que foi feito e o que vem pela frente. Sem jargão, sem discurso, com começo, meio e fim em menos de um minuto. É isso que reconecta gestão com cotidiano.
Transparência não é publicar a foto do evento depois, é permitir que o cidadão escolha participar antes. Comunicação não é um post bonito na hora da fita, é a sequência que prepara, convida, acolhe e presta contas. Torres tem ativo de sobra para lotar agenda e aquecer a economia fora de temporada. O que falta hoje não é pauta, é previsibilidade. Quando o morador diz “nunca sabemos o que tem na cidade”, o diagnóstico está dado. Quem governa precisa responder com sistema, não com improviso.
*Matheus Lentz é analista político e especialista em marketing político. Atua na leitura de comunicação de governos, parlamentos e campanhas em nível municipal, estadual e nacional. Fundador da MT Assessoria.
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