Um homem de Torres (RS) resgatou a audição após mais de 20 anos de surdez total – graças a um inovador implante auditivo de tronco cerebral, realizado pela primeira vez no Estado do RS. O procedimento foi conduzido no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
A cirurgia foi realizada em duas etapas no ano passado (2024) – com um pequeno ajuste no início de 2025. O implante foi ativado há cerca de dois meses, e os resultados foram divulgados recentemente.
O beneficiado foi Flávio Fermiano Fidelis, hoje com 53 anos. Ele perdeu totalmente a audição ainda na fase adulta, por causa da neurofibromatose tipo 2, que causa tumores nos nervos auditivos, tornando inviável o uso de implante coclear convencional. Como única alternativa, foi indicado o implante direto nos núcleos auditivos do tronco encefálico.
“Esperei muito tempo por isso”, contou Fidelis, ressaltando que pequenos gestos — como ouvir a voz do filho — passaram a fazer parte de sua rotina novamente. Ainda em fase de ajustes e acompanhamento fonoaudiológico, ele afirma: “Daqui para frente é só alegria”.
Sobre o procedimento pioneiro
Sob coordenação do otorrinolaringologista e cirurgião da base do crânio do Hospital Moinhos de Vento, Joel Lavinsky, a cirurgia teve o objetivo de restaurar a audição em pessoas com surdez total, cujos nervos auditivos estão afetados, ou seja, não são viáveis para utilizar um implante coclear convencional ou qualquer outro tipo de tratamento para surdez.
Segundo Lavinsky, é uma cirurgia na base do crânio que consiste na colocação de eletrodos diretamente nos núcleos auditivos no tronco cerebral para permitir a percepção do som em algum grau. “A cirurgia ocorreu em um paciente com surdez profunda bilateral, por neurofibromatose do tipo 2. O implante auditivo de tronco cerebral está indicado nessa condição, pois é a única opção viável nos casos de surdez profunda em pacientes que por algum motivo não tem nervos auditivos funcionantes ou apresente alguma inviabilidade anatômica para se realizar um implante coclear convencional”, explica. “A complexa abordagem cirúrgica na base do crânio para posicionar o eletrodo ao nível do tronco cerebral foi realizada com sucesso e meses depois o dispositivo foi ligado”, completa.
A cirurgia foi realizada em colaboração multidisciplinar com a equipe composta pelo neurocirurgião Dr. Gustavo Rassier Isolan e por uma equipe de audiologistas coordenada pela Fga. Natalia Fernandez. Houve a importante supervisão da equipe de profissionais da USP, Dr. Ricardo Ferreira Bento e Dr. Marcelo Prudente, e da audiologista Valéria Goffi. Foram quase 10 horas de duração, sem intercorrências durante a cirurgia e no pós-operatório
Atualmente, passados alguns meses após a ativação do implante, Fidelis já detecta sons e começa a compreender palavras e frases, com resultados clínicos promissores.
Segundo os médicos envolvidos, o implante de tronco cerebral marca um avanço significativo em situações em que a audição não pode ser recuperada por vias tradicionais. A cirurgia representa uma alternativa viável e de alto impacto para pacientes com surdez profunda e ausência de nervos auditivos funcionantes.
Ação da Defensoria Pública do RS possibilitou cirurgia
A conquista de Fidelis foi possível graças a uma ação judicial movida pela Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul (DPE/RS), que teve início ainda em 2016.
O implante de tronco cerebral, indicado apenas em casos específicos como o dele, era a única alternativa de reabilitação auditiva. Contudo, o procedimento não era oferecido pelo SUS e nem incluído no rol de coberturas obrigatórias do plano de saúde.
Diante da negativa de acesso ao tratamento, a Defensoria Pública ajuizou ação para garantir que o Estado e o Município de Torres arcassem com os custos da cirurgia. “A sentença favorável veio quase uma década depois.
*Com informações de Hospital Moinhos de Vento, Defensoria Pública do RS e Jornal Força do Vale







