‘Potencial turístico de Torres está pouco explorado’, afirma presidente do SHBRLN RS

O jornal A FOLHA Torres entrevistou Ivone Ferraz (Presidente do Sindicato de Hotéis Bares e Restaurantes do Litoral Norte do RS) sobre Turismo de Inverno, debatendo ainda temas sobre questões técnicas e culturais do turismo do Litoral Norte e em Torres

FOTO – Vista aérea de Torres (em Prefeitura De Torres)
10 de agosto de 2025

Ivone Ferraz é presidente do Sindicato de Hotéis Bares e Restaurantes do Litoral Norte do RS,  além de ser empresária do setor de hotelaria onde administra seus empreendimentos nos hotéis Ficare Torres, Tramandaí e Tubarão

A Folha fez uma entrevista com a líder do setor para saber a situação do Turismo de inverno na região do litoral norte do RS. Confira a seguir:

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ENTREVISTA: Ivone Ferraz

Presidente do Sindicato de Hotéis Bares e Restaurantes do Litoral Norte do RS

 

A FOLHA  Torres – Quais as principais ações do Sindicato de Hotéis do LN nas atividades de fomento ao turismo?

Ivone – O Sindicato tem atuado de forma estratégica para fortalecer o turismo em todas as estações, com atenção especial ao potencial do inverno, que historicamente é um período de menor movimento na região. Entre as principais ações desenvolvidas, destacamos:

 

  1. Promoção de campanhas conjuntas com a iniciativa privada e poder público, incentivando o turismo regional com foco em experiências de bem-estar, gastronomia local, natureza e eventos culturais.
  2. Capacitação e qualificação profissional, com cursos, palestras e treinamentos voltados ao atendimento, hospitalidade e inovação nos serviços prestados, elevando o padrão de qualidade da região.
  3. Participação ativa em feiras e eventos de turismo, promovendo o litoral norte como destino de inverno,

 

A FOLHA  Torres – Qual é o diagnóstico do setor referente à posição de Torres (e do Litoral Norte gaúcho) no contexto da indústria do Turismo nacional?

Ivone – O Litoral Norte do Rio Grande do Sul, com destaque para Torres, possui grande potencial turístico, mas ainda enfrenta desafios para consolidar sua posição de destaque no cenário nacional. Torres, por sua beleza natural única — com falésias, praias, o Parque da Guarita e os Cânions do Itaimbezinho e Fortaleza nas proximidades, já é reconhecida como um dos principais destinos do Estado. No entanto, ainda carece de maior visibilidade e investimentos estruturais para competir de forma mais equilibrada com destinos consolidados como Gramado, no RS, ou Balneário Camboriú, em SC.

O diagnóstico atual aponta que:

  1. Potencial natural e geográfico é um diferencial, mas ainda pouco explorado de forma integrada com o trade turístico.
  2. A sazonalidade é um desafio crônico, com forte concentração de visitantes no verão e baixa ocupação no restante do ano.
  3. Falta de investimento em promoção nacional e internacional além do fato de  a  região não ter presença contínua em campanhas de divulgação e nem participação expressiva em feiras e eventos do setor fora do Estado, mesmo estando a região no mapa brasileiro do turismo
  4. Infraestrutura e conectividade ainda precisam avançar, tanto em acessos rodoviários quanto em oferta qualificada de serviços turísticos.
  5. Capacitação e inovação são pontos em evolução, mas ainda há espaço para maior profissionalização e qualificação do atendimento, especialmente na baixa temporada.

Apesar desses desafios, o setor tem demonstrado resiliência e união, especialmente por meio das ações do Sindicato de Hotéis, associações e empreendedores locais, que têm buscado alternativas para valorizar o turismo o ano inteiro.

Com estratégias adequadas de posicionamento, investimento em infraestrutura, profissionalização e promoção integrada com as esferas estadual e federal, Torres e o Litoral Norte têm todas as condições de se firmar como um destino estratégico no turismo nacional, não apenas pelas belezas naturais, mas pela hospitalidade, segurança e autenticidade da experiência oferecida.

 

A FOLHA  Torres – Existiu algum programa ou trabalho conjunto local em andamento – para acionar o público das férias de julho, buscando que estes passarem momentos em hotéis e em praias da região litorânea?

 Ivone – Já realizamos ações importantes, como o Festival Sabores da Praia e reuniões com representantes de diversos setores. No entanto, ainda enfrentamos certa morosidade na união entre os setores público e privado. É fundamental unirmos forças para promover e divulgar o que a nossa região tem de melhor.

Se as categorias do trade turístico não se mobilizarem de forma conjunta, com estratégias claras e contínuas para atrair visitantes, continuaremos perdendo oportunidades, especialmente na baixa temporada.

Reconhecemos iniciativas positivas, como o trabalho desenvolvido pelo vempratorres, agência de turismo local, que tem dado bons resultados dentro da cidade, e também o fortalecimento dos roteiros rurais. Mas ainda é pouco para gerar volume e impacto regional.

Precisamos de uma atuação mais integrada, com planejamento, investimento em divulgação e ações coletivas, para que o Litoral Norte do RS seja reconhecido como destino turístico durante todo o ano.

 

A FOLHA  Torres – Tem alguma cidade litorânea (e com turismo de inverno) que se poderia usar como exemplo, para espelhamento de projetos ao Litoral Norte?

 Ivone – Punta Del Este, no Uruguai. Embora também sofra com a sazonalidade, a cidade conseguiu transformar o inverno em uma oportunidade, oferecendo programação diferenciada, eventos culturais, festivais gastronômicos e ações voltadas ao turismo de bem-estar. Mesmo fora do verão, Punta mantém fluxo de visitantes, que buscam tranquilidade, gastronomia, spas e experiências exclusivas.

No Brasil, cidades como Paraty (RJ) têm mostrado que é possível manter fluxo turístico no inverno com ações bem planejadas, valorizando a cultura local, festivais e o turismo de experiência.

O que pode ser aplicado ao Litoral Norte do RS — é:

  1. Diversificação da oferta turística: não depender só do sol e da praia.
  2. Investimento em experiências: gastronomia, natureza, cultura, bem-estar.
  3. Integração do trade turístico com o poder público para ações conjuntas de divulgação e estruturação.
  4. Criação de eventos de inverno que realmente movimentem a economia local e atraiam visitantes; criar Centro de Eventos e fomentar investidores. Mas precisa-se de mais organização estratégica, união entre os setores e constância nas ações de promoção para se posicionar como destino o ano inteiro.
Punta del Este, Maldonado, Uruguay (FONTE – Wikimedia Commons – Jimmy Baikovicius)

 

A FOLHA  Torres – Neste mês de julho, a região teve algum movimento positivo nas férias de Inverno?

Ivone – O movimento de julho foi pouco tímido no meio de semana se acentuando no final de semana, destaque para Tramandaí com festival do peixe

 

A FOLHA  Torres – Tu achas que Torres tem ambiente e atratores para captar publico grande para as férias de julho anuais?

 Ivone –  Torres tem ambiente, atrativos e identidade suficientes para se tornar um destino de inverno atrativo e recorrente nas férias de julho.

 

  1. Torres tem um diferencial raro entre destinos de praia: falésias, costões, trilhas, mirantes e parques naturais, como o Parque da Guarita e o Parque da Itapeva. Eventos consolidados como festival do balonismo são atrativos que não dependem do calor para encantar.

 

  1. Gastronomia & Experiências. A cidade já conta com bons restaurantes, vinhos da região, cafés acolhedores e possibilidade de desenvolver eventos gastronômicos sazonais, como jantares harmonizados, cafés coloniais e festivais de inverno.

 

  1. Estrutura urbana e hospitalidade – Torres é organizada, segura, tem boa rede hoteleira, opções de lazer, comércio ativo e um ambiente acolhedor. Isso é fundamental para receber famílias, casais e idosos fora da temporada de verão.

 

  1. Turismo de natureza e bem-estar – julho é um mês ideal para oferecer experiências tranquilas, ecológicas, culturais e de autocuidado, como caminhadas em trilhas, meditação ao ar livre.

 

  1. Proximidade com os cânions e com a Serra – Estar tão perto dos Cânions Itaimbezinho e Fortaleza, além de ser rota de acesso à Serra Gaúcha, permite criar roteiros integrados e parcerias regionais, ampliando o atrativo da estadia.

Mas o que falta?

  • Uma programação anual atrativa para julho, com eventos fixos (gastronomia, música, cultura, infantil)
  • Campanhas de divulgação em cidades-chave do RS e SC
  • Pacotes promocionais entre hotéis, restaurantes e atrativos
  • Trabalho em conjunto entre poder público e trade turístico
FOTO DE ARQUIVO – Vista Aérea de Torres (por Prefeitura de Torres)

 

A FOLHA   Torres –  Para você, quais os caminhos que deveríamos seguir para iniciar um trabalho neste sentido?

 Ivone – 1. Formação de um grupo gestor intersetorial

Reunir representantes do poder público, trade turístico, associações comerciais, cultura e agricultura familiar para criar um comitê permanente de planejamento e execução do turismo anual

 

  1. Diagnóstico regional participativo

Mapear os atrativos existentes, infraestrutura disponível, público-alvo e vocações de cada município do litoral. Um plano realista precisa partir do que já existe e das oportunidades locais.

 

  1. Criação de um calendário fixo

Estabelecer eventos anuais, como festivais gastronômicos, feiras de artesanato, encontros culturais, trilhas guiadas, ações infantis nas férias e experiências de bem-estar e que sejam promovidos com antecedência.

 

  1. Construção de roteiros temáticos

Integrar praias, zonas rurais, turismo de aventura e gastronomia em pacotes e roteiros regionalizados, oferecendo experiências para diferentes perfis: famílias, casais, idosos, grupos.

 

  1. Campanhas de divulgação regional e estadual

Promover os atrativos do litoral de inverno com campanhas digitais, parcerias com influenciadores, inserções em mídia e presença em feiras de turismo. Mostrar que o litoral também é destino fora do verão.

 

  1. Qualificação do trade turístico

Oferecer capacitações para hotéis, bares, restaurantes e guias locais sobre atendimento, hospitalidade no inverno, marketing digital e criação de experiências temáticas.

 

  1. Busca por recursos e incentivos

Articular parcerias com o Governo do Estado, Ministério do Turismo, Sebrae, Emater e outros órgãos para captar recursos, fomentar projetos e dar suporte técnico às iniciativas locais.

 

O turismo de inverno não se faz com improviso, mas com união, planejamento, visão estratégica e continuidade. O Litoral Norte tem potencial — falta transformá-lo em produto com apoio de todos os setores.

 

A FOLHA   Torres – Qual o papel das prefeituras para fomentar este movimento, em prol de mais turismo de Inverno?

Ivone – O papel das prefeituras é fundamental para estruturar e fomentar o turismo de inverno, mas a realidade ainda é marcada por ações pontuais e pouca continuidade. Em geral, o apoio público ocorre de forma limitada, muitas vezes restrito à cessão de espaços, apoio logístico ou divulgação institucional, sem um planejamento estratégico de médio e longo prazo.

As prefeituras poderiam e deveriam atuar mais fortemente em:

  1. Criação de um calendário oficial de eventos de inverno, com atividades culturais, gastronômicas e esportivas que atraiam público para além da alta temporada.
  2. Investimentos em infraestrutura turística, como sinalização, iluminação de atrativos, acessibilidade e manutenção de espaços públicos.
  3. Apoio direto ao trade turístico, por meio de campanhas promocionais, participação em feiras, formação de parcerias e promoção regional e estadual.
  4. Fomento à cultura local e à economia criativa, com incentivo a feiras, apresentações artísticas e produtos locais, que geram movimento mesmo em períodos mais frios.
  5. Estreitamento do diálogo com o setor privado, para construção conjunta de pacotes e roteiros temáticos que valorizem o que a cidade tem de melhor no inverno.

O que falta é uma política pública integrada e permanente que reconheça o potencial do inverno como produto turístico.

O turismo não acontece por acaso ele precisa ser planejado, promovido e valorizado o ano todo. E o poder público tem um papel decisivo para que isso aconteça.

 

 

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Publicado em: Turismo






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