Por Guilherme Rocha
Em muitos extratos da nossa sociedade e em pleno século XXI, muita gente não percebe (ou ignora) a enorme diversidade de povos indígenas que se espalham pelo Brasil. Estima-se que, na época da chegada dos portugueses, fossem mais de 1.000 povos, que juntos somavam entre 2 e 4 milhíµes de pessoas. Pesquisas arqueológicas em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí, registram indícios da presença indígena no Brasil datados como anteriores há 10 mil anos. Nos dias de hoje encontramos em território brasileiro 234 povos, falantes de ao menos 180 línguas diferentes.
Grande parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 674 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional. A população indígena no Brasil decresceu drasticamente se comparado com os números da época de Cabral, o que se deu principalmente em função da agressão direta dos colonizadores e a baixa imunidade dos povos nativos com relação a novas doenças trazidas pelos europeus. Hoje, os mais de 230 povos indígenas somam por volta de 800 mil pessoas, segundo o Censo IBGE 2010. Destes, cerca de 300 mil estão vivendo em cidades, e outros 500 mil nas áreas rurais, correspondendo a 0,42% da população total do país.
Os guaranis
Os povos guaranis constituem uma das mais representativas etnias indígenas do Brasil, somando atualmente cerca de trinta mil pessoas. Antes dos colonizadores, os guaranis eram mais de 2 milhíµes espalhados pelo país, divididos em diversos subgrupos étnicos. Estes indígenas possuem cultura milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, política e organizacional. Nas suas convicçíµes culturais, os guaranis detêm conhecimentos ancestrais de elevada categoria, baseados na continuidade de sua língua, que foi preservada até os dias de hoje apesar de uma histórica série de pressíµes políticas, econí´micas e étnico-culturais.
O dialeto Guarani é pertencente ao tronco tupi, que congrega várias línguas indígenas da América do Sul e apresenta grande distribuição geográfica pelo continente. Boa parte das tribos indígenas que habitavam o litoral do Brasil, quando da chegada dos portugueses em 1500, falava línguas pertencentes a esta família. Muitas palavras de origem Tupi-guarani foram, inclusive, incorporadas ao vocabulário dos brasileiros. O guarani é uma das línguas indígena de maior importância atualmente, sendo também um dos idiomas oficiais do Paraguai, ao lado do espanhol.
A aldeia indígena de Torres
Fui conduzido pelo Secretário Municipal da Ação Social, Carlos Roberto Monteiro "Tubarão", até a aldeia guarani estabelecida na reserva Pitangueiras, bairro Campo Bonito. Uma área de 97 hectares de terra as margens da BR 101, propriedade cedida aos índios pelo Dnit durante o processo de duplicação da estrada. Chegando lá fui apresentado a Virgulino da Silva, um dos índios guarani da aldeia. Agente de saúde, já faz 11 anos que vem trabalhando no cuidado e auxílio médico aos membros da sua tribo. Além disso, ele é o porta-voz da comunidade em nossa conversa. "Somos 148 membros na aldeia, e temos 25 famílias morando aqui. Vivemos de forma sustentável, plantamos aipim, batata doce, milho. A prefeitura ajudou e hoje a terra é boa, estamos até tentando fazer um pomar. Nos também criamos galinhas, perus, patos e coelhos. Também fazemos a caça e a pesca", indica o índio.
Sempre com a cuia do chimarrão na mão, Virgulino lembra que o chimarrão, uma das mais fortes tradiçíµes gaúchas, é um legado Guarani. O mate tem entre os índios guaranis uma origem mitológica, na verdade. Começaram a usar a erva em tempos distantes, por indicação de certo pajé. Segundo a lenda, o deus Anhang teria aparecido a este pajé, dizendo-lhe das virtudes e dos males do mate. Anhang é o protetor da caça e do campo para os guaranis, embora tenha sido comparado com o demí´nio para os jesuítas catequizadores. Desde então os índios começaram a usar a erva com as devidas precauçíµes para tirar dela as vantagens tí´nicas e medicinais, mas com a água não tão quente para evitar seus inconvenientes.
Na aldeia guarani no Campo Bonito, as tradiçíµes e ritos da cultura indígena continuam sendo preservados, ainda que não de forma tão expressiva quanto no passado. "Temos nossa Opy aqui, nosso lugar sagrado onde fazemos as oraçíµes. Para nós, o mundo foi criado por Nhanderu, o deus sol, e Tupã representa o divino, o filho de Deus. Nossas tradiçíµes são passadas de pai para filho", explica Virgulino. Além disso, a língua guarani continua sendo a língua-mãe da tribo, a primeira a ser ensinada í s crianças, ainda que as elas aprendam também o português, que será compulsoriamente incorporada nas escolas. "Temos crianças estudando nos colégios de Campo Bonito e íguas Claras, mas queremos reformar uma das casas daqui para fazer uma escola nossa". Na aldeia também continuam sendo celebradas festas í maneira guarani, com danças e cantos rituais, utilização de adornos e instrumentos. Todo esse processo cultural ajuda na manutenção do contato com as divindades.
Preconceito
Como porta-voz da tribo, Virgulino relembra do preconceito que ainda é sofrido pelos povos indígenas nos tempos modernos, o que dificulta a inclusão dos guaranis nas cidades. "Fica muito difícil encontrar trabalho para a gente. Eu sou o único guarani com um emprego fixo na tribo, o máximo que os outros fazem são alguns bicos na lavoura. Mas queremos uma chance de trabalhar, o problema é que faltam oportunidades" O agente de saúde reclama que a burocracia em relação aos documentos necessários para trabalhar é muito grande, e é um processo que vai contra a cultura guarani. "Acho que na cidade ainda falta respeito do povo com o papel do índio. Nós sentimos falta de um local fixo onde possamos mostrar nosso trabalho, vender nosso artesanato".
Mesmo assim, Virgulino assume que a tribo já esta bastante incorporada com as coisas do mundo contemporâneo. "Somos índios tecnológicos (risos), não tem como ficar de fora dessa modernidade. Temos geladeira, som, celulares, televisão a cabo. Só estamos precisando um computador agora, com internet, isso é importante e faz falta aqui". O acesso a saúde também foi uma das boas coisas do maior contato da tribo com a cidade, e a Funasa se responsabiliza pelo atendimento médico na aldeia ao menos uma vez por semana. "Felizmente a saúde está boa aqui, mesmo com o inverno não tivemos casos sérios, as crianças não tem problemas com o peso ou doenças e a Funasa também ajuda quando precisamos". Já na área da habitação, a comunidade guarani da reserva Pitangueiras encontra deficiências. Vivendo em barracos improvisados, eles pedem auxílio para a construção de novas moradias. "O problema é que falta material para construir as casas, se tivéssemos o material e com alguma ajuda, nós mesmos poderíamos fazer essas moradias", ressalta Virgulino.
Apesar dos problemas, o agente de saúde da tribo pensa que a vida tem melhorado nos últimos anos, em função de a tribo não estar mais tão isolada da civilização urbana. "Antes faltava organização, hoje em dia está melhor. A prefeitura vem ajudando também, mas mesmo assim ainda faltam coisas importantes para algumas famílias da aldeia" Virgulino pede por uma ação de voluntariado para suprir as necessidades da comunidade, que sonha com um computador e precisa de material de construção, roupas quentes e cobertores para melhor suportar o frio do inverno. Para quem quiser ajudar, doaçíµes podem ser feitas através do contato com o próprio Virgulino, pelo celular (9620-3769), ou diretamente com A FOLHA (3626-1857).


