Discriminação racial: realidade ou exagero?

4 de setembro de 2014

 

Os xingamentos ouvidos pelo goleiro Aranha, do Santos, na semana retrasada, durante partida contra o Grêmio pelas oitavas de final da Copa do Brasil, em Porto Alegre, reacenderam a polêmica sobre o racismo, principalmente no futebol brasileiro. Polêmica esta ‘forçada’ pela grande mí­dia.

 

 

 

Por Maiara Raupp*

Editado por Guile Rocha

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Esse foi o quarto caso de grande repercussão no ano nos gramados do paí­s. As imagens de Patrí­cia Moreira proferindo a palavra ‘Macaco’ ao goleiro Aranha tornou-se emblemática, mas ao mesmo tempo serviu para ‘destruir’ com a reputação da moça imprudente. Mas o que pouco se fala é que a polêmica foi um verdadeiro show midiatico, fora de proporção. Não que o racismo não seja um problema grave, mas a espetacularização do ocorrido não parece ter sido acidental. Foi criado pela mí­dia para assustar e enquadrar mesmo, um verdadeiro cala boca ao racismo cuja   autoria foi reivindicada a mí­dia. E Patricia foi o bode expiatório da vez. Acompanhada de seu advogado, ela deu declaração na sexta-feira (05):

 

"Perdão de coração, eu não sou racista. Aquela palavra macaco não foi racismo, foi no calor do jogo. O Grêmio estava perdendo, o Grêmio é minha paixão. Eu largava tudo para ir ao jogo do Grêmio. Peço desculpas ao Grêmio, í  nação tricolor, eu não queria prejudicar o Grêmio. Eu amo o Grêmio. Desculpas, perdão, perdão, perdão mesmo. (…)  Macaco, no contexto dentro do jogo de futebol, não se torna racista, ainda mais com a intenção que existiu. Isso se torna um xingamento no mundo do futebol".

 

 "Perguntinha básica í  torcedora: fosse o goleiro do Santos branco, ela igualmente o chamaria de macaco porque o xingamento faz parte do mundo do futebol? (Gilberto Blume, do jornal O Pioneiro)

 

Desde que o problema do racismo ficou evidente também nos gramados nacionais, passou-se a discutir puniçíµes para combatê-lo. Perda de pontos ou de mando de campos para o clube responsável, além de punição para os próprios torcedores que cometeram o ato racista são algumas das ‘penas’ que têm entrado em pauta no debate sobre o assunto.

Foi o que aconteceu com o Grêmio nesta quarta-feira, dia 3. Os  insultos racistas  de alguns torcedores ao goleiro Aranha foram condenados na Terceira Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) com a exclusão da Copa do Brasil.  O clube ainda foi multado em R$ 54 mil pelo papel higiênico arremessado no campo na Arena e pelo atraso ao voltar para o segundo tempo. Os torcedores gremistas identificados pelos insultos foram proibidos de frequentar estádios de futebol por 720 dias.  

Além das ofensas ao goleiro, a situação do Grêmio se complicou ainda mais quando torcedores não se intimidaram e no intervalo da última partida do time, contra o Bahia, cantaram a plenos pulmíµes a música  "Somos Campeíµes do Mundo", cuja letra pode ser interpretada como uma ode ao racismo.

 

"Somos campeíµes do Mundo
E da Libertadores também
Chora macaco imundo
Que nunca ganhou de ninguém
Somos a banda mais louca
A banda louca da Geral
A banda que corre
Os macacos do Internacional"

 

Nem a campanha antitacista que a direção do clube havia organizado, nem toda a repercussão negativa que permeava o clube calaram a torcida. Porém, nesta quarta-feira (10), a Torcida Geral do Grêmio informou que retirou a palavra ‘macaco’ dos hinos cantados pela torcida. Vamos ver se a promessa será cumprida…

 

O termo ‘macaco’ relacionado ao torcedor colorado

 

A origem do ‘macaco’ para definir a torcida do Inter reforçou-se  no fato de o clube ter aceitado negros na década de 30, quando isto não era atitude comum no paí­s. O grupo de alemães que doou o primeiro estádio ao Grêmio, proibia que negros atuassem na equipe. A equipe tricolor só aceitou oficialmente negros em 1952, há apenas 62 anos. Alem disso, há outras explicaçíµes para o termo ser usado em relação ao colorado. Uma delas seria o fato de que, na época do estádio Eucaliptos – antiga casa do Internacional – muitos torcedores que não tinham condiçíµes para comprar o ingresso subiam em altas árvores ao redor do estádio para ver os jogos (como macacos, portanto). Além disso, antigos gremistas alegam que o Inter copiava idéias e cantos gremistas, e por isso os colorados seriam macacos, por estes serem animaisl imitadores (o termo ‘macaquito’ é utilizado na argentina com o mesmo teor).

 Enfim, mesmo que hajam muitas nuances, a história não nega a discriminação racial que marcou o Grêmio no passado. Mas será que hoje, no século 21,a torcida tem o direito de continuar a aclamar músicas que são (no mí­nimo) remetentes ao racismo, sendo que até o próprio time tem hoje muitos torcedores negros?

 

Goleiro Aranha sofreu injúrias raciais em uma polêmica "forçada" pela mí­dia e sustentada pelo próprio Aranha

 

 

 Racismo ou injúria racial?

 

O caso do goleiro Aranha está foi muito tratada pela mí­dia como racismo. Mas será mesmo? Segundo a advogada torrense, Aida Dornelles, não é racismo, e sim injúria racial.  A injúria racial está prevista no artigo 140, § 3 º do CP e se caracteriza quando as ofensas de conteúdo discriminatório são empregadas a pessoa ou pessoas determinadas. Aqui, há uma atribuição de uma qualidade negativa a uma pessoa. O crime de injúria ofende a honra subjetiva da ví­tima, ou seja, sua autoestima própria como, por exemplo, negro fedorento, judeu safado, baiano vagabundo, alemão azedo, dentre outros. Portanto, os xingamentos referentes í  raça ou cor da ví­tima constituem o crime de injúria qualificada e não crime de racismo (Lei n ° 7.716/89), pois os crimes dessa natureza pressupíµem sempre uma espécie de segregação em função da raça ou da cor, afirmou Aida.

A advogada explicou ainda que o crime de racismo está previsto do artigo 20 da Lei n º 7.716/89 e que ao contrário da injúria racial, o racismo só será aplicado quando as ofensas não tenham uma pessoa ou pessoas determinadas, e sim venham a menosprezar determinada raça, cor, etnia, religião ou origem, agredindo um número indeterminado de pessoas como, por exemplo, negar emprego a judeus numa determinada empresa, impedir entrada de negros em um shopping, impedir acesso de í­ndios a determinado estabelecimento, dentre outros.

O crime de racismo está previsto na Constituição Federal (art. 5 °XLII) ˜a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescrití­vel, sujeito í  pena de reclusão nos termos da lei™. Já de injúria racial, desde que o réu pague a fiança, ele poderá responder em liberdade e apenas pagar em cestas básicas por exemplo,disse Aida, acrescentando ainda que o crime de racismo fere o princí­pio da Dignidade da Pessoa Humana, enquanto o crime de injúria qualificada fere a honra subjetiva da ví­tima. Desta forma conclui-se que o caso do goleiro Aranha é injúria racial e não racismo, garantiu ela.

 

Preconceito sentido na pele

 

Mesmo diante de toda a polêmica nacional em cima dos atos de discriminação racial no futebol, três homens negros foram confundidos com bandidos por policiais militares na última sexta-feira, dia 29, em São Paulo. Os cidadãos foram abordados pelos PMs depois de terem comprado um par de calçados. Eles foram agredidos e ouviram insultos como cadê a arma, neguinho?.

Cenas como essa ocorrem em todo o mundo diariamente. Em Torres não é diferente. O garçom Edu Roberto dos Santos, de 27 anos, já passou algo parecido. Já sofri com o preconceito racial. Uma vez eu estava na frente de um banco esperando meu pai quando a polí­cia me abordou. Tinha outras pessoas ali que também poderiam ter sido abordadas. Mas fui só eu, contou ele.

Mesmo ter sido ví­tima da discriminação racial, Edu diz ser um exagero o que está sendo feito com relação aos insultos ao goleiro Aranha. Acredito que não precisava toda essa polêmica. Foi força de expressão. E a penalidade não intimida, por isso acontece isso com frequencia, garantiu Edu, acrescentando ainda que racismo tem em todo lugar. Não vai adiantar fazer campanha contra o racismo porque isso vai da cabeça e da educação de cada um, finalizou ele.

Diferente de Edu, a estudante Marí­lia Silva, de 20 anos, nunca sofreu preconceito racial, mas critica os atos de racismo que estão ocorrendo. Em primeiro lugar temos que ter respeito com qualquer pessoa. Todo ser humano é igual perante a lei, independente de cor, etnia e religião. Os casos no futebol já se tornaram comuns. í€s vezes a pessoa tem amigos negros, não é preconceituoso, mas no estádio fica berrando ˜macaco™ como é o caso da estudante Patrí­cia Silva. Acho isso um absurdo!, falou Marí­lia.

 

Rejeição desde a infância

 

Nigeriano cria bonecas negras para encorajar crianças africanas  

 

 

A fantasia de ser um grande herói ou uma linda princesa é uma das mais comuns na infância. Esse sonho, porém, nem sempre está disponí­vel para todas as crianças. Quando uma menina negra imagina-se princesa, por exemplo, geralmente ela nega suas caracterí­sticas fí­sicas ao mesmo tempo em que valoriza como ideal outro biótipo: o da pele branca, dos cabelos lisos e do nariz afilado. Isso ocorre porque as crianças comportam-se e relacionam-se a partir do que encontram na sociedade. E na maioria das vezes são essas caracterí­sticas que estão presentes nos programas de televisão, nos tipos fí­sicos dos bonecos, nos comentários dos adultos, nas coloridas fotos das revistas.

í‰ na educação infantil que começa a conscientização das diferenças fí­sicas, por isso devemos ficar atentos. í‰ nessa fase que as crianças começam a aprender sobre rejeição. Precisamos conscientizar e fazer trabalhos em cima desse assunto desde a primeira infância e também dentro do útero da mãe. Assim tentaremos evitar o preconceito e a autorrejeição. Não podemos esquecer ainda que os pais são os principais exemplos de uma criança, explicou a psicopedagoga torrense, Clarisse Gomes.

 

Combate ao racismo

 

Diversas açíµes são praticadas diariamente no combate a discriminação racial. Para marcar e intensificar iniciativas nesse sentido foi estabelecido pela  ONU  (Organização das Naçíµes Unidas) o dia 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, em memória aos mais de 60 mortos em um massacre ocorrido na ífrica do Sul nesse mesmo dia no ano de 1960. Além disso, no dia 20 de novembro é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra.

Acompanhe abaixo a entrevista completa com o torrense Leonardo Gedeon, um grande defensor dos Direitos Humanos Universais e da Diversidade Cultural, pesquisador e professor de história, filosofia e sociologia.

 

ENTREVISTA: Leonardo Gedeon

 

 

A Folha: Como você vê a discriminação racial no Brasil?  

Leonardo: A discriminação racial no Brasil é latente e aguda. Existe um racismo mascarado, velado, em que as pessoas não admitem seu preconceito e quase sempre culpam os outros.

 

Quais seriam, em sua opinião, as origens dessa discriminação?

O contato interétnico sempre existiu entre as populaçíµes nativas, porém as origens da discriminação é um resquí­cio do perí­odo escravagista. Os africanos e indí­genas eram tratados como mercadorias, marcadas pela violência e tortura subjugadas pela relação entre o senhor de escravo e o escravo.

 

Quais seriam os passos para acabar com o racismo?

Acredito que estamos avançando em alguns aspectos, como a criminalização do Racismo (Disque 100 e Denuncie), com a obrigatoriedade do Ensino de História Africana e Cultura Afro-brasileira e Indí­gena (Lei 10.639/03 e Lei 11.645/08), a inserção das Cotas Raciais nas universidades e concursos públicos, a promoção dos Direitos Humanos e da Diversidade Cultural, entre outras açíµes afirmativas que promovem transformaçíµes na consciência das pessoas. No entanto ainda temos muito a progredir.

 

Você acredita que toda essa polêmica levantada nessas últimas semanas é válida ou já se tornou um exagero da mí­dia?  

Creio que os atos racistas não se restringem aos estádios de futebol, mas se manifestam cotidianamente nas ruas, no trabalho, na escola, no mercado, nas piadas de mau-gosto, nos olhares estranhos e em diversas ocasiíµes da vida e espaços públicos e privados. A mí­dia ajuda a sensibilizar as pessoas para o assunto, expondo as causas e consequências do racismo, porém não podemos esquecer que a mí­dia também é racista quando impíµe padríµes de belezas eurocêntricos e delegam a invisibilidade ou papéis subalternos para atores e atrizes negros. Os jogadores de futebol são ovacionados pelo seu "heroí­smo", pelas massas, porém os imigrantes africanos que chegam ao Brasil são marginalizados e utilizados como mão de obra barata em grandes empresas. São negros divididos por suas condiçíµes sócioeconí´micas, o que "vale para um, vale para todos". Lembro de Marcus Mosiah Garvey, um dos mentores do Pan-Africanismo, que afirma que devemos combater a opressão e o opressor independente da sua cor, classe ou religião.

 

 

 


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