Independência do Brasil: Serámesmo?

8 de setembro de 2014

 

Por Maiara Raupp

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No ano de 1822, diversos grupos das elites brasileira e portuguesa discutiam quanto aos rumos que os paí­ses deviam tomar. Aristocratas e comerciantes do Brasil buscavam mais liberdade, em termos econí´micos e polí­ticos. Já as Cortes portuguesas desejavam uma recolonização do Brasil. Pedro de Alcântara, reunindo os interesses da opinião pública brasileira, de sua esposa D. Maria Leopoldina e do ministro José Bonifácio, decidiu então proclamar a independência do Brasil.

Em uma versão romântica da história, este fato é apresentado como um ato heroico de D. Pedro I. Quando estava í s margens do rio Ipiranga, no estado de São Paulo, recebeu uma correspondência de D. João VI, seu pai e rei de Portugal, o qual exigia submissão ao Reino Português. Nesse momento, D. Pedro teria gritado as famosas palavras independência ou morte!, passando a ser o imperador do Brasil, aclamado e coroado, no final daquele ano.

A independência, no entanto, foi mais burocrática do que heroica. Para ser reconhecido como paí­s independente, o Brasil precisava do reconhecimento oficial das outras naçíµes. Para isso, mediante acordos comerciais extremamente desfavoráveis ao jovem paí­s, a Inglaterra usou seu exército de mercenários e seu prestí­gio internacional para garantir a independência brasileira. Além disso, o governo brasileiro pagou a indenização de dois milhíµes de libras esterlinas a Portugal. O reconhecimento veio, finalmente, em 1825.

A independência não marcou nenhuma ruptura com a história colonial. As bases socioeconí´micas (trabalho escravo, monocultura e latifúndio), que representavam a manutenção dos privilégios aristocráticos, permaneceram inalteradas. Apenas a consolidação de uma ruptura polí­tica que iniciou com a abertura dos portos em 1808, afirmou o professor de história, Leonardo Gedeon. Segundo ele, a independência não passou de um ato simbólico. As relaçíµes de poder continuaram as mesmas. Em sua grande maioria, o povo brasileiro não deu importância por se tratar de uma decisão administrativa e confinada í  esfera polí­tica. O Brasil continuou na mesma. Apenas inaugurou uma etapa na sua História Polí­tica, garantiu o especialista.

 

Independência relativa

 

Passados quase 200 anos, ainda há quem discuta se o Brasil já conquistou, verdadeiramente, sua independência. Afinal, de lá pra cá, existiram muitos momentos em que o Brasil não foi soberano em suas decisíµes. A grande influência da Inglaterra no século 19 passou para os Estados Unidos no decorrer do século 20, e assim o paí­s participou de guerras que não interessavam, teve instalada uma ditadura militar que interessava mais aos estrangeiros do que ao povo brasileiro, fazendo acordos que prejudicaram a economia e aumentaram as dí­vidas. Enquanto isso, grande parte da população continuou sofrendo as mesmas mazelas: fome, falta de cuidados médicos e de educação, violência, desemprego…

Em um mundo globalizado, regido pelas multinacionais, é impossí­vel conquistar uma verdadeira independência dos interesses polí­ticos e econí´micos que manipulam as naçíµes. No entanto uma visão menos heroica e mais realista do passado pode ajudar a perceber que rumos o paí­s precisa tomar.

Para o artesão e pintor torrense, Geraldo da Silva, não há dúvidas de que o Brasil não conquistou a independência. Ao tentar se libertar de Portugal o Brasil alinhavou acordos polí­ticos e econí´micos com outros paí­ses. Participou de guerras na qual só teve desvantagens. Assumiu uma enorme dí­vida externa. Ao meu ver, hoje há mais dependência do que antigamente (mas na forma de acordos comerciais), afirmou ele, destacando ainda parte de um artigo que leu na internet. A independência não existe num paí­s onde são fabricados milhíµes de analfabetos e desempregados; onde a exploração da mão de obra e da natureza é a fonte de riqueza da burguesia; onde a igualdade, ainda que ˜com braço forte™, não é conquistada; onde a impunidade e a corrupção são notí­cias diárias; onde ˜tudo é fonte de lucro: mí­dia e educação, saúde e cultura, esporte e religião™; onde a população não busca a independência, concluiu Geraldo.

 

Sem buscar uma resposta para esses questionamentos, no 7 de setembro se desfilará pelas praças e avenidas o orgulho por essa pátria amada Brasil, como se ao ouvir o grito do Ipiranga í s margens plácidas teria de fato conquistado a independência.

 

Desfile

 

Segundo o historiador, Leonardo Gedeon, no perí­odo do Governo Militar (1964-1985) as datas cí­vicas ganharam força com atos patrióticos visando a manutenção de uma memória histórica. A intenção era despertar o sentimento nacionalista na população, disse o professor.

Hoje muitos jovens estão conscientes das festividades relacionadas í  Semana da Pátria. Alguns de maneira crí­tica e outros de maneira passiva, sem dar muita importância ao fato histórico. Os alunos mais interessados propíµem debates sobre a História do Brasil e sua atual situação tomando como exemplo ‘A Marcha dos Excluí­dos’. Mas tem aqueles que participam sob pressão do calendário escolar e acabam envolvendo apresentaçíµes artí­sticas e culturais durante o desfile, tornando-o mais atraente e atual, garantiu Leonardo, completando ainda que enquanto houver apelo popular ele acredita que o desfile cí­vico irá perdurar.    

 



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