UM PAíS SE FAZ COM PESSOAS E LIVROS – Paulo Timm

2 de novembro de 2014

 

 

 

Por Paulo Timm*

* Economista, Professor da Universidade de Brasilia, signatárioda Carta de Lisboa

fundador do PDT, partido pelo  qual disputou os Governos de Goiás (1982) e Distrito Federal  (1994)

Home page:  www.paulotimm.com.br  

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Ainda impactados pelos resultados das eleiçíµes, no rastro de exaltados ânimos que advertem para dias difí­ceis num futuro próximo, chegamos ao Dia Nacional do Livro, 29 de outubro, que abre as tradicionais Feiras do Livro por todo o paí­s (inclusive a que ocorreu em Torres). A escolha da data deu-se   em razão da transferência do primeiro acervo bibliográfico que tivemos no Brasil, rico medalhas, moedas, livros, manuscritos, mapas, etc. para a   Biblioteca Nacional, em 1810.   Além desta data, o livro no Brasil tem outros dois momentos   marcantes: A primeira publicação feita no paí­s ,   Marí­lia de Dirceu de   Tomás Antí´nio Gonzaga e o ano de 1925, quando   Monteiro Lobato, autor do Jeca Tatu e do Sí­tio do Picapau Amarelo, funda Companhia Editora Nacional, trazendo grandes possibilidades de crescimento editorial para o Brasil. í‰ dele a expressão que intitula esta crí´nica. No Rio Grande do Sul, jamais poderemos falar em livro sem saudar a verdadeira epopéia literária da Livraria do Globo, uma vertente de escritores regionais, como í‰rico Verí­ssimo, e de divulgação de renomados autores internacionais. Esta crí´nica do   Dia do Livro não estaria completa, porém, se não lembrássemos o nosso grande patrono em Torres , Rui Rubens Ruschel, homenageado com uma Sala de Leitura na Livraria Super Livros:

Grande conhecedor da história de Torres, Ruy Ruben Ruschel, compartilhou através de suas obras todo seu conhecimento e apreço pelo municí­pio. Entre seus livros destacam-se São Domingos das Torres, Torres Origens e Os Fortes de Torres. Já "Torres Tem História"  foi uma obra de crí´nicas do autor, organizadas pela professora Nilza Ely em sua homenagem.

 

Mas, o que é um livro? Até hoje ninguém conseguiu definir com precisão o livro. Um bom roteiro para sabermos mais sobre esta verdadeira dádiva, que até hoje, como jornal, nos chega í  porta de casa com o saudável odor das madrugadas por ser encontrada em A Revolução do Livro, de Robert Scarpit, (Ed.FGV/INL, RJ, 1976). Sabe-se o que ele não é: um objeto material com dimensíµes e propriedades fí­sicas definidas. Ou, ele não se reduz a isto. Não se trata, também, num mundo de mercadorias insensí­veis, de mais uma delas, sujeita í s leis do mercado, muito embora também o seja. Fala-se, por exemplo da importância das commodities no comércio internacional. Estes são produtos homogêneos que se vendem í s toneladas: minérios em estado bruto e produtos agrí­colas. Nada mais distante do que seja um livro, cada qual portador de uma alma própria, sua identidade, guardada nas mensagens que encerra em palavras: sentimentos, informação técnico-cientí­fica, guias de todo tipo para múltiplos fins, imagens impressas, mapas. O livro, enfim, é o produto mais próximo da própria condição humana. í‰ o suporte ampliado da nossa perecí­vel memória individual. Ao mesmo tempo, capaz de promover verdadeiros milagres aos seus intérpretes, que viajam imaginariamente nas suas   linhas e entrelinhas. O livro materializou um dos grandes saltos civilizatórios da humanidade, desde a conquista da fala. A escrita, já presente milhares de anos antes de Cristo, acumulada por privilegiadas castas a ela dedicadas como uma nobre arte, cristalizou a fala e potenciou a oralidade. Era definida como a lí­ngua dos mortos, porque através dos manuscritos eternizavam   discursos. Mas durante muitos séculos a escrita ficou restrita í  superfí­cies pesadas e alfabetos extremamente complexos. O chinês, por exemplo, tem, ainda hoje, cerca de 3.000 sí­mbolos. Já teve mais de dez mil… A Grécia clássica rompeu estes limites ao criar um alfabeto fonético, que herdamos no mundo latino , com 26 fonemas, daí­ universalizando-se por todos os longos caminhos do Império Romano: simples e disposto sobre folhas leves. Graças a isto, a Grécia transformou-se num centro polarizador da inteligência, em cujas obras ainda bebemos sabedoria. Ainda assim, o livro era um produto de acesso limitado, remetendo-se, para sua guarda e acesso í s grandes bibliotecas, como a de Alexandria. Na Idade Média , na Europa Ocidental e no Império Bizantino, isto não mudou muito. í€s bibliotecas sucederam-se os mosteiros com seus famosos monges copistas que guardavam cuidadosamente e com mais cuidado ainda transportavam de um lado a outro obras clássicas.

Aos poucos, porém, mas não menos de quase mil anos, a Europa foi renascendo e rearticulando-se em torno de comunas, feiras e rotas de comércio com o Oriente, ganhando não só novas feiçíµes como novos grupos sociais num processo que desembocaria   explosivamente no Renascimento e nas Grandes Navegaçíµes do Século XVI. Isto alterou substancialmente a cultura, a estrutura de poder e as crenças da época, inaugurando o que se denomina Idade Moderna que nos chega como uma nova andança sobre o par razão e liberdade em busca do conhecimento e da autonomia humana.

Decisiva importância neste processo teve a invenção da imprensa por   Johannes Gutenberg (1398-1468). A partir deste mecanismo, primeiro mecânico, hoje acionado eletronicamente, disseminou-se   a publicação de livros em série, tendo sido a Bí­blia de Gutenberg,   a primeira delas. Era uma obra em 642 páginas , numa tiragem   de duzentos exemplares, logo reproduzida aos milhares, quebrando o monopólio da palavra de Deus pela Igreja. Paradoxalmente, neste gesto soltava-se o diabo da sabedoria.

Hoje, com a INTERNET e a crescente disseminação do livro eletrí´nico (o e-book), a informação, outrora limitada a um suporte, desmaterializa-se e se dissemina numa revolução ainda mais ampla e profunda. Rigorosamente, vivemos uma nova revolução na comunicação humana, agora em escala planetária. Os frutos deste processo ainda são insondáveis. Ele entranha complexas relaçíµes mas traz consigo uma Primavera de novos horizontes para a humanidade. Muitos até pensam que , dentre em pouco, os livros impressos voltarão para as bibliotecas, convertidas em museus da Era da Imprensa. Pode ser. Mas até lá ainda usufruiremos do prazer de sentir o odor das notí­cias frescas pelos jornais e a delí­cia de folhear páginas encantadas, crivadas de registros pessoais de bons livros.

Depois das urnas, pois, TODOS í€S FEIRAS DO LIVRO, destinadas não só a venda de livros, mas í  abertura do apetite pela leitura com o contato direto entre leitores e escritores.


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