Quanto vale uma VIDA?

23 de janeiro de 2015

 

O surfista Ricardo dos Santos (e) foi assassinado na Guarda do Embaú, e o  traficante Marco Archer (d) foi fuzilado na Indonésia

 

Por Maiara Raupp*

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A banalização da violência (influenciada pela mí­dia) tornou-se insuportável no mundo atual.  Que morreremos um dia, isso é inevitável, mas o indiví­duo morrer antes do tempo, jovem e por motivos banais é injusto, inaceitável. O que desanima é saber que tanta gente vê a violência como uma saí­da, uma solução na busca por poder e dinheiro.  

 

Este é talvez um dos fatos mais assustadores  e tristes do nosso momento: falta de segurança  generalizada e o medo, pois no Brasil se  mata e se morre como quem come um pãozinho. A impressão que se tem (ao ficar ligado num telejornal ou nas notí­cias compartilhadas nas redes sociais) é que a maldade chegou a tal ponto que as coisas têm acontecido cada vez mais perto de nós e não estamos fazendo nada para mudar.

A morte prematura do surfista profissional Ricardo dos Santos, baleado na última segunda-feira (19) depois de uma discussão com um policial em férias no litoral catarinense, fez com que parássemos para refletir sobre a vida e fragilidade dela. Em todos os seus sentidos a vida está sendo banalizada e  – o que é mais terrí­vel – desprezada e descuidada por motivos torpes e inaceitáveis. Como observa o Bispo Dom Antí´nio Augusto Duarte, há desvalorização quanto í  maternidade, desprezo pela infância e pela juventude, descuido com a saúde e com o saneamento básico das cidades brasileiras, grave e crí´nico problema de moradia para os pobres e desempregados, violência e o vandalismo urbano, trânsito insuportável e estressante das metrópoles, a situação dos presí­dios com superlotação (e com uma ociosidade maligna), as condiçíµes dos hospitais públicos e dos postos de saúde, restaurantes e bares sem condiçíµes de preservação de alimentos e sem fiscalização séria e honesta, a corrupção, os roubos de dinheiro público, acobertados por pessoas e por órgãos fiscalizadores. O descaso atual com a vida humana é verificável, é noticiado, é um escândalo que clama aos céus, e há cidadãos brasileiros que insistem em dizer que o Brasil melhorou, e que nunca antes na sua história se fez tanto pelo povo brasileiro desde que se iniciou o século XXI, contestou o Bispo, ressaltando ainda que a sociedade está sendo ví­tima do descaso dos poderes públicos e está precisando urgentemente de um remédio barato, acessí­vel e não importado: o  respeito  pela dignidade humana.

 

Sociedade individualista e presí­dios ineficientes

 

Segundo a psicóloga torrense Lúcia Marques, a sociedade atual é muito individualista. Isso significa que o que é bom para mim está acima do bem comum. As pessoas agem dessa forma nas pequenas e grandes coisas e a contemporaneidade, nosso modo de trabalhar, se comunicar e até de by browseonline">conhecer pessoas novas é muito instantâneo e impessoal. Isso de certa forma nos afasta de enxergar a humanidade no outro e torna o ato de prejudicar alguém algo mais ˜fácil™. Resolver isso é algo bastante complexo".

Segundo a pensa a psicóloga, há bastante tempo o Brasil tem um sério problema no que diz respeito í  pena e ressocialização. "Andamos na contramão dos paí­ses desenvolvidos, abandonando os apenados em situação sub-humana, com uma justiça lenta e burocrática que aplica puniçíµes desproporcionais. Alguns falam em privatizar presí­dios. Eu embora não seja especialista, sou contra. Privatizar cadeias é criar no Brasil uma indústria de encarceramento de pequenos criminosos, daquele que tem menos acesso a educação, saúde e justiça. Ressocializar é o caminho. Hoje a Suécia fecha presí­dios por causa da falta de presos e se formos avaliar o sistema carcerário deles é rí­gido, justo, porém humano. Ainda existe aqui uma mentalidade de que preso tem que sofrer violência, viver nas piores condiçíµes, e essa é uma mentalidade também violenta, além de medieval. As pessoas têm de aprender a pensar na coletividade, a tratar todos de forma respeitosa e igual e só assim acho que poderemos reverter este crescente quadro de violência, afirmou Lúcia.

 

Repercussíµes pela morte de Ricardinho

 

O surfista profissional Ricardo dos Santos, de apenas 24 anos, que tanto lutava pela vida e pelo mundo em que vivemos, foi baleado na última segunda-feira (19), na praia da Guarda do Embaú (em Palhoça), após uma discussão com o policial Luis Paulo Mota Brentano, de 25 anos, que estava de férias no municí­pio.

A morte do surfista causou grande comoção e repercutiu também no meio do surfe. Na rede social, o americano Kelly Slater, onze vezes campeão mundial de surfe, escreveu um texto em memória ao brasileiro. Uma manhã bonita, mas estou horrorizado ao perceber que todo mundo estava remando para o outside em Pipeline para formar um cí­rculo e homenagear a memória do meu amigo Ricardo dos Santos, que faleceu no hospital após ser baleado três vezes no Brasil. Ricardo dos Santos foi realmente um dos maiores pegadores de tubo em sua curta vida (eu e outros aprendemos muito com ele, quando ele venceu um evento em Teahupoo). (…) Infelizmente, o que aconteceu traz a luta o número de assassinatos no Brasil, que são mais de 50 mil oficializados, além de muitos outros que não são declarados. Falta de educação, pobreza e drogas não fazem uma boa mistura e torna a vida um desafio no paí­s, um dos mais belos lugares que já fui., desabafou o surfista (que inclusive já namorou a modelo Gisele Bundchen).

A surfista torrense, Rafaela Favero Bandeira, que atualmente mora no Canadá, também demonstrou sua indignação. Fiquei chocada com a morte do Ricardinho e mais chocada ainda agora quando soube que o cara que cometeu esse absurdo era um policial. Morro de saudades do Brasil, mas viver em um paí­s onde tantas pessoas morrem por dia por motivos tão banais é assustador. Não deveria este cara estar protegendo cidadãos? Tudo bem que a droga está em qualquer lugar, mas agora usar farda significa poder fazer o que quiser em qualquer lugar? Estar acima das leis? Cadê a honra em ser alguém que protege um povo? As pessoas aqui não têm para onde correr. Aí­ tem gente que ainda acha que uma pessoa dessas tem regeneração. Eu não sei até que ponto a Indonésia está tão errada quando é a favor da pena de morte, externou Rafaela.

 

 

 

Indonésia X Brasil

 

Já na semana passada, a execução de um brasileiro (desde sempre traficante internacional) condenado por tráfico de drogas na Indonésia chamou a atenção do paí­s. Motivou debates acalorados nas redes sociais, extensa cobertura da imprensa e até telefonemas da presidente Dilma Rousseff ao paí­s asiático, em busca de clemência para o compatriota. Após o fuzilamento, a presidente chamou para consultas o embaixador brasileiro em Jacarta para manifestar seu repúdio í  execução.

O fuzilamento de Marco Archer, aos 53 anos, levantou ainda um tema para debate: por que tantas outras mortes, ocorridas em solo brasileiro, não despertam interesse social ou polí­tico equivalente? A cada hora, seis brasileiros são assassinados. Isso totalizou, segundo a publicação oficial Mapa da Violência, 56,3 mil ví­timas em 2012 (perí­odo mais recente com dados disponí­veis). í‰ como se a população de Torres, Três Cachoeiras e Arroio do Sal fosse totalmente dizimada a cada ano. Exceto casos esporádicos, que chamaram a atenção por algum detalhe de crueldade, essa multidão foi enterrada sem grande alarde.

O perfil da maioria das ví­timas cotidianas pode explicar em parte o silêncio seletivo: 53% dos crimes tiveram como alvo jovens negros, de 15 a 29 anos, geralmente moradores de periferias distantes. í‰ um número altí­ssimo, que tem começado a chamar mais a atenção. Parte da justificativa (disso ser tratado como uma questão secundária) está em nossa desigualdade social e na percepção de que há indiví­duos que são considerados subcidadãos, sem o mesmo direito í  vida. Quando a polí­cia é cobrada, a justificativa é de que são bandidos matando bandidos ou mortes ligadas ao tráfico, avaliou o professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Criminais da PUCRS, Rodrigo de Azevedo, acrescentando ainda que o caso de Marco Archer tornou-se ainda mais notório por ter sido a primeira vez em que um brasileiro foi morto a mando do Estado em tempo de paz, e pelo fato de a punição ter como alvo um homem de classe média.  

O debate ganhou força também porque o brasileiro foi punido com a morte pelo crime de tráfico, que é um tema sempre polêmico e envolve a discussão sobre a descriminalização das drogas.
Outro brasileiro deve ser fuzilado na Indonésia por tráfico de drogas, após as autoridades do paí­s asiático negarem o pedido de clemência realizado pelo governo brasileiro na última terça-feira (20). Rodrigo Gularte, de 42 anos, foi condenado í  morte em 2005 por ingressar na Indonésia com seis quilos de cocaí­na escondidos em pranchas de surf. A data da execução ainda não foi fixada, mas a defesa dos direitos humanos – assim como a preocupação com as questíµes ambientais – são temas que pautam os posicionamentos internacionais do Brasil. Porém,os números mostram que há um duro dever de casa a ser cumprido dentro do próprio paí­s: somos considerados o sétimo paí­s mais violento do mundo, ficando atrás apenas de outros paí­ses subdesenvolvidos da America Latina (campeã em violência).

Diante da morte do surfista e dos fuzilamentos na Indonésia, o fotógrafo André Vanzin criticou e comparou o posicionamento da presidente Dilma. Depois da presidente dizer em nota oficial estar consternada e indignada com o fuzilamento de um traficante brasileiro em um paí­s onde se cumpre as leis, temos esse assassinato por fuzilamento de um atleta, exemplo e inocente, na praia da Guarda do Embaú.  E agora Dilma, cadê a nota oficial? A diferença entre o Brasil e a Indonésia é que lá os policiais fuzilam quem age contra a lei, já por aqui… Quando eu digo que os valores no Brasil se inverteram faz muito tempo, é aí­ que eu me refiro, desabafou o fotógrafo.

 

 

Homicí­dios no RS e polí­ticas públicas de segurança

 

O balanço da criminalidade, divulgado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, apontou que  cresceu 19,6%  o número de  homicí­dios dolosos  no Estado de janeiro a setembro de 2014, em comparação com o mesmo perí­odo do ano passado. De acordo com os dados, são 1.697 assassinatos neste critério  nos três trimestres; em 2013, foram 1.419. Esse é um contexto do paí­s. A segurança pública ainda não tem a ciência para resolver. Ninguém está satisfeito, temos de  mudar  os resultados, disse o secretário de Segurança gaúcho, Airton Michels.

A psicóloga torrense, Gisiane Correa, acredita que esse aumento significativo de homicí­dios coincide com a entrada e a difusão das drogas na maioria das grandes cidades e também nos pequenos municí­pios. Esse aumento leva as autoridades a repensarem as polí­ticas públicas e as estratégias de defesa social. As caracterí­sticas regionais geram diferenças, acesso í  saúde, educação, saneamento básico. A demora nos julgamentos leva a falta de punição em muitos casos. Assim, não é de se estranhar que em um paí­s onde haja carências de investimentos em contratação e capacitação de policiais, perí­cia sucateada, descaso das autoridades e conformismo da população, questíµes raciais de gênero, o poder abusivo de quem deveria nos defender demonstra nas estatí­sticas o porquê de tanta violência nas cidades. No Brasil a população tem medo da polí­cia. O nosso policiamento é despreparado para relacionar-se com a população. Vivemos uma guerra civil. O que se tem visto é a justificativa de muitos policiais, que dizem usar de legí­tima defesa, como foi no caso do surfista catarinense, uma tragédia. Faltam trabalhos terapêuticos voltados í  saúde mental de quem deveria nos proteger, destacou a psicóloga.

Segundo Gisiane, polí­ticas públicas de segurança devem ser desenvolvidas para reduzir esses í­ndices de homicí­dios que fazem do Brasil o paí­s com o maior número de mortes com a utilização de arma de fogo por habitante. O tema sobre o que deve ser feito com as pessoas que cometem esses crimes é conflituoso porque está cercado de mistificaçíµes e conceitos pseudocientí­ficos, alguns deles solidificados em dogmas que impedem que a discussão ocorra nos seus devidos termos. Nem a psicologia, nem a neurologia, nem a sociologia, nem qualquer outro ramo do conhecimento dará uma resposta definitiva. í‰ um assunto que precisa ser debatido de maneira pragmática, de olho nos efeitos que cada solução pode trazer, concluiu a psicóloga.

 

 

* com informaçíµes Zero Hora


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