PRESíDIO FEMININO DE TORRES (PARTE 2): Uma conversa com as detentas

13 de fevereiro de 2015

O jornal A FOLHA continua a reportagem sobre o Presí­dio Feminino de Torres, desta vez trazendo o ponto de vista das apenadas sobre sua vida no cárcere e a relação com os cursos oferecidos na instituição criminal  

 

Por Guile Rocha

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Andréia: A saudade dos 8 filhos

 

Andréia Gonçalves tem 37 anos,   é de Tramandaí­ e está ha cerca de 10 meses no presí­dio feminino de Torres, detida por tráfico de drogas. Ela foi uma das apenadas que, no primeiro semestre de 2014, integrou o projeto "Sonho de Liberdade", uma iniciativa da Fundação Maçí´nica Educacional   onde 33 detentas receberam especialização em três áreas especí­ficas (cursos de elétrica básica, pintura-textura predial ou revestimento cerâmico) para após efetuarem – por conta própria –   a reforma de um dos pavilhíµes do Presí­dio Feminino de Torres. "Aprendi a fazer a massa corrida, arrumar o piso. Ai tu vê que tu é capaz, é difí­cil de acreditar no resultado no final (de tão bem acabado que ficou o pavilhão)".

Atualmente, Andreia está participando de outro curso, desta vez de artesanato utilizando materiais reciclados (alcunhado de RENOVAR-TE). E ela ainda aprendeu outros ofí­cios no seu tempo de presí­dio. "Hoje, vejo como algo bom o fato que eu vim para cá. Cometi um erro, fui presa e estou sendo punida,   mas também estou aprendendo outras coisas que lá na rua eu não tinha nem tempo para fazer. Já aprendi a bordar, a pintar, a trabalhar com reciclagem – que era o que minha mãe fazia antes. Acredito que estou saindo daqui mais qualificada do que entrei".

Para Andréia, o mais duro de estar presa é ficar longe de seus 8 filhos – sendo que o mais novo tem apenas 3 anos. Contudo, a apenada vê o tempo que ela está passando no Presí­dio em Torres como uma remoldagem, para após poder voltar ao conví­vio da sociedade limpa (das drogas que consumia) e qualificada para exercer outros trabalhos (a partir dos cursos que fez). "A convivência aqui não é perfeita, também existe fofoca e intriga, uma querendo derrubar a outra. Mas a violência fí­sica é zero, o pessoal no geral se respeita e o conví­vio   com as meninas (nos cursos profissionalizantes) faz com que a gente se sinta numa firma, trabalhando".

 

Michele: vivendo o presente

 

Já Michele Ramos, de São Leopoldo,   tem 32 anos e uma pena mais longa para cumprir no presí­dio de Torres, após ser sentenciada por homicí­dio (que ela diz que foi em legí­tima defesa). Ela está também participando do curso de artesanato dentro do presí­dio, e conta que a experiência é uma forma para não focar nos pensamentos tristes ou ruins que advém do tempo no cárcere. "Acabamos nos focando mais no que a gente está fazendo, vivemos o presente e não ficamos pensando nos erros do passado ou na saudade da famí­lia, que é o que mais dói", diz Michele, mãe de dois filhos que atualmente vivem com o seu esposo.

A detenção no presí­dio de Torres não foi a primeira de Michele, que já havia estado presa anteriormente. E ela afirma que, no passado, ao sair em liberdade, sofreu preconceito no mercado de trabalho. "Quando o possí­vel empregador puxa tua ficha e vê que tu é ex-presidiária, fica bem mais difí­cil conseguir trabalho. Há muita desconfiança na hora de contratar alguém que já cumpriu pena. Mas este trabalho com o artesanato que estamos fazendo não é algo que precisa ter carteira assinada para fazer: é só juntar umas garrafas na rua e já se cria alguma coisa. Isso mostra que uma presidiária pode trabalhar mais e melhor que qualquer outra pessoa".

Michele conta que o curso de artesanato vêm sendo uma motivação para sua vida no presí­dio (até porque, a cada 5 dias trabalhando na atividade, reduz-se um dia da pena). Contudo, a maioria das apenadas não demonstra interesse em fazer qualquer curso. "Elas pensam que, já que estão presas mesmo, não importa ficar fazendo curso ou se aprimorando. A maioria já tem passagem anterior em presí­dio também, dai ficam com o tempo ocioso reclamando da vida, ou pensando no que vão fazer quando sairem".

 

Fabiana: cursos para motivar e passar o tempo

 

Presa por foi tráfico de ectstasy,     Fabiana Pires é uma das exceçíµes entre as apenadas do Presí­dio Feminino de Torres. Ao contrário da maioria das detentas – mulheres pobres e com baixa escolaridade – ela é da classe média, possui formação acadêmica em Design Gráfico, é técnica de informática e tem proficiência em Inglês. "O envolvimento com as drogas começou com algumas amizades erradas, pessoas que me introduziram nesse mundo. Dai   logo comecei a usar e entrar  no meio,   e quando vi já estava no tráfico. Ainda que eu tivesse formação, o tráfico era uma forma mais rápida de conseguir dinheiro. Porém, tive que ficar presa para perceber que era tudo uma falsa ilusão: o dinheiro ganhado fácil se perdeu todo, e agora na cadeia não posso acompanhar os momentos do meu filho (que tem 16 anos e vive com a mãe de Fabiana, em Porto Alegre)".

A presa Fabiana conta que chegou no presí­dio com a moral baixa, e não se interessava em fazer qualquer um dos cursos oferecidos no cárcere (como o de camareira ou auxiliar de cozinha). "Porém, após um ano presa, o artesanato me motivou, até porque minha mãe era professora de artes e artesã. E agora que estou aqui dentro, praticando e criando, tenho uma visão bem diferente do artesanato. Além do mais, enquanto estamos produzindo nossa arte, sentimos o tempo passar mais depressa".

Hoje, o curso de artesanato RENOVAR-TE tem em Fabiana, Michele e Andreia – as três entrevistadas pelo jornal A FOLHA para esta reportagem – alunas dedicadas que são como que supervisoras no processo de aprendizagem. "As que sabem um pouco mais vão ensinando para as outras. Aprendemos a conviver melhor em grupo, aceitar as crí­ticas, e ainda forma-se uma convivência legal entre o pessoal do artesanato. Mas nem todas tem essa chance de integração e aprendizado (já que em cada curso apenas 10 detentas podem ser inscritas, enquanto o presí­dio feminino tem cerca de 70 apenadas)", finaliza Fabiana.

 


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